terça-feira, 31 de maio de 2016

TENHO SEDE

Um médico seu amigo pediu-me para a ir visitar; não sem antes me informar de que a iria encontrar num "estado lastimável", praticamente em fase terminal. 
Dirigi-me à equipa de serviço e foi-me dito que a senhora se encontrava numa "determinada sala" e que se encontrava muito mal, que já não falava nem abria os olhos. 
Fui até junto à cama e verifiquei que era verdade o que me tinham dito. 
No entanto, não deixei de tentar falar. 
Peguei numa das mãos e... passado algum tempo, a senhora abre os olhos e encara-me: "Quem é o senhor?", ouvi eu lá do fundo dela mesma."Eu sou o padre do Hospital". "Ah, já sei: foi o meu compadre Dr.... que lhe pediu para vir junto a mim!". "Sim, é verdade!
Voltou a fechar os olhos. Continuei a seu lado. Esperei mais algum tempo e por mais algum gesto. Daí a pouco, voltei a ouvir: "Tenho sede!
Fui perguntar se lhe podia dar água; "quem sim!". 
Junto à cama, dei-lhe um pouco de água numa seringa. 
Nunca vi ninguém a beber com tanta sofreguidão! 
Depois, disse-me:"Reze comigo. E vou ver se posso receber a Comunhão". Rezámos, dei-lhe um pedacinho da partícula. Fizemos silêncio. 
Por fim, disse-me: "Obrigada. Tenho paz!". 
No dia seguinte, ela partiu para o Pai. Mas aquele "tenho sede!" ainda ecoa dentro de mim.

domingo, 29 de maio de 2016

AINDA ACREDITO EM "MILAGRES"

Eu estava no meu gabinete a fazer os últimos preparativos para a Eucaristia. Batem à porta. Reconheci a senhora: era a mãe da Susana.
A Susana era uma moça que esteve internada durante muitos meses: com uma patologia rara e complicada. No auge da sua doença, ela estava cheia de ferros na cabeça, não se alimentava, respiração assistida, não falava e pouco ouvia. Estava "pele e osso". Umas 3 vezes, a mãe trouxe-a à capela: em cadeira de rodas especial. 
"Metia dó" ver o estado da Susana e o estado da mãe. A determinada altura, ela teve alta: não havia mais nada a fazer. Assisti à despedida.
Já lá vão muitos meses.
"Posso entrar?"
"Claro." (Estremeci ao imaginar o que esta senhora me iria dizer. Será que a Susana ainda está viva?)
"Padre, pode vir comigo?"
"Onde?"
"Vamos ali ao átrio"
Acompanhei-a.
"Espere um pouco."
Entretanto, fomos conversando. A mãe não me quis dizer nada. Era surpresa.
De repente, ela diz-me:
"Olhe para trás"
Olhei. E vi a Susana sã e escorreita. Chorei de alegria. Abracei-me a ela a beijei-a. Vinha acompanhada pelo namorado. "Até já conduz o carro sozinha!"Foi um encontro maravilhoso.
Tinha de me despedir para ir celebrar a Eucaristia. Elas foram visitar uma amiga que estava internada.
Durante a Celebração, no momento do Pai-Nosso, vi a Susana entrar na capela. Etremeci ao recordar as vezes que a tinha visto entrar lá num estado de grande sofrimento. Fiquei com a voz embargada... uns momentos sem ser capaz de continuar....
Antes de toda a assembleia sair, chamei a Susana à frente. Algumas pessoas ainda se recordavam dela. Foi um momento que não sou capaz de descrever. A alegria invadiu todas as pessoas.
Nesta casa, apesar de momentos muito difíceis que passamos, também temos muitos momentos de alegria!
A Susana continua de boa saúde e já teve um bébé. São e escorreito. 
Ainda vou encontrando milagres no dia a dia da vida!

