Ia quente aquele ano de 1970. Apesar do
calor, o trabalho não abrandava. Na secção de louça artística daquela empresa
de cerâmica de Coimbra, havia o afã calmo, habitualmente próprio de uma
actividade de labor concentrado, habilidade, harmonia no tratamento das formas;
que as paletas e os pincéis iam, nas suas voltas e reviravoltas, recriando.
Os operários, na roda trituradora da mó dos anos, tinham atingido uma
qualidade superior, quase conseguindo a perfeição… Os trabalhos saíam-lhes das
mãos com tais proporções e sentido artístico que era um privilégio apreciá-los
ali, no trabalhar das paletas, nas pinceladas de água, nos jeitos correctos.
Entre aqueles simples operários, destacava-se um em especial – Acácio Serra,
modelador – um homem de arte.
A diferença entre um artista e um grande artista ou génio, está na
capacidade deste conseguir um “golpe de asa”, algo que imprime ao que se cria
uma forma elevada e interiormente estética que nos perpassa o espírito, que
deixa o olhar embebecido, uma qualquer coisa que fica impressa, como pátina,
numa determinada obra e não surge na outra, embora também bela e tecnicamente irrepreensível. A estas outras,
por muito bem elaboradas, por muito correctas, falece-lhes qualquer quid, a interioridade especial, o
significado intelectual e o sentido que sempre transcende o próprio sentir
comum… Ficam aquém, há uma diminutio,
um apoucamento, escondido algures, que se adivinha mas não se sabe onde nem
porquê…
O que saía das mãos mágicas do Serra tinha a marca, a chancela do golpe de asa, a tal “transcendência” que deixava os olhos e a alma presos
àquele “quid”, àquele indefinível, que nos toma o espírito numa sensação de
belo, de bom, de extraterreno.
Sobretudo dedicava-se a modelar imagens de Cristo na Cruz. É difícil de
explicar o que sentia ao admirá-las: todas diferentes, todas sublimes. O Serra
pegava num pedaço de barro e os seus dedos, orientados sabe-se lá por que
sortilégios sabedores, cheios de vida, com movimentos precisos,, carregando
ali, pressionando novamente acolá, utilizando a paleta maior, a pequenina
agora, fazia com que aquela matéria informe tomasse jeitos admiráveis,
incríveis para os olhos encantados de Ricardo. Depois, a cabeça de Cristo
levemente inclinada, aquela expressão que, por certo, só uma inspiração divina
podia ter proporcionado: os traços de sofrimento atroz, mas também a aceitação,
a compreensão do que Lhe estava a acontecer, o suportar resignado das ofensas,
das dores, a oferta daquele sacrifício pavoroso em favor de todos os que O
provocavam e neles a toda a Humanidade. Às vezes parecia sorrir levemente…
Parecia querer ensinar a morrer. Dizer que ninguém tivesse medo de morrer. Ele
sabia que, do lado de lá, estava tudo… Que tivéssemos confiança… Ele estaria lá…
Interessante, Ricardo não recorda de ter lido, de forma tão nítida e
tocante, em nenhuma outra imagem de Cristo, uma mensagem impressiva e forte
como a que era transmitida pelos cristos de Acácio Serra. E já fora a Roma, a
Florença, às grandes capitais da arte, do espanto, da maravilha…
Ricardo, na época, também era empregado na fábrica e estudava para fazer
o seu Curso de Direito. O facto dos proventos não abundarem, a ar de um “deixa
correr”…, tem agora o desgosto de não possuir uma daquelas imagens. Mantém,
porém, a convicção, instalada no fundo da alma que, em cada uma das imagens,
ficou algo que teve o “toque” de alguma inspiração artística do Senhor.
Por vezes dava livre curso à imaginação e via os crucifixos a serem vendidos em feiras de então, entre
barulhos de pregoeiros vários, confusão, gritarias musicais… Às tantas, podia
acontecer que um sertanejo tirasse o guarda-chuva da gola do casaco e
apontasse:
- Ó mulher, aquele ali quanto vale?...
- 10$00!
- Tão caro? Que dizes, Maria?
- Gosto dele! Ó home, leva-o!
Hoje, um Cristo desses, eventualmente desconjuntado, num humilde quarto,
manterá, seguramente, a real dignidade que lhe advém do fundo dos tempos… A
expressão está lá e aquela família afortunada ignora que a representação da sua
maior riqueza está ali, pendurada numa parede carcomida pela humidade e pelo
tempo. A vida é assim: no oculto, no difícil de entender, quantas vezes não
está o verdadeiro Valor deste Mundo. Também Ele nos pintou de mil emoções e nos moldou com o barro do amor,
com arte, com o tal “golpe de asa”.
