domingo, 31 de julho de 2016

IRÃO À VOSSA FRENTE

Os meus amigos sabiam que eu, com alguma frequência, ia passar alguns momentos do meu dia (ou noite) a locais onde havia prostituição feminina.
Tentava "estar com", ouvir os lamentos, as histórias de vida com muito para contar.
Pois esses meus amigos começaram a pedir-me para eu levar os seus filhos e filhas.
Tive alguma relutância.
Não por medo dos jovens, mas por pudor e respeito para com as prostitutas. É que custa expôr a vida a pessoas que não "estão" dentro da vida.
Mas acedi.
Um dia, fui com um pequeno grupo de jovens.
Dirigimo-nos ao local onde se encontravam as prostitutas.
Uma delas chamou-me; já nos conhecíamos.
Tinha 65 anos. Vivia numa casa com duas divisões: sala-cozinha e quarto.
Eram quatro pessoas que lá habitavam: ela, um filho com cancro, a filha e o genro (estes dois desempregados).
A Deolinda era, naquela casa, a única que podia ganhar alguma coisa para o sustento de todos. Com a idade que tinha, não conseguia arranjar emprego. Só lhe restava uma coisa: a prostituição.
Conversamos.
A malta nova entra na conversa. Mesmo muito interessados. Por tudo: pelo ambiente, pela história de vida; fazem perguntas... eu "assisto".
A certa altura, a Deolinda vira-se para mim e diz: "Sabe? Esta minha vida é uma merda! Mas não tenho outra maneira de ganhar pão para casa e para a família. Os que me procuram (e não são muitos, porque a minha idade já é muita) vêem em mim menos que um objecto. Muitas vezes sinto-me um farrapo. Mas... Sabe uma coisa? No meio disto tudo, só tenho uma certeza: Sei que Deus gosta de mim! Assim como sou!"
Ouvimos. Calámo-nos. Engolimos em seco.
O carinho manifestado pelos jovens passou a ser mais intenso. A conversa tornou-se mais viva.
Na viagem de regresso a casa, eles vinham em silêncio.
O encontro com a Deolinda tinha sido de tal maneira marcante, que não lhes apetecia falar.

Ainda hoje eles (já adultos) me falam dessa experiência que tiveram. 

quinta-feira, 28 de julho de 2016

A SOLIDÃO ATÉ NA MORTE

   O que experienciei há uns dias, fez-me lembrar o que vivi há uns tempos atrás e que passo a transcrever:

"Pediram-me para ir visitar o Ti João; estava muito mal. De idade avançada; solteiro; sempre tinha vivido sozinho; sem ninguém de família por perto.
É verdade que a sua maneira de ser era bastante especial; por isso, não era muito bem-quisto pelas pessoas. Também não era lá muito abastado de riquezas.
Fui visitá-lo. Conversámos durante algum tempo. Estava mesmo muito mal.
Quando saí de junto dele, notei alguma preocupação por parte das pessoas que estavam ali, junto à casa.
"Como vai ser se ele morrer? Como vamos fazer? Ele não tem ninguém!..."
Havia dúvidas a mais nas pessoas.
Passados dois ou três dias, o Ti João morreu.
Durante a Celebração, na Capela, não notei nada de especial. E até estava muita gente!
Terminada a Celebração era necessário pegar na urna para iniciarmos o cortejo para o cemitério. Ninguém se mexe. Ninguém mesmo; nem os membros da Irmandade, que, normalmente, exerciam essa tarefa. Olho para toda a gente; ninguém está interessado em olhar para mim. Era suposto (?!) que, se os irmãos da Irmandade não pegassem na urna, ao menos se apresentassem homens para isso. Ninguém se mexe.
"Se houver aí três senhoras que se disponibilizem, ajudem-me a pegar na urna". Vieram três senhoras ajudar-me.
Quando chegamos à rua, ouço uma voz a proclamar bem alto:
"Se ninguém o quiser levar, eu vou a minha casa buscar uma rodilha e levo-o à cabeça!"
Colocámos a urna na carrinha da Agência.
Chegados ao cemitério, a mesma cena: eu e três senhoras é que transportámos a urna."

 Então, há uns dias tive de presidir a um funeral de uma pessoa institucionalizada há mais de 30 anos. Éramos 5 pessoas: eu, duas Profissionais da casa e dois funcionários da agência funerária.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

FOI PARA ISSO QUE EU FUI AO SEU QUARTO !