sábado, 28 de maio de 2016

QUERO MORRER

Ao vê-la entrar no gabinete, reparei que vinha bastante nervosa e com muita ansiedade.
"Venho duma consulta. Não me tenho sentido nada bem. Há uns dois meses tive uma ameaça de enfarte. Apesar disso, o médico disse-me que a situação está a melhorar. Mas continuo a sentir um aperto enorme no meu peito. Não sei do que isto será. Olhe, todos os dias peço a morte a Deus. Não quero viver. Estou farta da vida. Vivo num rés-do-chão, para não subir escadas; tenho uma filha que vive no 3º andar. Às vezes, passam-se dois meses sem ela me visitar. Há duas semanas, estive oito dias de cama; ninguém me foi ver; lá me ia levantando para aquecer um pouquito de leite; telefonei à minha filha e ela, passados três dias, apareceu lá, toda chateada, a dizer que o mal que eu tenho feito lhe cai em cima dela. Mas que mal é que eu tenho feito? Tenho um outro filho, mas vive longe; só de tempos a tempos me vem ver. Coitado! Ele está cheio de problemas: é doente e a mulher também; tem uma enteada que está muito mal. Os meus 85 anos estão a ser bastante sofridos. Não quero viver mais. Quero morrer! Sei que estou a ofender a Deus, ao pedir-lhe a morte..."
"Quer mesmo morrer?", perguntei eu.
"Quero. Estou tão sozinha!..."
"Mas quer morrer, ou quer que alguém esteja consigo, que lhe dêem carinho e afecto?"
"Pois. É isso: se eu tivesse afecto, se alguém me desse carinho... "
"Por isso, não tenha medo de 'estar a ofender a Deus' por desejar a morte. Ele sabe que o que a senhora precisa é de amor e de alguém que se interesse por si."
"A sério que Ele não Se ofende comigo?
"Não!"

quinta-feira, 26 de maio de 2016

FIQUEI APAIXONADO

87 anos. Olhar distante. Não ouve bem. Não fala. Parece que está a contra-gosto na vida!
Violência doméstica: um filho agride-a para lhe ficar com o dinheiro da reforma.
Tento conversar. Tenho de lhe falar ao ouvido. De vez em quando vêm um "sim" ou um "não", mas muito distantes e a medo.
Ao ouvir a palavra "Comunhão" sorri quase com medo. Reza o Pai-Nosso todo inteiro. Comunga. Imediatamente o seu sorrido é aberto. LINDO! Este sorriso, acompanhado duns olhos azuis, deu cabo de mim. Fiquei apaixonado por este sorriso e por estes olhos.
Ao ouvido, digo-lhe: "Tem um sorriso tão lindo!" Foi então que vi o sorriso mais belo e aberto em pessoas com esta idade! Ainda mais apaixonado fiquei. Não me posso separar deste sorriso. Não foram necessárias muitas palavras. O sorriso e o olhar disseram tudo.
Ficaram gravados a ferro e fogo no mais profundo de mim mesmo.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

"PORTA-TE BEM, MIGUEL!"

Acompanhámos o Miguel naquele que foi o seu último dia de presença física entre nós. 
Tinha 34 anos. Há já alguns meses que estava doente. Uma neoplasia. 
As metástases atiraram o Miguel para os cuidados paliativos. 
Ao longo de todos os períodos de internamento, a presença da sua mãe foi uma constante. Muito aguenta uma mãe! E também dói cá dentro ver os olhos sofridos duma mãe. E doía muito ver os olhos suplicantes, magoados e sofredores do Miguel.
Hoje, a mãe, de lágrimas nos olhos, veio entregar-me a pequena pagela de recordação do Miguel. Uma foto do rosto marcado pela doença, mas com um sorriso encantador porque tinha ao colo o sobrinhito. Ao lado, o seguinte texto:
"Adeus, adeus, meus amigos.
Sorrio e digo-vos adeus.
Não, não derrameis lágrimas: não preciso delas.
Tudo o que quero é o vosso sorriso.
Se sentirem tristeza, pensem em mim.
Eis o que gostaria.
Quando vivemos no coração dos que amamos,
lembremo-nos de que nunca morremos" (Tagore)
Gostei de te conhecer, Miguel. E à tua família. 
Deixa então que eu recorde as vezes em que eu te chamava "gandulo" e tu replicavas "só eu?". Quando eu te dizia "porta-te bem" e imediatamente eras capaz de dizer "igualmente". E os cigarritos que íamos fumando à entrada da portaria e que foram oportunidade para algumas conversas. 
Gostei de te conhecer, pá. E... "porta-te bem, seu gandulo!". 
Claro que, agora, aí onde te encontras, me podes dizer com toda a propriedade: "Igualmente!". Um abraço.
(Ah...! Já te encontraste com a tua mãe? Ela foi ter contigo! Imagino o que vocês terão dito um ao outro...!)

