quarta-feira, 9 de novembro de 2016

A DIGNIDADE DUMA BARRACA

Todas as nossas cidades têm periferias muito especiais. Não falo só de periferias geográficas; falo também e sobretudo a nível social e humano.
A cidade onde eu vivia naquela altura não era diferente das outras.
Perto da estação de caminho de ferro existia um grande canavial. Ocultava muita coisa; muita miséria.
Agora já não existe. Mas, naquela altura podiam ver-se bastantes barracas: de madeira, com chão de terra batida; normalmente de uma só divisão que albergava várias pessoas. As barracas escondiam droga, álcool, prostituição, solidão... miséria. Mesmo dentro da cidade. Quem passava não sabia o que lá existia. As canas tapavam tudo. As barracas e as pessoas.
Um dia fui desafiado para ir lá. Olhei de soslaio para a pessoa que me convidou. Hesitei. Torci o nariz. Mas... decidi: "Vamos lá, então!"
Entrei naquele espaço. Íamos com um objectivo: visitar a Isabel; vivia só com 1 filho dos seus 8 anos. Ela era nova: vinte e tal.
Não foi preciso bater à porta porque ela estava aberta. Duas camas, uma mesa, duas cadeiritas. Camas feitas.
O chão era de terra; húmida.
"Boa tarde, Isabel"
"Boa tarde. Estamos a acabar de almoçar; e a acabar de arrumar a casa. Sentem-se, por favor".
Mãe e filho sentaram-se numa das camas. Nós os dois sentámo-nos nas cadeiras.
Conversámos. Muito. E que conversa maravilhosa!
A certa altura olho para a "cozinha": um fogão de dois bicos, uma pequena mesa com louça.
Que louça bem lavada. Sobretudo os tachos e as panelas estavam de tal maneira bem areados que pareciam um espelho.
A Isabel tinha esmero.
Mas ela só desejava uma casa.
Enquanto isso não acontecia, dizia ela que tinha de ter a maior dignidade possível naquela barraca.
E ela fazia tudo por isso.

Hoje, a Isabel vive num T2 sorteado pela Câmara. Mas gostei de ver a "dignidade" daquela barraca. 

1 comentário:

  1. A Isabel e seu filho eram uma família mais digna que muitas que vivem em palácios. Grande lição !....

    ResponderEliminar