segunda-feira, 28 de novembro de 2016

A FILIPA COM LINFOMA DE HODGKIN

Tomo a liberdade de reproduzir aqui uma mensagem que recebi da Filipa. Desculpa, Filipa, mas tinha de o fazer.

"Olá Tenho 19, chamo-me Filipa e tenho linfoma de hodgkin...Coloquei um cateter e então fui ao centro de saúde tirar os pontos. quando estava a espera para ser atendida duas senhoras conversavam... uma dizia que tinha umas dores aqui e ali e a outra também!!! (eu pensei: oh umas dores! Isso com as injecções que andam a tomar passa, agora o que tenho não...) mantive-me calada e ia ouvindo e sorrindo... quando dei por mim uma das senhoras disse que tinha feito quimioterapia no Hospital Santa Maria, que tinha lá estado muito tempo internada... e disse que uma das vezes que tinha lá ido encontrou umas meninas novinhas também doentes... foi como levar um estalo, afinal a senhora também estava doente. Então meti-me na conversa e disse:"Também estou a fazer quimioterapia"... Enquanto esperávamos para ser atendidas fomos conversando as três e fui levando cada vez mais estalos, pois tinha feito pouco das senhoras! A que fez quimioterapia tem lúpus, e disse-me quais os problemas que aquilo lhe causava. Também lhe contei a minha historia, mas ao lado da dela não era nada!!!... Assim falamos durante algum tempo e fui descobrindo uma força enorme na senhora, com dois filhos e marido, lutava e luta pela vida... disse que muitas vezes pensou em desistir...mas depois pensava o que seria deles sem ela…então voltava a lutar por mais tempo de vida... Ainda falamos mais algum tempo… Apesar de tudo, tenho tido muita força de vontade para ultrapassar tudo mas sei que não vai ser fácil... Cumprimentos"

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

APESAR DE TUDO, A MINHA CIDADE (A)PARECEU-ME MAIS BONITA

Uma ambulância. Dois técnicos. Doze horas de serviço. 
A correr, que é preciso acudir com urgência, porque os casos também são urgentes. São seres humanos que estão em causa. É a vida que está em causa.
O pulsar duma cidade onde tanta gente passa despercebida. Onde tantos vivem sem ser notados. A solidão, o desespero, a fome, a droga, a prostituição...
Uma ressaca duma quase over-dose, um fim de semana sem comer seja o que for e a viver na rua há já muitos meses. O marido que, ao acabar a semana, diz que se vai separar; os comprimidos, a desilusão, o mundo que desaba duma só vez sobre os ombros, a falta de apetite que leva a estar três dias sem comer...
Um acidente de viação de alguém que está a iniciar a vida, e a esperança dum futuro melhor...
A solidão que se faz dor, dentro do carro num parque...
Os sorrisos de quem se sente agradecido, de quem teve alguém que cuidou.
Os segredos que se dizem no meio de tanta dor.
A alegria do dever cumprido. A felicidade transbordante de ter servido.
A entrega e a amizade dos técnicos.
Uma cidade onde choviam gotas de dor misturadas com alguns raios de sol.
A minha cidade. Que hoje, apesar de tudo, me (a)pareceu mais bonita. 

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

A (EX)SENHORA DA BENGALA

A idade, há muito que não lhe permite grandes correrias. Há bastante tempo que anda com uma bengala que a ajuda a caminhar. Ultimamente tem piorado bastante; sobretudo depois da morte do marido. A saudade que tinha, era bastante. Uma saudade que lhe tolhia os movimentos e, de maneira especial, a alma. O semblante sempre carregado. Mas não desistia de procurar algo. Às vezes queixava-se de ainda não ter encontrado a 'paz'. Mas lá ia caminhando. E a bengala sempre a acompanhava.
No domingo passado vejo-a vir ao longe. Vinha para a Missa. Dirijo-me a ela para a acompanhar no resto do caminho. Falamos de algumas trivialidades. Noto que vinha sem bengala. Mas não lhe digo nada. Eis senão quando ela me diz: "Ainda não reparou que venho sem bengala?" Faço-me estupefacto: "Olha, pois vem! Mas o que é que se passou?" Responde-me: "Iniciei um tratamento novo; ainda só fiz uma sessão, mas já está a dar resultado". Ela caminhava razoavelmente bem.
A Missa decorre. No momento da Comunhão, na fila, uma senhora caminha com dificuldade. E quem eu vejo a acompanhá-la? A "ex-senhora da bengala". Ajudava-a com todo o entusiasmo e carinho. Foi levá-la ao lugar.
No fim de Missa, publicamente fiz menção deste caso (mas sem nomear fosse quem fosse; só os conhecidos ficaram a saber de quem se tratava; até porque também estavam todos contentes).