segunda-feira, 23 de maio de 2016

ESTOU A DESCOBRIR QUE SOU ATEU

Tem 27 anos. Futuro promissor. Trabalha para uma Multinacional. Dá aulas. Conferências. Tem projectos. Desenvolve descobertas e parcerias. 
Namora. Além do trabalho, anseia constituir família. Como quase toda a gente. Desconfia que tem um linfoma. Ainda não tem a certeza. 
Voz calma, apesar de dizer que ela está muito diferente do que era ("Aprendi a colocar a voz!"). Temos conversado um pouco: o possível. Até porque se cansa a falar: tosse com alguma frequência. Há alguns dias dei com ele a dizer-me: "Estou a descobrir que sou ateu". "Porquê?", perguntei eu. "Ouço os meus colegas doentes a lamentar-se e a dizer 'porquê a mim?' 'que mal fiz eu a Deus?' 'Deus está a castigar-me'... Eu não sou capaz de dizer isso. Na minha mentalidade científica, tudo isto faz parte da natureza humana."
Lembrei-me de alguém que já há uns tempos me dizia que "o Hospital é um cemitério de Deus". As imagens de Deus que vamos construindo na vida, é no Hospital que as enterramos. O deus tapa-buracos, o deus milagreiro, o deus justiceiro, o deus que está fora e que chamamos para actuar em cada situação tornando-nos infantis religiosamente... estes deuses morrem no Hospital. Temos de os enterrar. Porque eles não são o Deus de Jesus Cristo. Como diz alguém: "Deus está connosco, mas guarda silêncio"
O António não é capaz de 'atacar' Deus na sua doença. Pela minha parte, não sei se ele está a ser tão ateu quanto isso! Mas quero respeitá-lo na sua não-crença. 
Dá gosto falar com este rapaz. Só espero que ele consiga realizar o que pensa para daqui a 5 ou 6 anos (já que não conseguiu realizá-lo por enquanto): vir a ter filhos.
Um abraço, António. Continuaremos a falar. Sempre que quiseres e possas.

sábado, 21 de maio de 2016

ENCONTRO DE APAIXONADOS COM 70 E TAL ANOS

Há quase dois meses que estava internado. 
É um homem simpático, dos seus 70 e tal anos. Casado com a D. Maria. Não têm filhos. 
Todos os dias, pontualmente às 14 h., a mulher o vem visitar. Desloca-se, de autocarro, de bastantes quilómetros de distância. 
A semana passada abeirei-me dela para lhe dar os parabéns pela maneira como vem sempre vestida: com o traje tradicional da sua terra. É uma figura simpatiquíssima: sempre alegre, mas, ao mesmo tempo, sempre desejosa de que o eu querido regresse a casa. 
Ontem, da parte da manhã, visitei o sr. José. Estava triste (o que não é nada normal nele). “Ontem, às 14:30, comecei a ficar preocupado: a minha mulher não apareceu. Vieram dizer-me que ela tinha tido uma gripe e não podia vir. Mas eu não acredito. Uma gripe não impede que ela me telefone. Estou angustiado. O que é que se terá passado?"
Tive algo que me dizia que ela estava internada. Fui verificar. Realmente estava. Na Unidade de AVC's. Fui falar com a Equipa de serviço. Contei o sucedido. Perguntei se seria útil levá-lo junto da esposa. Disseram que não haveria problema algum se a Equipa da Unidade de AVC's também achasse o mesmo em relação à D. Maria.
Contactei com a Equipa e foi-me dito que até seria muito bom eles encontrarem-se.
Assim que foi possível conduzimos o sr. José a visitar a sua mulher. Levámo-lo em cadeira de rodas. O encontro entre os dois foi indescritível. O carinho, o afecto, a alegria… Deixámo-los namorar um pouco. Pareciam uns namorados a descobrirem quanto se amavam!
“Agora estou mais descansado. Vi que ela já está bem. E está bem entregue.”
Depois de a D. Maria ficar boa e ter alta, todos os dias ela fazia, de novo, os quilómetros necessários para vir visitar o sr. José. Até ele morrer depois de alguns meses.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

UM POÇO DE DOENÇAS... MAS FELIZ!

