Fui
chamado muito à pressa e com muita urgência:
"Venha
cá acima. A senhora Alda está muito mal; tem a vida presa por minutos. Com ela
estão o marido e duas amigas."
À
pressa, dirigi-me para o quarto da senhora Alda. Encontrei o marido muito
choroso e as duas amigas. Assim que ele me viu, saiu do quarto. Deixou-me a sós
com a esposa. Mas vi que ela, afinal, já tinha falecido. Rezei um pouco. Quando
saí do quarto, notei que o marido já lá não estava: tinham-no conduzido para a
sala de estar. Procurei-o. Entretanto, passei pela sala de enfermagem e
notifiquei os enfermeiros do que se estava a passar. E que mandassem chamar um
médico, porque o senhor António iria precisar dele.
Na
sala de estar, tentei conversar com o senhor António.
"Padre,
estou a sofrer muito. Que será de mim sem a minha mulher?! É a minha única
companhia. Mas eu ainda espero que ela consiga ultrapassar este momento. Temos
programado um passeio para daqui a oito dias. E tenho a certeza que vamos fazer
esse passeio."
Ajoelhei-me em frente do senhor António. Eu
não era capaz de fazer outra coisa senão de o olhar, olhos nos olhos. Creio que o meu olhar era interrogativo. Mas muito mais interrogativo
era o olhar do senhor António.
"Padre,
o que é que acha? Ela vai conseguir melhorar?"
Eu
continuava a olhá-lo.
"Sabe,
padre, amamo-nos muito um ao outro! Eu não a quero perder."
E
eu continuava a olhá-lo.
"Diga-me
a verdade, padre. Diga-me sim ou não"
"Senhor
António, que verdade é que quer saber?"
"Toda.
Toda a verdade!"
"Mas
quer saber mesmo toda verdade?"
(o
que é que seria melhor? dizer-lhe toda a verdade, já ali naquele momento, ou
esperar que ele fosse para casa, e os amigos transmitirem-lhe a verdade de que
a senhora Alda tinha morrido? O senhor António era um doente deste Hospital;
tem uma história clínica um pouco complicada: havia que ter cautela; por isso,
eu tinha pedido que fosse chamado um médico)
"Diga-me,
senhor António: quer saber mesmo toda a verdade?"
"Sim,
padre, quero saber toda a verdade!"
Uns
momentos de silêncio. O senhor António olha de novo para mim. Encontrou nos
meus olhos um desejo enorme de lhe dizer mesmo toda a verdade.
"Ela morreu?!"
"Quer
saber mesmo toda a verdade, senhor António? (o seu olhar dizia-me que sim) Sim,
senhor António. A sua Alda já faleceu! E faleceu quando o senhor estava junto a
ela.
Silêncio
aterrador! Ele agarrou nas minhas mãos. Chorou copiosamente.
"Ao
menos, eu estava ao pé dela quando ela morreu. Agradeço-lhe ter-me dito a
verdade. Rezou por ela?"
"Sim,
senhor António. E também rezei por si"
Imediatamente
chegou o médico para tratar do senhor António.