quinta-feira, 4 de agosto de 2016

A TERESA (HISTÓRIA DE UMA "MULHER DA RUA")

O texto seguinte já tem uns anos. Com facilidade se descobre isso.

Muitas das minhas noites eram passadas "na rua".
Sentir o pulsar da cidade era um desafio.
Creio que os "amantes da noite" são diferentes (?) dos "amantes do dia". Há tantas solidões que são "curtidas" na noite!... É na noite que se conhece muito do ser humano.
Nunca ia sozinho.
Já passava da 1 hora. Chovia bem.
Conversávamos. Curiosos de quem iríamos encontrar.
A certa altura, junto a uma praça de táxis, vemos alguém estendido no chão.
Abeirámo-nos. A pessoa chorava, quase inerte. Fazia frio.
Era a Teresa. Toda molhada.
"Estás bem? O que é que aconteceu?"
"Bateram-me e deixaram-me aqui caída"
Vimos se os ossos estavam todos no sítio.
Levantámo-la.
"Já comeste alguma coisa?"
"Ainda não"
"Vamos levar-te a casa".
A custo, lá conseguimos levá-la.
A casa não ficava muito longe.
Entrámos. Havia alguém em casa. Era o "chulo". Bem descansado, via televisão. Ficou admirado de nos ver entrar. Pouco se preocupou se a Teresa vinha bem ou mal.
Vimos se havia algo para comer. Apenas alguns bolitos secos. Bolos e água foi o seu "jantar". Deitámo-la.
Amanhã, seria um dia igual a tantos outros: voltava a vender o corpo e a entregar o pouco que ganhava ao "chulo".
Por muito tempo deixámos de a ver.
Preocupados, tentámos encontrá-la.
Vivia noutra casa.
Nem era preciso abrir a porta. Entrámos. Subimos uma escada toda partida. A sua habitação "nova" era composta por um quarto e uma cozinha.
Agora, vivia só.
Sentámo-nos na cozinha. Era hora de jantar. Tinha, num alguidar, umas couves cortadas grosseiramente. Ia cozê-las sem mais nada.
Disse-nos que pagava 3 contos pelo aluguer da casa. Era pouco. Mas era muito para as suas posses e para o estado em que a casa se encontrava.
A certa altura alguém bate à porta. Ele vai ver quem era. Ouvimos discussão. Alguém lhe exigia 3 contos.
"Mas eu não os tenho. Não tenho saído para a rua, não tenho tido clientes... Estou doente"
Não aguentei e fui à porta entrar na discussão.
Os três contos que a dona da casa lhe exigia eram referentes ao dia anterior.
Afinal, a Teresa pagava 3 contos por dia por aquela casa. No fim do mês eram 90 contos! Que injustiça!
Berrei e a dona da casa foi-se embora.
Por aquele dia, o problema estava resolvido. E o que é que se iria passar nos dias seguintes?
A Teresa estava doente.
Todos se aproveitavam da sua "simplicidade" para a chular.
Que fazer?
Hoje, a Teresa vive numa casita nova que vontades amigas construíram; na sua terra de origem. Tem uma pequena reforma. Vive feliz. Já ninguém a chula. 

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