Um "poço de doenças" e de sofrimentos! 
Com apenas 40 e poucos anos. 
Depois de uma doença renal (faz diálise), aparece-lhe uma leucemia. 
O marido teve um enfarte há três meses; está a fazer fisioterapia; também com 40 e poucos anos. 
Para cúmulo, o filho mais velho deixa de falar com o pai em plena doença, não se sabe porquê. 
Parece que sofreu mais com esta zanga do que com as doenças. 
Hoje visitei-a. Apesar de tudo e com tudo, dizia que era o dia mais feliz da sua vida: "Recebi esta manhã um telefonema. O meu marido disse que o filho o tinha ido buscar para irem passear. Estou feliz. Tanto rezei para que o meu filho voltasse a falar para o pai... Fui ouvida! Estou mesmo feliz!"

Apesar de ter temperatura altíssima, vómitos e mal-estar, eu vi que esta mulher estava mesmo feliz.

terça-feira, 17 de maio de 2016

A UNÇÃO A UM DOENTE, ACOMPANHADA DE ORAÇÃO MUÇULMANA

Toca o meu telemóvel interno. Vejo que é da portaria que me chamam.
"Padre, onde o podemos encontrar?"
"Estou no 4º Piso. Mas, se esperarem um pouquinho, irei ter convosco."
"Sim, esperamos por si na Capela".
Desci a toda a pressa. Vi que, na voz, havia ansiedade e sofrimento. Entramos no gabinete, convido a sentarem-se (uma senhora já de bastante idade e outra bem mais nova, sobrinha da mais velha). Não fui capaz de perguntar "o que se passa" e também não foi preciso, porque, imediatamente, a senhora mais velha começou a dizer ao que vinham.
"Tenho o meu genro muito mal. Ao que diz a Equipa Médica, a vida dele está presa por minutos. Peço-lhe que vá junto a ele e lhe dê a Unção dos Doentes."
Da maneira como falava, depreendi que eram pessoas que sabiam do que estavam a falar.
"E a sua filha?"
"A minha filha está junto a ele; não o quer abandonar; ele está a sofrer muito."
Conversamos mais um pouco. Por fim, a senhora mais velha diz:
"Sabe? Eu e a minha filha somos muçulmanas. Mas o meu genro é católico praticante. Por isso lhe queremos dar o que ele desejava como católico que é."
Eu disse: "O nosso pai na fé, Abraão, é o nosso alicerce comum. E é baseados nesse alicerce que irmos rezar ao Pai da Misericórdia",
Dirigimo-nos ao quarto. Inicio a celebração da Unção. Convido todas à oração.
Deram-me espaço para eu rezar. Notei que iam acompanhando com o seu silêncio que quase o sentia a dizer "Ámen!".
Lanço-lhes o convite para que rezem segundo a sua tradição. Rezam. Com as suas palavras, com os seus gestos.
A pouco e pouco noto que o doente vai ganhando mais serenidade.
Gostei destes minutos e desta oração ao Pai Misericordioso.

domingo, 15 de maio de 2016

NO HOSPITAL, DESPEDIU-SE DO MARIDO QUE TINHA MORRIDO

Quase uma vida inteira de sofrimento. São já 77 anos. 
Há tempos que lhe apareceu uma neoplasia. Agora, parte a bacia. 
Um neto com trinta e tal anos, bipolar agressivo, que criou desde os três anos. Enquanto não esteve estabilizado (e demorou muitos anos a estar), quase todos os dias lhe batia. 
Por fim, morre-lhe o marido há dias. 
Estava angustiada: "Não me despedi do meu marido!" O internamento no Hospital não lho permitiu. "Enquanto não me despedir do meu marido, não descanso. Tenho sempre aqui dentro de mim um nó que não se desata. Assim, não sou capaz de iniciar o luto". 
Uma proposta: porque não escrever num papel um texto de despedida? Da maneira que o seu coração lhe ditar. 
Proposta aceite. 
No dia seguinte, levá-mo-la, na cama, à Eucaristia. No "momento dos defuntos", o nome do marido foi tornado presente. Ela não foi capaz de ler o papel que tinha escrito. Leu-o a filha que estava presente. Palavras encantadoras. Cheias de coração e emoção. 
Rasgámos o papel e queimá-mo-lo. O fumo que saía dele era como que a saudade que subia para o céu e a esperança-certeza de que se encontrariam um dia (talvez próximo). 
Uma vela acesa foi colocada no altar. A presença dum e doutro na Mesa da entrega total. No fim, de lágrimas nos olhos, dizia: "Estou em paz. Já posso iniciar o processo de luto". Um misto de felicidade e saudade. 
Perante todo o sofrimento desta mulher, eu digo-me a mim mesmo: sou um merdas! (desculpem, mas é isto mesmo que eu digo). 