Sabia da dificuldade que ele tinha em receber visitas, em conversar.
Depois da fase da negação, encontra-se, agora, na fase da revolta. Se permite algumas poucas visitas, é porque deseja sentir-se seguro; mas sem conversas.
Arrisquei. De manhã, passei só para dizer umas "larachas". Rimo-nos (tem um sorriso cativante). Eu disse que talvez voltasse de tarde.
"Mas de tarde tenho cá algumas visitas. Era bom que fosse noutra altura."
"Ok. Virei cá antes da hora das visitas. Assim, estaremos mais à vontade."
Tem 24 anos. Quantos sonhos tem um jovem desta idade!...
Conversámos sobre "objectivos" e "horizontes". Os "horizontes" como que os nossos ideais, aquilo para o qual caminhamos a longo prazo. Os "objectivos", como aquilo que eu posso realizar agora, no imediato. E os meus objectivos são diferentes dos outros. No hoje, no aqui e no agora, que objectivos é que eu posso realizar?
Vi que era tempo de ele descansar um pouco.
"Posso fazer-lhe um pedido? Sempre que passar por este piso, venha ver-me".
É claro que vou. Era isso que eu queria. Foi para isso que eu fui ao seu quarto.

sábado, 23 de julho de 2016

A AJUDA DE ALGUÉM QUE TAMBÉM SOFRIA

Passava no corredor e ouvi uma voz que me chamava.
Abeirei-me, e a pessoa diz-me:
"Já não se recorda de mim?"
"Peço-lhe desculpa, mas, por favor, ajude-me a recordar!"
"Estive cá internada há um ano. Sou a pessoa que chorava convulsivamente na capela, quando se abeirou de mim um senhor que começou a falar comigo. Contou-me tudo o que ele estava a passar e a sofrer, por causa dum internamento da esposa dele. Já se recorda?"
"Recordo, sim senhor!! E de que maneira!!"
"Olhe, não imagina quanto bem me fez esse senhor. Nessa altura eu estava totalmente desesperada. Depois do testemunho que ele me deu, sou uma outra pessoa. Tenho exactamente a mesma doença que tinha (creio que um pouco mais agravada). Mas vejo a vida de maneira diferente. Já não estou desesperada. Aceito tudo e até ajudo os que estão ao meu lado a verem a situação de maneira diferente."
Em silêncio, ouço esta mulher. Sou capaz de ver o brilho nos seus olhos. Parece mentira, mas até sou capaz de ver, neles, alegria. Ela fala com entusiasmo. Vê-se que sente o que diz. É bom saborear momentos destes.
"Queria pedir-lhe um favor: diga a esse senhor (de quem eu já me esqueci do nome) que lhe estou imensamente agradecida. Ele foi quem me ajudou a ter, de novo, alegria de viver. Sou outra pessoa!"
Escusado será dizer que telefonei imediatamente a "esse senhor". E disse-lhe "obrigado!". 

quinta-feira, 21 de julho de 2016

VOZ DE MÃE... VOZ DE DEUS!

Muitos dias a tinha visto na Celebração. O filho continuava a sua dor. Mas os seus cabelos brancos e o seu olhar límpido diziam que, apesar da dor enorme, ia lá bem dentro dela uma certeza: Deus receberia o talento que ela lhe iria devolver, já posto a render.
Bateu à porta e entrou.
Perguntei-lhe: "Como está o seu filho?"

Disse: "Faleceu há 8 dias. Acompanhei-o no último momento. No dia anterior, ele ainda estava a fazer planos. Mas eu sabia que o fim estava próximo. Às 9 da manhã, vi que já quase nada restava: sentia que a sua respiração ofegante era sinal de que pouco faltava para o desenlace. Enchi-me de forças. Ao ouvido, disse-lhe que se desprendesse de nós; que se libertasse de tudo o que o prendia a este mundo. E comecei a segredar-lhe ao ouvido com a voz e a ternura de que só uma mãe é capaz:
'Luz terna, suave, no meio da noite,
leva-me mais longe.
Não tenho aqui morada permanente...
Leva-me mais longe!
Esquece os meus passos mal andados,
meu desamor perdoa e meu pecado.
Eu sei que vai raiar a madrugada
e não me deixarás abandonado......'
Por fim, apagou-se. Sei que ele está junto de Deus. E rezo com ele!"

Voz de mãe... voz de Deus!

segunda-feira, 18 de julho de 2016

TANTOS SONHOS!...