Quando a "ex-senhora da bengala" ia a sair a capela, disse-me: "Quando eu melhorar mais um bocado, até se vai admirar daquilo que eu serei capaz de fazer!".

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

CORTAR COM TUDO

Quando se é internado um Hospital, tudo muda. Tem de se cortar com tudo. A nossa roupa; a família; o ambiente; a privacidade; até muitas vezes o nosso nome ("o doente da cama 5"); a nossa posição social (um engenheiro passou a ser o "sr. António'); os nossos hábitos alimentares; a nossa independência dá lugar à dependência; outros 'decidem' por nós (mesmo com o 'consentimento informado', a informação não é por aí além e ficamos sem saber de que somos informados); o nosso vocabulário não consegue atingir a enormidade de vocábulos esquisitos e 'eruditos' com que nos falam; ficam a conhecer-nos por fora e por dentro (todas as nossas vísceras são analisadas ao pormenor por exames e mais exames; câmeras que nos filmam; o que até aí fazia parte do meu íntimo, passa a ser do domínio de mais uns quantos); o nosso sono passa a ser partilhado por mais alguns; deixa de haver lugar para uma conversa a sós com o nosso médico, o psicólogo ou o capelão... Tudo muda. Algumas destas situações não terão a ver com desumanização?
Há dias, um senhor aí duns 80 e tal anos queixava-se: "Não há direito. Estou aqui há quinze dias e ainda não me deram um copito de vinho. Não há direito. Mas eu já os fintei: já bebi 2 copos de tinto. Um amigo encheu-se de pena de mim e trouxe-me um vinhito. Eles não sabem. Mas os dois copos souberam-me muito bem".

Pois. Ainda há quem seja capaz de furar os esquemas! Este caso pode dar para rir. Mas também pode dar para pensar.
Um dia, um colega meu, noutro Hospital, ia a passar no corredor e ouviu uma voz vinda dum quarto: "Sr. Padre... sr. Padre...". Ele ouviu e viu que conhecia aquela voz. Entrou e confirmou quem era a pessoa: uma senhora com 102 anos (!). Começaram a falar e o meu colega perguntou: "Então o que é que está aqui a fazer?" A senhora respondeu: "Viram que eu tinha uma 'promenia' e tive de vir parar ao Hospital". Nisto, ela abre a gaveta da mesa de cabeceira e tira de lá uma garrafita. Põe à boca e bebe. O meu colega diz: "O que é que está a fazer?" Resposta: "Estou a matar o bicho. Desde que me lembro que faço isto todos os dias. Esta cachacita é que me tem mantido viva!". Palavras para quê?
Com estes dois casos, não estou a querer dizer que eles foram fruto da desumanização. Contei-os simplesmente para aliviar um pouco os pensamentos dos meus queridos leitores(as).

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

UM DESABAFO... MIL E UM DESABAFOS!

Por dia passam por aqui centenas de pessoas. É um lugar privilegiado do e no Hospital. Quase que podia dizer que é a "sala de visitas" desta Casa. O local é minimamente acolhedor (e vamos tentar torná-lo ainda mais acolhedor).
É a Capela.
A quantidade de pessoas que diariamente procuram este espaço é enorme: doentes, familiares, visitas, pessoas das consultas externas, profissionais da saúde... Muitos profissionais aqui vêm antes de iniciar o serviço e ao terminá-lo.
Quantos gritos de angústia já aqui foram ouvidos! Quantos desesperos! Mares de lágrimas já aqui foram vertidas!
E quantas lágrimas de alegria! Quantos sorrisos e segredos saíram do coração de tanta gente!
Se estas quatro paredes pudessem falar!...
Podia relatar aqui mil e uma situações que diriam bem o quanto aqui se vive.
Uma mãe. O seu filho já estava há bastante tempo internado. A evolução positiva era praticamente nenhuma. Este jovem não teria grande consciência do seu sofrimento; de certeza que a mãe tinha muito maior consciência.
E, pelo que tenho visto, o sofrimento duma mãe é indescritível! Não sei que registo é que elas têm bem lá no fundo do seu ser, que aumenta em não sei quantas toneladas o seu sofrimento!
Chega-se junto da imagem de Maria.
As duas olham-se olhos nos olhos.
Uns segundos de silêncio.
Continuando de olhos nos olhos, saiu-lhe do mais profundo das suas entranhas, este desabafo:
"Agora, sei quanto Tu sofreste, Mãe! Só agora é que eu sou capaz de dar valor ao teu sofrimento! O sofrimento do meu filho ainda poderá ter alguma solução. Mas o Teu Filho estava irremediavelmente condenado!  "