sexta-feira, 13 de maio de 2016

DEIXE-ME TER ESPERANÇA

Medicamente falando, a situação não era nada promissora: metástases nos intestinos, pulmões, cabeça.
Muito cansada, respiração assistida... nada de barulhos no quarto, nem grandes conversas.
"Padre, venha junto da minha mulher".
Rezei. Imposição das mãos. Sozinho comigo mesmo. Durante uns minutos. Uma oração sem fé na cura física. Mas com a Fé de que Ele pode curar profundamente. A Cura que só Ele sabe e pode dar.
Os dois ainda são jovens; "Agora que a vida nos estava a começar a correr bem...!". 
Três filhitos.
Nós, a equipa de prestação de cuidados de saúde, pensamos que o marido não tem muita consciência da situação. Resolvo conversar.
"Amigo, desejava conversar consigo. Mas tenho alguma dificuldade".
"Pode conversar à vontade"
"Então, permita que lhe faça uma pergunta: tem consciência do estado da sua esposa?"
"Sim, tenho".
"E qual é a consciência que tem?"
"Os médicos informaram-me de tudo"
"Mas está ciente de que é uma situação gravíssima? Tem consciência de que, medicamente, não há nada a fazer?"
"Sim, pode ficar descansado que tenho consciência. Eu sei da situação. Foi-me dito que uma semana de vida seria muito. Até já disse aos meus filhos. Mas, apesar de ter consciência de tudo, deixe-me ter esperança. Esperança que vai para além de tudo o que possa imaginar! Deixe-me ter esperança!"

Que mais podia eu dizer?

quinta-feira, 12 de maio de 2016

DÊ-ME A SUA MÃO

Tinha-me pedido para a visitar todos os dias. Claro que isso não era possível. Havia tantos outros a pedir o mesmo!
Mas com muita frequência eu ia junto a ela. Conversávamos bastante. Da sua doença (que era "fatal"), da família (marido e filho) que estava longe, do passado... sentia-se bem a conversar; não sei se para se distrair, se para me ter ao seu lado. Talvez as duas coisas.
De vez em quando lá vinha à baila a fé. E também o culto a Sta Eufémia...
A situação piorava a cada dia. A respiração era difícil. Tinha de ser assistida.
Um dia, já muito mal, e sabendo que o fim podia estar próximo, pediu-me:
"Se, a partir de agora, puder vir todos os dias junto a mim, seria muito bom. Venha. Não é preciso dizer nada. Sente-se nessa cadeira aí ao lado e dê-me a sua mão".
Passei a ir junto a ela quase todos os dias. Dávamos a mão um ao outro e assim permanecíamos o tempo que fosse preciso.
E olhávamos bem no fundo um do outro. Muitas vezes até ela adormecer. 

terça-feira, 10 de maio de 2016

OS AMIGOS SÃO PARA AS OCASIÕES

Internamento muito, mas mesmo muito prolongado. O seu estado de saúde não permitia sequer ir a casa; até porque ficava longe.
Homem de grandes relações sociais. "Destilava" amizade. Facilmente se conseguia ser seu amigo. Facilmente conquistava amigos. E tinha muuuuuitos! De tal maneira que, durante todo o seu internamento, nunca lhe faltou a presença de um familiar (quando muitas famílias "despejam" os seus familiares no Hospital). E nunca lhe faltou a presença dos seus amigos. De Norte a Sul do país.
Os amigos fizeram uma "escala de serviço". Todos os dias estava pelo menos um amigo a acompanhá-lo. Mas, a maior parte do dias, estavam dois amigos. Muitos deles "perderam" dias de trabalho. Mas ganharam em humanismo.
Nunca tinha visto uma situação destas. E o seu funeral foi uma enchente de amigos. Daqueles e daquelas que eu fui conhecendo e de tantos outros que eu não consegui encontrar durante o seu internamento.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