Há momentos na vida que nos deixam sem palavras. Há situações que nos fazem sofrer mais que outras. 
Esta coisa da nossa sensibilidade é bastante complicada. Será ela selectiva? Não sei se será assim com toda a gente... mas talvez seja: o barro de que somos feitos não é muito diferente duns para os outros!
Ainda não tem 30 anos: uns vinte e poucos. 
Alguém me ligou a pedir para o acompanhar. Foi-lhe diagnosticada uma doença grave. 
Tinha casado há pouco tempo. 
Da primeira vez que o visitei, encontrei-o cheio de esperança e de coragem. Sempre que a sua jovem esposa pode, lá está ela ao lado dele. E ajuda-o bastante: ela é enfermeira. 
Mas a ajuda vem, sobretudo, porque ela o ama. O conhecimento de causa devido à sua profissão e o amor fazem um bom conjunto!
Ontem de manhã fui visitá-lo novamente. 
Achei-o muito abatido, desiludido e chorava: 
"Há um mês que me encontro aqui e começo a entrar em parafuso; aborreço a comida sempre igual; tenho dores horríveis no pescoço; mas, sobretudo, tenho saudades da minha mãe que também está internada depois dum AVC: já não a vejo desde que aqui estou." 
Ele estava sozinho e pude escutar os seus queixumes. 
Que lhe ia eu dizer? Procurei escutar, escutar, escutar. 
De tarde, passei novamente por lá; e lá estava a esposa. Também notei que não estava muito animada.
Tantos sonhos os uniram!
Será que estes sonhos irão todos por água abaixo?

Não quero acreditar. 

sábado, 16 de julho de 2016

O PROTOCOLO (TAMBÉM NA IGREJA?)

Eram umas 10:30 da manhã.
Eu chegava à porta da Capela, vindo de visitar alguns doentes.
Chegava também uma senhora, residente na zona, que habitualmente vem aqui participar na Missa aos Domingos.
Faço questão de que seja ela a entrar primeiro na Capela.
"De maneira nenhuma, sr. padre. Primeiro o senhor, que é o representante da Igreja!"
"Muito bem. Então se eu sou o seu representante - sim ,porque a senhora é Igreja - deve entrar primeiro a senhora".
"Com essa é que o senhor me derrotou. Obrigado pela lição!"
Rimos a bandeiras despregadas e lá demos prioridade à lei das precedências: primeiro entrou a Igreja e, logo depois, o seu representante.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

UMA CADEIRA DE RODAS A CORRER (COM "ALGUÉM" LÁ DENTRO)

Olho para a minha direita e vejo uma cadeira de rodas a correr! Ao mesmo tempo, toca o telefone do vigilante; noto que o telefonema se relaciona com a cadeira de rodas que eu tinha visto a correr. Visto que o vigilante não podia fazer grande esforço, dirijo-me eu à cadeira(!)
E quem vejo? Uma jovem. Queria ficar na rua.
"O mundo é tão grande! Deixem-me basar para eu ir para o mundo!"
Notava-se que teria sido relativamente esbelta. Mas... neste momento está totalmente desfigurada: a droga e o álcool tiraram-lhe o brilho e a beleza do rosto.
Está revoltada, azeda.
Mas, perante um gesto de carinho duma Auxiliar, deixou-se "derreter".
Sei que o seu mais íntimo, que agora nos pode parecer oculto, é um íntimo amado por Deus: ela é filha de Deus com toda a propriedade. E se ela se sentir amada por alguém, também será capaz de se amar a si mesma.
Bem lá no fundo dela mesma, há algo de muito bom que, espero, lhe vá permitir que ela ainda se "transfigure".
"Senhor, ajuda-me a ver em cada um dos meus irmãos, sobretudo os mais 'desfigurados', o reflexo do rosto de Cristo Transfigurado".
Amen

quinta-feira, 7 de julho de 2016

NÃO DEIXA QUE A MÃE PARTA

Perdeu o pai aos 3 anos. 
A partir daí, ele e a mãe, viveram numa cumplicidade de amor até hoje. Fui presidir ao casamento dele. 
A mãe encontra-se em fase terminal. Ele passa o dia e a noite junto dela. Não a quer perder. Dói a alma vê-los juntos: fazem-se carícias, choram. Ele não quer mesmo deixar partir a mãe. Um e outro estão conscientes da situação. Esta manhã estive com ele, primeiro, e, depois, com os dois ao mesmo tempo.
Conversámos de tudo. Até do fim que se avizinha. Ele teve de sair uns segundos para atender um telefonema. 
A mãe segredou-me: "Ele diz que está conformado. Mas não está! Eu noto que não.". Por muito que a mãe esteja cansada de sofrer e queira 'partir', ele não deixa.
"Amo-te muito, mãe!"
"Eu também te amo muito, filho!"