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

NÃO QUERO MORRER SOZINHA

Estar de chamada de noite é sempre difícil.

É que, muitas vezes, é na noite que acontecem situações mais complicadas, mas também mais desafiantes e entusiasmantes.

Uma noite, estando eu a dormir profundamente, pela 1 hora da manhã toca o telemóvel. Vejo que era a Coordenação da Urgência que me ligava. Pensei logo: “Há problema grave”.  Do outro lado, ouvi: “Por favor, venha à urgência que há alguém que quer falar consigo.” 

Levantei-me, vesti-me, meti-me no carro e rolei até ao Hospital. Ainda ensonado, dirigi-me à Urgência e disseram-me: “Há aqui alguém que quer falar consigo. A situação é bastante complicada”.

Depois de esclarecido de todo estado da situação, dirigi-me até à pessoa que tinha pedido a minha presença.

Apresentei-me.

Uma senhora totalmente consciente. Também da sua situação.

“Padre, sei que vou morrer. E já não falta muito. E não quero morrer sozinha. Gostava de morrer acompanhada.”

“Aqui estou”, disse eu.

“Mas vai poder estar comigo até eu morrer?”

“Sim, posso”.

“Obrigada”.

Durante duas horas e meia conversámos do que e como nos foi possível. O filme do passado, os momentos bons e menos bons, as certezas e as dúvidas, os medos, os afectos… tudo!

Passadas que foram essas 2 horas e meia, a senhora morreu. Posso dizer que morreu feliz.

E eu fiquei a pensar e a “digerir” tudo o que se tinha passado. Parece que ainda hoje ‘vejo’ o local, o rosto e as mãos da senhora, as suas reacções, a sua respiração, os seus olhares… os seus medos e desejos, a sua fé e as suas dúvidas…


E eu fiquei feliz. 

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

GUARDO NO MEU CORAÇÃO AS LÁGRIMAS DO MEU MARIDO

Uma visita a uma das Ginecologias.
Quatro senhoras na sala de visitas. Uma delas em cadeira de rodas. Conversámos sobre 'trivialidades' (às vezes, as 'trivialidades' são o trampolim para outras conversas mais sérias!). Conversa daqui, conversa dacolá, começam a falar dos maridos, da vida em casal... (no fundo, todas diziam bem da vida em casal; nem sempre, neste serviço de Ginecologia, se ouve dizer bem da vida em casal e dos maridos - elas lá sabem porquê!).
Três das senhoras ainda não me conheciam; só a senhora da cadeira de rodas é que me conhecia. Uma delas lança-me uma pergunta como que num relâmpago:
"E o sr. não diz nada do seu casamento?"
"Eu não sou casado. E as mulheres são um pouco 'chatas'. Não deixam que os homens vão para onde querem. Por isso é que não me casei!!!" (apeteceu-me brincar)
"Isso não é verdade. E, no casamento, os dois têm de ir sempre para o mesmo lado. Mas não tem nem uma mulher com quem viva a sua vida?
"Não, não tenho".
"Não acredito. Não é possível"
"É verdade. Eu sou padre"
"Maroto! Estava aqui a dar-nos baile! E essa marota que está aí não dizia nada!"
Todos nos rimos.
A senhora que estava na cadeira de rodas meteu palavra:

"Sim, é verdade. Sou a única que o conheço. Mas, já agora, deixem que eu diga o que sinto dentro de mim. Sou casada há 43 anos. Sinto-me feliz por isso. Hoje, daria exactamente o mesmo passo. Estou internada há 5 meses e, até hoje, o meu marido ainda nunca falhou um dia em me visitar: todos os dias cá tem vindo. Olhe, ainda guardo, na minha mesa de cabeceira, a flor que ele me trouxe no dia dos namorados. E guardo no meu coração as lágrimas que lhe vi quando me ofereceu a flor. Eu amo-o muito. E tenho a certeza que ele também me ama".