MORRER FELIZ

"Padre, quero morrer!"
Foi assim que a D. Filomena me recebeu ao chegar ao seu quarto.
"Mas sei que ainda não vou morrer. Tenho duas filhas. Uma, vem visitar-me todos os dias; a outra anda zangada comigo e nunca me veio ver. Aliás, já não me vê há anos. Quero morrer, mas só depois de ver essa minha filha."
Digo: "Mas quer mesmo vê-la e falar com ela? Será que eu posso fazer alguma coisa? O que é que acha que eu poderei fazer?"
Responde: "Se tentasse contactar com ela, eu agradecia-lhe".
Procurei saber o número de telefone. Arrisquei.
"Boa tarde. Sou o... e desejava falar consigo."
"Já estou a ver ao que vem! Quer que eu vá visitar a minha mãe, não é?"
"Sim, é isso mesmo. A sua mãe está a sofrer muito e deseja vê-la."
"Pois, tenho a dizer-lhe que nunca a irei ver!"
"Muito bem, se é essa a sua opção, que hei-de eu fazer!? Mas, se me permite, amanhã voltarei a ligar-lhe."
"Pode ligar á vontade, mas já sabe qual a minha resposta."
No dia seguinte, pela manhã, voltei a ligar.
"Bom dia, sou o... "
"Olhe, quero dizer-lhe que hoje irei ver a minha mãe"
Tratei de tudo. Avisei a equipa.
À hora combinada, a filha chegou. Estávamos todos de sobreaviso e atentos ao que pudesse acontecer.
Passada uma meia hora, a filha saiu do quarto. Deixei passar mais um pouco de tempo e resolvi entrar no quarto da D. Filomena.
"Padre, estou bem. Estou feliz. Eu e a minha filha fizemos as pazes."
Conversámos durante uns 20 minutos. E, passado esse tempo, a D. Filomena morre em paz.

sábado, 7 de maio de 2016

DAR MÁS NOTÍCIAS

Fui chamado muito à pressa e com muita urgência:
"Venha cá acima. A senhora Alda está muito mal; tem a vida presa por minutos. Com ela estão o marido e duas amigas."
À pressa, dirigi-me para o quarto da senhora Alda. Encontrei o marido muito choroso e as duas amigas. Assim que ele me viu, saiu do quarto. Deixou-me a sós com a esposa. Mas vi que ela, afinal, já tinha falecido. Rezei um pouco. Quando saí do quarto, notei que o marido já lá não estava: tinham-no conduzido para a sala de estar. Procurei-o. Entretanto, passei pela sala de enfermagem e notifiquei os enfermeiros do que se estava a passar. E que mandassem chamar um médico, porque o senhor António iria precisar dele.
Na sala de estar, tentei conversar com o senhor António.
"Padre, estou a sofrer muito. Que será de mim sem a minha mulher?! É a minha única companhia. Mas eu ainda espero que ela consiga ultrapassar este momento. Temos programado um passeio para daqui a oito dias. E tenho a certeza que vamos fazer esse passeio."
Ajoelhei-me em frente do senhor António. Eu não era capaz de fazer outra coisa senão de o olhar, olhos nos olhos. Creio que o meu olhar era interrogativo. Mas muito mais interrogativo era o olhar do senhor António.
"Padre, o que é que acha? Ela vai conseguir melhorar?"
Eu continuava a olhá-lo.
"Sabe, padre, amamo-nos muito um ao outro! Eu não a quero perder."
E eu continuava a olhá-lo.
"Diga-me a verdade, padre. Diga-me sim ou não"
"Senhor António, que verdade é que quer saber?"
"Toda. Toda a verdade!"
"Mas quer saber mesmo toda verdade?"
(o que é que seria melhor? dizer-lhe toda a verdade, já ali naquele momento, ou esperar que ele fosse para casa, e os amigos transmitirem-lhe a verdade de que a senhora Alda tinha morrido? O senhor António era um doente deste Hospital; tem uma história clínica um pouco complicada: havia que ter cautela; por isso, eu tinha pedido que fosse chamado um médico)
"Diga-me, senhor António: quer saber mesmo toda a verdade?"
"Sim, padre, quero saber toda a verdade!"
Uns momentos de silêncio. O senhor António olha de novo para mim. Encontrou nos meus olhos um desejo enorme de lhe dizer mesmo toda a verdade.
"Ela morreu?!"
"Quer saber mesmo toda a verdade, senhor António? (o seu olhar dizia-me que sim) Sim, senhor António. A sua Alda já faleceu! E faleceu quando o senhor estava junto a ela.
Silêncio aterrador! Ele agarrou nas minhas mãos. Chorou copiosamente.
"Ao menos, eu estava ao pé dela quando ela morreu. Agradeço-lhe ter-me dito a verdade. Rezou por ela?"
"Sim, senhor António. E também rezei por si"