terça-feira, 5 de julho de 2016

SABOREAR A VIDA

Um dia, estando a comentar na homilia o Evangelho em que Jesus afirma: "Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei" (Mt. 11, 28)falava das correrias de hoje em dia, da nossa vida stressante... 
Falava até das férias que muitos de nós temos e que são passadas no mesmo corre-corre de durante o ano. Dizia eu que é preciso, hoje mais que nunca, aprender a saborear a vida, a saborear as coisas pequenas da vida, do nosso dia-a-dia. Saborear o aperto de mão do amigo, saborear o serviço que os outros nos prestam, saborear pôr-do-sol...
Eis senão quando o Luís, um ribatejano de cepa, internado no serviço de Psiquiatria, sempre atento ao que eu dizia, irrompe, alto e bom som: "Ó sr. padre é verdade. E se for a contemplar o pôr-do-sol na companhia duma bela rapariga, será ainda melhor! Não acha?"
Um sorriso apareceu no rosto de todos os que estavam presentes. Esta 'deixa' veio mesmo a propósito.
No fim da Missa, ele veio ter comigo: "Queria pedir desculpa, mas era o que eu sentia no momento". Rimo-nos os dois.
E lembrei-me do um amigo meu, o P.e Vitor que escrevia: "Abrir largamente os braços e abraçar tudo o que está cheio de vida".