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

ABANDONADO PELA MULHER. ABANDONADO PELA IGREJA?

Conhecemo-nos há muito. Mas há pouco mais de um ano que não conversávamos.
Teve um problema grande de saúde. Depois duma intervenção cirúrgica teve de fazer quimioterapia e radioterapia. Felizmente parece que o pior já foi ultrapassado.
Há dias encontrámo-nos.
"Então, como é que isso vai? A saúde?"
"A nível de saúde física tudo vai correndo normalmente. É claro que as minhas capacidades físicas nunca mais foram as mesmas. Não é que esteja totalmente diminuído, mas... Tive um casamento de vinte e tal anos. Passado algum tempo da minha intervenção, começaram os problemas em minha casa. Eu sei que não podia corresponder totalmente às expectativas da minha mulher em relação a mim: a doença e os tratamentos deixaram marcas. Ela acabou por pedir a separação e eu não ofereci resistência. Divorciámo-nos. Encontrei-me sozinho. Vazio. Foi o segundo grande terramoto da minha vida depois da doença."
"E agora? A nível de serenidade, de auto-estima, como vão as coisas?"
"Olhe, há um ano encontrei alguém que me está a aceitar como eu sou e como eu me encontro. Temos um bom relacionamento."
Eu ia ouvindo. Mas notava que havia nele alguma coisa que eu não estava a ser capaz de atingir.
"Apesar de me sentir bem, há uma coisa que me está a fazer sofrer. Falta-me a força da Comunhão. E eu preciso tanto dela. As leis da Igreja dizem que não posso receber a Comunhão por estar casado civilmente. Porque é que eu não posso comungar?"
Conversámos durante algum tempo. Encontrámos uma solução para o problema: um momento alto de oração e recebeu a Comunhão.
Mas como é que é possível que este homem, abandonado pela mulher por causa das suas menores capacidades físicas e, depois de ter encontrado alguém que lhe dá o carinho de que ele necessita, seja também abandonado pela Igreja?

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

A DIGNIDADE DUMA BARRACA

Todas as nossas cidades têm periferias muito especiais. Não falo só de periferias geográficas; falo também e sobretudo a nível social e humano.
A cidade onde eu vivia naquela altura não era diferente das outras.
Perto da estação de caminho de ferro existia um grande canavial. Ocultava muita coisa; muita miséria.
Agora já não existe. Mas, naquela altura podiam ver-se bastantes barracas: de madeira, com chão de terra batida; normalmente de uma só divisão que albergava várias pessoas. As barracas escondiam droga, álcool, prostituição, solidão... miséria. Mesmo dentro da cidade. Quem passava não sabia o que lá existia. As canas tapavam tudo. As barracas e as pessoas.
Um dia fui desafiado para ir lá. Olhei de soslaio para a pessoa que me convidou. Hesitei. Torci o nariz. Mas... decidi: "Vamos lá, então!"
Entrei naquele espaço. Íamos com um objectivo: visitar a Isabel; vivia só com 1 filho dos seus 8 anos. Ela era nova: vinte e tal.
Não foi preciso bater à porta porque ela estava aberta. Duas camas, uma mesa, duas cadeiritas. Camas feitas.
O chão era de terra; húmida.
"Boa tarde, Isabel"
"Boa tarde. Estamos a acabar de almoçar; e a acabar de arrumar a casa. Sentem-se, por favor".
Mãe e filho sentaram-se numa das camas. Nós os dois sentámo-nos nas cadeiras.
Conversámos. Muito. E que conversa maravilhosa!
A certa altura olho para a "cozinha": um fogão de dois bicos, uma pequena mesa com louça.
Que louça bem lavada. Sobretudo os tachos e as panelas estavam de tal maneira bem areados que pareciam um espelho.
A Isabel tinha esmero.
Mas ela só desejava uma casa.
Enquanto isso não acontecia, dizia ela que tinha de ter a maior dignidade possível naquela barraca.
E ela fazia tudo por isso.