Imediatamente chegou o médico para tratar do senhor António.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

DIZER TUDO A DEUS

Estava a escrever algo no meu gabinete.
Ouço bater à porta.
"Posso entrar, padre?" Era uma senhora dos seus 40 e tal anos.
Levanto-me para receber. Mas vejo que vem assustada, num sofrimento bastante grande.
Convido a sentar-se. Nem foi preciso fazer fosse que pergunta fosse.
"Estou revoltada, padre. Já fui à capela. Disse tudo a Deus. Revoltada. Porquê isto, agora? A minha filha, de 20 anos, tem leucemia. Ela sempre sofreu toda a pouca vida que tem. É epiléptica. Sempre tivemos de ter muitos cuidados com ela; o seu desenvolvimento nunca foi igual a outra criança 'normal'. Já não bastava o que ela tem sofrido!?... Agora aparece-lhe uma leucemia. Porquê? Estou revoltada com Deus. Já Lhe disse tudo. Sei que, por Lhe ter dito o que disse, estou com a minha consciência pesada. Mas é o meu amor de mãe que me leva a isto..."
Fiz silêncio. Pela minha parte, estava calmo; procurava ouvir. Mas continuou o silêncio.
Então, lancei uma pergunta: "Já disse mesmo tudo o que tinha a dizer a Deus, ou ainda aí ficou alguma coisa?"
"Para lhe ser franca, por pudor, ainda ficou aqui alguma coisita".
"Pois olhe, vá lá novamente à capela e diga-Lhe tudo o que faltou dizer-Lhe."
"Acha que eu devo ou posso fazer isso?"
"Claro que pode. A Deus podemos dizer-Lhe tudo. Ele não se zanga connosco. Ele ouve tudo por amor. Era também assim que os salmistas faziam: diziam-Lhe tudo. E, quando somos capazes de Lhe dizer tudo, mesmo muito revoltados, estamos a iniciar o nosso processo de cura."
"Obrigada, padre. Tirou-me um peso enorme da minha consciência".

E quanta força esta mãe vai necessitar de ter!...

quarta-feira, 4 de maio de 2016

UM DIÁLOGO A TRÊS MÃOS

Pediram-me para a ungir com o Óleo dos Doentes. Disseram-me que não comunicava.
Aproximei-me. Tratei-a pelo nome. Não vi grande reacção. Mas mantive-me ali.
"Olhar" distante. Nem sei se a vista funcionava bem.
De um momento para o outro, lentamente, levanta o braço direito. A mão parecia que procurava algo. Esperei um pouco e coloquei a minha mão no caminho da mão dela.
Acabou por encontrar a minha mão. Aperta-a. Puxa-a para si até a encostar ao seu peito. Deixei-me comandar. Daí a pouco a sua mão esquerda também agarra a minha mão direita. Com as suas duas mãos afaga a minha mão. Dez minutos. Os olhos continuavam distantes. Mas, de um momento para o outro, adormeceu.
Um encontro sem palavras onde só as mãos falaram.
Não sei o que pensou, não sei o que sentiu. Só sei que as suas mãos buscaram as minhas mãos. Como é que isto foi possível, não perguntem.
Só sei que houve ali três mãos a conversar.

terça-feira, 3 de maio de 2016

A DOR DE UM FILHO (e minha)

Episódio de Urgência.
Uma mãe que agoniza. Um filho que, comovido, a afaga.
Um momento de oração.  Quase silenciosa.
A emoção é muita. Não há lugar para palavras. Há lugar para gestos, para olhares. Para trazer à memória  momentos, situações, vivências que marcaram, que ficaram na retina e, sobretudo, no coração. 
Tendo consciência de que o momento final está próximo, vêm as despedidas. A emoção redobra.
Eu, em silêncio, presencio.  Estou comovido, não consigo dizer palavra.

Admiro a postura do filho. Vejo os seus olhos marejados de lágrimas. Dou-lhe um abraço e deixo extravasar a minha própria dor: “Admiro-te. Obrigado pela tua dor e pela tua força. Eu não era capaz de ver a minha mãe neste estado. Admiro-te.”