sábado, 27 de agosto de 2016

FALTA DE APETITE?

Soube que tem um casal de filhos; mas, como não andam de bem um com o outro, não a visitam muitas vezes: não se querem encontrar!
E, enquanto isto, ela (de 80 e tais anos) vai definhando. As duas colegas de quarto sabem da sua carência de afecto e procuram dar-lho o mais que podem. Mas nem tudo podem fazer. As forças físicas delas são poucas ou nenhumas.
Ontem, à hora do almoço, entrei no seu quarto; as duas colegas já tinham almoçado, mas ela ainda continuava com quase tudo à frente.
"Então, não há apetite?"
"Não, não sou capaz de comer!"
Do lado sai um piropo: " O que ela deve querer é que lhe dêem o comer na boca!" Sorrimos todos.
"Ora vamos lá ver se alguma coisa começa a desaparecer de cima da mesa! Primeiro a sopa. Parece estar tão saborosa..." pego na colher e, na brincadeira, começo a dar-lha na boca. E não é que ela come?! Foram só 5 colheres, mas já foi bom.
Vejo uma taça cheia de fruta triturada. E também começo a dar-lha às colheradas, na boca. E foi toda.
Havia mais uma taça de pudim.
"Não, já não quero mais nada!"
"Olhe, só 3 colheres. Pode ser?"
"Mas só 3!"
"Tá bem. Vá lá: uma... ( e lá foi ela)... uma e meia... uma e três quartos... duas... duas e meia... duas e três quartos... três!" E foram sete colheres de pudim!
"Já não posso mais. Mas agora estou consolada!"
O que falta a esta doente não é o apetite: O que lhe falta é alguém que lhe dê atenção!
E os dois filhos continuam zangados, não aparecem porque têm receio de se encontrar um com o outro.

Que pena. Assim, a sopa, a fruta e o pudim continuam em cima da mesa sem que esta velhinha lhes consiga tocar.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

FELIZ COM UM "MIÚDO" JÁ MÉDICO

Conheço-o desde pequenito. Tem mais um irmão. 
Depois de alguns anos sem o ter visto (quer pelo meu trabalho em outras terras, quer pelos seus estudos), vim encontrá-lo no Hospital. É médico. Algumas vezes temos conversado.
Ontem, fui encontrá-lo no átrio dos elevadores dum determinado piso. Estávamos a conversar, quando duas das suas doentes, internadas, o vêem e o chamam. Pedidos e mais pedidos, queixas e mais queixas... "Não me sinto bem... desejava comer outras comidas: só pastosa, só pastosa... não me dou com os medicamentos que me está a dar: quero os que sempre tomei; com esses é que me dou bem... ".

Foi maravilhoso ver a paciência e o carinho com que ele as atendeu. A maneira como as respeitava, como as escutava. Fiquei feliz por ver a maneira como o "miudito" que conheci há uns bons pares de anos estava a cumprir tão bem a sua missão de médico. Confesso que me senti como que um "pai" ao ver o filho a singrar na vida. E bem. Por fim, dei-lhe os parabéns com um abraço cheio de carinho.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

A TERESA (HISTÓRIA DE UMA "MULHER DA RUA")

O texto seguinte já tem uns anos. Com facilidade se descobre isso.

Muitas das minhas noites eram passadas "na rua".
Sentir o pulsar da cidade era um desafio.
Creio que os "amantes da noite" são diferentes (?) dos "amantes do dia". Há tantas solidões que são "curtidas" na noite!... É na noite que se conhece muito do ser humano.
Nunca ia sozinho.
Já passava da 1 hora. Chovia bem.
Conversávamos. Curiosos de quem iríamos encontrar.
A certa altura, junto a uma praça de táxis, vemos alguém estendido no chão.
Abeirámo-nos. A pessoa chorava, quase inerte. Fazia frio.
Era a Teresa. Toda molhada.
"Estás bem? O que é que aconteceu?"
"Bateram-me e deixaram-me aqui caída"
Vimos se os ossos estavam todos no sítio.
Levantámo-la.
"Já comeste alguma coisa?"
"Ainda não"
"Vamos levar-te a casa".
A custo, lá conseguimos levá-la.
A casa não ficava muito longe.
Entrámos. Havia alguém em casa. Era o "chulo". Bem descansado, via televisão. Ficou admirado de nos ver entrar. Pouco se preocupou se a Teresa vinha bem ou mal.
Vimos se havia algo para comer. Apenas alguns bolitos secos. Bolos e água foi o seu "jantar". Deitámo-la.
Amanhã, seria um dia igual a tantos outros: voltava a vender o corpo e a entregar o pouco que ganhava ao "chulo".
Por muito tempo deixámos de a ver.
Preocupados, tentámos encontrá-la.
Vivia noutra casa.
Nem era preciso abrir a porta. Entrámos. Subimos uma escada toda partida. A sua habitação "nova" era composta por um quarto e uma cozinha.
Agora, vivia só.
Sentámo-nos na cozinha. Era hora de jantar. Tinha, num alguidar, umas couves cortadas grosseiramente. Ia cozê-las sem mais nada.
Disse-nos que pagava 3 contos pelo aluguer da casa. Era pouco. Mas era muito para as suas posses e para o estado em que a casa se encontrava.
A certa altura alguém bate à porta. Ele vai ver quem era. Ouvimos discussão. Alguém lhe exigia 3 contos.
"Mas eu não os tenho. Não tenho saído para a rua, não tenho tido clientes... Estou doente"
Não aguentei e fui à porta entrar na discussão.
Os três contos que a dona da casa lhe exigia eram referentes ao dia anterior.
Afinal, a Teresa pagava 3 contos por dia por aquela casa. No fim do mês eram 90 contos! Que injustiça!
Berrei e a dona da casa foi-se embora.
Por aquele dia, o problema estava resolvido. E o que é que se iria passar nos dias seguintes?
A Teresa estava doente.
Todos se aproveitavam da sua "simplicidade" para a chular.
Que fazer?
Hoje, a Teresa vive numa casita nova que vontades amigas construíram; na sua terra de origem. Tem uma pequena reforma. Vive feliz. Já ninguém a chula.