O Serra ganhava mal. Como quase todos os outros naquele sector. O posto
de trabalho de Ricardo era na Secção de Pessoal. Tentou, junto da
Administração, argumentar, como pôde e soube, que aquele homem, como outros de
outras secções, era um verdadeiro artista, um excepcional valor ao serviço da
empresa, merecia outra retribuição, outro incentivo, uma compensação mais
adequada. Saiu sempre de ombros caídos. Esbarrou com a incompreensão, com a
incultura, insensibilidade e com a lógica irracional do lucro, da exploração.
Havia outro artista de grande gabarito que mereceu igual sorte: Assunção
Dinis, sem exagero, o maior desenhador artístico da época. Apenas com um rim e
este já infectado, deslizou para a morte ainda nas primícias, ou um pouco mais,
da vida. Não há artista de nome que o não tenha na galeria dos grandes
desenhadores do País. Estes artistas são, normalmente, desconhecidos. A
ignorância nacional que grassa activa, pavoneante, tosca e oca, pelas páginas dos
telejornais e revistas deste pobre País, não lhes dá o merecido valor. Muitas
vezes acontece focar-se a personalidade e obra de um artista, mas tão só, para
se ganhar protagonismo, fingir intelectualidade e esperar que alguma chispa
reluzente salte da obra e ilumine a mediocridade do apresentador.
O argumento derrubante da administração para liquidar aquele nicho de
arte, era o de que aquela secção obrigava a mão-de-obra intensiva e que seria
muito mais rentável o azulejo, o pavimento, o sanitário. Então, numa decisão
infeliz, dominada por razões economicistas, aqueles “iluminados” empresários
deliberaram deitar à sarjeta da rua anos e anos de experiência, de arte, de
sabedoria. Ali, naquela desprezada calda da cultura, foram deitados fora restos
deixados por Cabral Antunes, por pintores como Antão e muitos outros de difícil
adjectivação dada a sua grandeza. Era um saber transmitido à maneira medieval:
mestre/aprendiz, em que aquele não era apenas o professor mas o amigo próximo,
o interessado no progresso do seu pupilo, de que se regozijava, olhando-o com
sincero orgulho.
Claro que a economia por um lado e os poderes públicos, tão ou mais
cegos que aqueles coitados empresários, por outro, não promoveram a continuação
daquele valor em Coimbra, cidade onde a arte morou tantas vezes ao longo dos
séculos… Ricardo ficou magoado com sensação de perda que sentia pelos artistas
dedicados àquele serviço durante décadas, por Coimbra. Aprendeu que as empresas
não têm alma e que só no brilho do ouro encontraram a sua razão de ser, a sua
exclusiva vocação… Hoje, passados bastantes anos, tantos contactos próximos com
empresas, Ricardo pode confirmar, sem temor de erro que, de facto não têm
alma!... Esqueceram por completo a sua função social. O fenómeno da globalização,
a rentabilidade, a luta pela sobrevivência, expulsaram delas o importante: o
Homem!
Como não bastasse este ror de acontecimentos, Ricardo recebeu a
inesperada e dolorosa notícia de que Acácio Serra se encontrava gravemente
doente, internado nos Hospitais da Universidade de Coimbra, então nos Colégios
de S. Jerónimo e das Artes.
Correu para lá! Foi informado por um excelente clínico e amigo, que nada
havia a fazer: uma doença renal… Viu uma perna do Serra como que a transbordar
de gordura – ele que era magro -, sobre a outra, cobrindo-a totalmente. Saiu
dali de coração apertado, triste e confuso. Com a sensação de uma grande
impotência, de perda… Ele, o grande artista… O génio das figuras de Jesus… Como
compree3nder? Terminava a Secção de Modulação e Pintura e o Senhor achou por
bem chamá-lo. Seria? De facto, a não ser assim, teria de escolher outro Serra,
a quem poderia inspirar aquela forma especial de transmitir a sua imagem. Bom,
os desígnios de Deus são insondáveis e não vale a pena matutar em filosóficos
porquês.
Estava nestas tristes lucubrações, debruçado no varandim, que do
primeiro andar dava para o pátio, quando, subitamente, começou a ouvir uns
gritos lancinantes, gritos intensos, gritos que pareciam rasgar p cérebro.
Exprimiam não só dor mas como que a violência de descarnar e desossar em vivo
um corpo, feriam o ouvido, anavalhavam os ares, trespassavam a alma, ecoavam
pelos céus fora.
Meio-aturdido, enfiou-se numa primeira enfermaria, tentando orientar-se
quanto à proveniência daquela aflitiva chamada. Acto impulsivo, pois que
poderia fazer?... que auxílio?...
Depois de algumas voltas encontrou numa cama um rapazinho, magro,
completamente anémico, talvez de uns treze anos. Não teria mais, de certeza. A
carne estava viva e não destruída, os ossos pareciam inteiros, mas aqueles
gritos como que ultrapassavam a intensidade adequada à dor que se imagina…
Seriam antes uma oração ao Além, com toda a força, para que tivesse
misericórdia e o levasse. De facto, não havia telhado que abafasse tal
intensidade, tal querer, tal pedido.
