Todas
as nossas cidades têm periferias muito especiais. Não falo só de periferias
geográficas; falo também e sobretudo a nível social e humano.
A
cidade onde eu vivia naquela altura não era diferente das outras.
Perto
da estação de caminho de ferro existia um grande canavial. Ocultava muita
coisa; muita miséria.
Agora
já não existe. Mas, naquela altura podiam ver-se bastantes barracas: de
madeira, com chão de terra batida; normalmente de uma só divisão que albergava
várias pessoas. As barracas escondiam droga, álcool, prostituição, solidão...
miséria. Mesmo dentro da cidade. Quem passava não sabia o que lá existia. As
canas tapavam tudo. As barracas e as pessoas.
Um
dia fui desafiado para ir lá. Olhei de soslaio para a pessoa que me convidou.
Hesitei. Torci o nariz. Mas... decidi: "Vamos lá, então!"
Entrei
naquele espaço. Íamos com um objectivo: visitar a Isabel; vivia só com 1 filho
dos seus 8 anos. Ela era nova: vinte e tal.
Não
foi preciso bater à porta porque ela estava aberta. Duas camas, uma mesa, duas
cadeiritas. Camas feitas.
O
chão era de terra; húmida.
"Boa
tarde, Isabel"
"Boa
tarde. Estamos a acabar de almoçar; e a acabar de arrumar a casa. Sentem-se,
por favor".
Mãe
e filho sentaram-se numa das camas. Nós os dois sentámo-nos nas cadeiras.
Conversámos.
Muito. E que conversa maravilhosa!
A
certa altura olho para a "cozinha": um fogão de dois bicos, uma
pequena mesa com louça.
Que
louça bem lavada. Sobretudo os tachos e as panelas estavam de tal maneira bem
areados que pareciam um espelho.
A
Isabel tinha esmero.
Mas
ela só desejava uma casa.
Enquanto
isso não acontecia, dizia ela que tinha de ter a maior dignidade possível
naquela barraca.
E
ela fazia tudo por isso.
Hoje,
a Isabel vive num T2 sorteado pela Câmara. Mas gostei de ver a
"dignidade" daquela barraca.
A Isabel e seu filho eram uma família mais digna que muitas que vivem em palácios. Grande lição !....
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