Hoje, a Isabel vive num T2 sorteado pela Câmara. Mas gostei de ver a "dignidade" daquela barraca. 

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

A CANTAR !!!

Conversava eu com uma doente, no corredor, quando passa por nós uma outra doente com o carrinho do soro e dos antibióticos, o qual ela conduzia muito bem.
E vinha a cantar! Intrigou-me o ela vir a cantar. É que nunca antes tinha visto outra pessoa, internada, a cantar pelo corredor fora. A doente com quem eu estava a falar, disse-me que ela, logo de manhã, canta.
Então, meti-me com ela:
"A cantar?"
"Sim, gosto muito de cantar. Sabe? Não posso comer por causa da intervenção que tive. E já começo a sentir fome. Para esquecer a fome que começa a aparecer, canto. E, por causa de eu gostar de cantar e, talvez cantar um bocadito bem, já arranjei alguns serviços que me ajudaram a ganhar a vida. Por exemplo, o tratar de doentes idosos acamados e acompanhá-los durante a noite... Na vida, tenho levado tudo a cantar. Não há necessidade de estar triste: isso iria aumentar o sofrimento."
Falta-me dizer que não consegui colocar aqui, na escrita, o sotaque desta doente: é que ela é brasileira; da Baía.
Tem 49 anos, 7 filhos. Veio para Portugal há 2 anos para lutar pela vida. À aventura.
"E não quero ficar por aqui... quero ir mais longe!"
A cantar!...

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

CORAÇÃO TRAÍDO

Tem 36 anos, mas uma vida já muito vivida. Teve uma infância e juventude como qualquer outro rapaz da sua idade. Iniciou a sua profissão. Tinha um futuro risonho à sua frente: risonho, porque "normal". Passado algum tempo de estar ao serviço, declarou-se-lhe uma doença que o iria incapacitar: os níveis de chumbo no organismo eram demasiado altos. De tratamento em tratamento, o seu estado ia-se degradando. Teve de fazer um transplante. Mas os resultados não foram os que a esperança esperava!
O seu caminhar é titubeante; e com dificuldade percebemos o que ele diz.
Muitas vezes temos conversado. Até porque o conheço há bastantes anos.
Dói-me ver uma vida sem horizonte. Tem a sua pequena reforma antecipada, mas sente-se confinado ao seu pequeno espaço familiar; pode sair de casa só uma noite por semana; nas tardes, lá vai arranjando uma boleiazita para ir até ao café para ler o jornal e conviver com algum amigo que por lá apareça. Tem um "espaço" demasiado apertado.
Ontem, durante 45 minutos, conseguimos entender-nos. Convidei-o a encher os pulmões antes de dizer cada palavra; sei que lhe foi difícil, mas foi a única maneira de eu o entender. Um convite ao exercício físico (andando a pé), ao exercício mental (lendo bastante)... uma oferta de disponibilidade para nos podermos escutar um ao outro.
"Há dias foram a minha casa umas assistentes sociais e disseram-me para eu escrever um livro. Já o comecei a escrever; tem o título 'Coração traído' ".
Imaginei-me "na pele" deste rapaz. Senti-me incomodado, senti-me mal: angustiado, como que sem ar para respirar.

Mas o que é verdade é que esta nossa última conversa me fez sentir mais próximo dele.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

UM OLHAR QUE FEZ DOER

Vinha a tremer. Trazia uma pequena bolsa com 2 comprimidos. Deu-mos para a mão. Li o nome químico deles. Era um retroviral.
Há muito que não via ninguém assim. Naquele estado. Psíquica e espiritualmente destruído.
Tem medo. Medo de iniciar o tratamento. Medo do que pode vir depois. 
Medo de tudo.
Contou-me a história de há uns anos.
Fiquei com o coração angustiado e a doer. Faltaram-me as palavras. Eu não lhe conseguia tirar o sofrimento.
E eu continuava com os comprimidos na mão. Estávamos os dois sentados frente a frente. No fim de algum tempo a fitar aqueles olhos suplicantes, fez-me um pedido:
"Abençoe-me esses comprimidos. São os primeiros que vou tomar neste início do tratamento."
Que eles e sobretudo ele sejam abençoados.
Demos um abraço. Prometeu voltar.

Mas eu ainda não me sinto bem. Aquele olhar ainda está a provocar-me. A fazer doer cá por dentro.