Procurou alguém que lhe desse uma explicação, que fizesse um pouco deluz
naquele pesadelo. Encontrou um Enfermeiro, muito calmo, sereno. Estranhou tal
posição face ao drama que se desenrolava ali, a metros. Crê mesmo que se terá
exaltado… Mas o Enfermeiro, com ar humano e profissional, explicou-lhe que era
um doente terminal, que tinham já administrado toda a escala de opiáceos e
nada, nada podiam fazer, senão aguardar. Leucemia!
Saiu meio enlouquecido, tapando os ouvidos com os dedos. À portaria
ainda eram bem audíveis os apelos de misericórdia; e mesmo depois de descer a
Alameda, já nos Arcos do Jardim, continuou a ouvi-los na memória e na alma. Em
casa voltou a ouvi-los. Apeteceu-lhe também gritar para que o Céu escutasse…
Nos dias seguintes os gritos continuaram a ressoar dentro de si, no seu ser, no
seu espírito… Começou a rezar, pedindo que o rapazinho morresse. Tão depressa
quanto possível… A contradição era-lhe dolorosa…
Uma semana depois, teve por missão seleccionar pessoas para ingresso na
empresa.
- A próxima, por favor!
Entrou uma senhora toda vestida de preto. Cerca de quarenta anos. A cara
marcada por fundos traços de sofrimento e olhos congestionados. Algumas cãs, a
denunciarem dificuldades na vida. Ricardo sentiu um sobressalto, uma estranha
impressão. Aquela senhora, que nunca tinha visto, com quem nunca tinha falado,
dizia-lhe qualquer coisa… E foi directo:
- Como se chama?
- Carmina!
- Anda de luto por algum filho?
- Ando!
- Não me diga que faleceu nos Serviços
do Doutor Gouveia Monteiro?
- Foi sim!
- De leucemia?
- Sim, de leucemia. Mas como sabe tudo
isto?
- Por uma coincidência.
Esqueceu de lhe fazer o interrogatório habitual. A opalavra que lhe
surgiu, rápida e sem hesitações, foi:
- Está admitida! Entra amanhã, se
quiser…
A Carmina envelheceu ali, cabelo todo branco… Labutou até à reforma. Por
estranho que possa parecer, Ricardo, muitas e muitas vezes fugiu de se
encontrar com ela. Não que tal encontro lhe desagradasse, mas porque sempre que
acontecia estar perto, lá surgiam os gritos, aqueles gritos, agora já
longínquos, como que arrumados algures. Eram, ecos a surdir do fundo da memória
e escutados pelo coração.
Hoje, trinta e três anos passados, amarrado a uma cama, com leucemia,
fazendo revisões de última hora nas longas noites dos Hospitais da Universidade
de Coimbra, seriam cerca das quatro da manhã, vieram à memória de Ricardo estes
acontecimentos que foram, provavelmente, um recado, um anúncio distante da
doença que o atacaria. Terá Jesus querido mostrar-lhe o pior para suavizar o
presente? E terá querido fazê-lo através de uma criança? – Ele que ama tanto as
crianças: “deixai vir a Mim as criancinhas”.
Ricardo sabe que lhe faltou a coragem de ter pegado na cruz e segui-Lo
na vida, como era devido. Afogou-se muitas vezes no mar das iniquidades e de
quantas coisas de que tinha o conhecimento de estar a errar. Apesar de tudo, a
que não são estranhas as razões expostas, irá tentar resistir a não Lhe pedir
nada… a não ser perdão. Julga não ter direito! Pede uma única coisa: que “SEJA
FEITA A TUA VONTADE!”, como nos ensinou no Pai Nosso. Aceita com as duas mãos
erguidas “ o que resultar da Tua vontade”.
Apenas havia pedido já, em fase difícil, ao Padre José António, capelão
dos Hospitais da Universidade – o Senhor o tenha sempre na Sua protecção – que,
com apelo do Além, o ajudasse a morrer com dignidade de Homem, sem a mínima
revolta, sem qualquer contrariedade, serenamente…
Ricardo, de olhos postos no indefinível, disse, ciciando: “espero encontrar-me contigo no lugar que
projectaste e ter a felicidade de ver minha mãe, avós, tios, amigos e todas as
pessoas queridas que permitiste conhecesse nesta vida. Havemos de conversar
acerca do rapaz: Jesus, hei-de pedir-Te o significado… Deves tê-lo ouvido e
tê-lo-ás em bom lugar… Confio em Ti! Só não entendo por que não deixaste para
mim aquele sofrimento do rapazito. Tu e eu sabemos bem que era a mim que
competia… Tu sabias…”
João Mendes Ferreira, in “O Chão das
Macieiras”, Edições Minerva Coimbra