sexta-feira, 1 de julho de 2016

RECADO PARA O FUTURO

Ia quente aquele ano de 1970. Apesar do calor, o trabalho não abrandava. Na secção de louça artística daquela empresa de cerâmica de Coimbra, havia o afã calmo, habitualmente próprio de uma actividade de labor concentrado, habilidade, harmonia no tratamento das formas; que as paletas e os pincéis iam, nas suas voltas e reviravoltas, recriando.
   Os operários, na roda trituradora da mó dos anos, tinham atingido uma qualidade superior, quase conseguindo a perfeição… Os trabalhos saíam-lhes das mãos com tais proporções e sentido artístico que era um privilégio apreciá-los ali, no trabalhar das paletas, nas pinceladas de água, nos jeitos correctos. Entre aqueles simples operários, destacava-se um em especial – Acácio Serra, modelador – um homem de arte.
   A diferença entre um artista e um grande artista ou génio, está na capacidade deste conseguir um “golpe de asa”, algo que imprime ao que se cria uma forma elevada e interiormente estética que nos perpassa o espírito, que deixa o olhar embebecido, uma qualquer coisa que fica impressa, como pátina, numa determinada obra e não surge na outra, embora também bela e  tecnicamente irrepreensível. A estas outras, por muito bem elaboradas, por muito correctas, falece-lhes qualquer quid, a interioridade especial, o significado intelectual e o sentido que sempre transcende o próprio sentir comum… Ficam aquém, há uma diminutio, um apoucamento, escondido algures, que se adivinha mas não se sabe onde nem porquê…
   O que saía das mãos mágicas do Serra tinha a marca, a chancela do golpe de asa, a tal “transcendência” que deixava os olhos e a alma presos àquele “quid”, àquele indefinível, que nos toma o espírito numa sensação de belo, de bom, de extraterreno.
   Sobretudo dedicava-se a modelar imagens de Cristo na Cruz. É difícil de explicar o que sentia ao admirá-las: todas diferentes, todas sublimes. O Serra pegava num pedaço de barro e os seus dedos, orientados sabe-se lá por que sortilégios sabedores, cheios de vida, com movimentos precisos,, carregando ali, pressionando novamente acolá, utilizando a paleta maior, a pequenina agora, fazia com que aquela matéria informe tomasse jeitos admiráveis, incríveis para os olhos encantados de Ricardo. Depois, a cabeça de Cristo levemente inclinada, aquela expressão que, por certo, só uma inspiração divina podia ter proporcionado: os traços de sofrimento atroz, mas também a aceitação, a compreensão do que Lhe estava a acontecer, o suportar resignado das ofensas, das dores, a oferta daquele sacrifício pavoroso em favor de todos os que O provocavam e neles a toda a Humanidade. Às vezes parecia sorrir levemente… Parecia querer ensinar a morrer. Dizer que ninguém tivesse medo de morrer. Ele sabia que, do lado de lá, estava tudo… Que tivéssemos confiança… Ele estaria lá…
   Interessante, Ricardo não recorda de ter lido, de forma tão nítida e tocante, em nenhuma outra imagem de Cristo, uma mensagem impressiva e forte como a que era transmitida pelos cristos de Acácio Serra. E já fora a Roma, a Florença, às grandes capitais da arte, do espanto, da maravilha…
   Ricardo, na época, também era empregado na fábrica e estudava para fazer o seu Curso de Direito. O facto dos proventos não abundarem, a ar de um “deixa correr”…, tem agora o desgosto de não possuir uma daquelas imagens. Mantém, porém, a convicção, instalada no fundo da alma que, em cada uma das imagens, ficou algo que teve o “toque” de alguma inspiração artística do Senhor.
   Por vezes dava livre curso à imaginação e via os crucifixos a serem vendidos em feiras de então, entre barulhos de pregoeiros vários, confusão, gritarias musicais… Às tantas, podia acontecer que um sertanejo tirasse o guarda-chuva da gola do casaco e apontasse:
- Ó mulher, aquele ali quanto vale?...
- 10$00!
- Tão caro? Que dizes, Maria?
- Gosto dele! Ó home, leva-o!
   Hoje, um Cristo desses, eventualmente desconjuntado, num humilde quarto, manterá, seguramente, a real dignidade que lhe advém do fundo dos tempos… A expressão está lá e aquela família afortunada ignora que a representação da sua maior riqueza está ali, pendurada numa parede carcomida pela humidade e pelo tempo. A vida é assim: no oculto, no difícil de entender, quantas vezes não está o verdadeiro Valor deste Mundo. Também Ele nos pintou  de mil emoções e nos moldou com o barro do amor, com arte, com o tal “golpe de asa”.
   O Serra ganhava mal. Como quase todos os outros naquele sector. O posto de trabalho de Ricardo era na Secção de Pessoal. Tentou, junto da Administração, argumentar, como pôde e soube, que aquele homem, como outros de outras secções, era um verdadeiro artista, um excepcional valor ao serviço da empresa, merecia outra retribuição, outro incentivo, uma compensação mais adequada. Saiu sempre de ombros caídos. Esbarrou com a incompreensão, com a incultura, insensibilidade e com a lógica irracional do lucro, da exploração.
   Havia outro artista de grande gabarito que mereceu igual sorte: Assunção Dinis, sem exagero, o maior desenhador artístico da época. Apenas com um rim e este já infectado, deslizou para a morte ainda nas primícias, ou um pouco mais, da vida. Não há artista de nome que o não tenha na galeria dos grandes desenhadores do País. Estes artistas são, normalmente, desconhecidos. A ignorância nacional que grassa activa, pavoneante, tosca e oca, pelas páginas dos telejornais e revistas deste pobre País, não lhes dá o merecido valor. Muitas vezes acontece focar-se a personalidade e obra de um artista, mas tão só, para se ganhar protagonismo, fingir intelectualidade e esperar que alguma chispa reluzente salte da obra e ilumine a mediocridade do apresentador.
   O argumento derrubante da administração para liquidar aquele nicho de arte, era o de que aquela secção obrigava a mão-de-obra intensiva e que seria muito mais rentável o azulejo, o pavimento, o sanitário. Então, numa decisão infeliz, dominada por razões economicistas, aqueles “iluminados” empresários deliberaram deitar à sarjeta da rua anos e anos de experiência, de arte, de sabedoria. Ali, naquela desprezada calda da cultura, foram deitados fora restos deixados por Cabral Antunes, por pintores como Antão e muitos outros de difícil adjectivação dada a sua grandeza. Era um saber transmitido à maneira medieval: mestre/aprendiz, em que aquele não era apenas o professor mas o amigo próximo, o interessado no progresso do seu pupilo, de que se regozijava, olhando-o com sincero orgulho.
   Claro que a economia por um lado e os poderes públicos, tão ou mais cegos que aqueles coitados empresários, por outro, não promoveram a continuação daquele valor em Coimbra, cidade onde a arte morou tantas vezes ao longo dos séculos… Ricardo ficou magoado com sensação de perda que sentia pelos artistas dedicados àquele serviço durante décadas, por Coimbra. Aprendeu que as empresas não têm alma e que só no brilho do ouro encontraram a sua razão de ser, a sua exclusiva vocação… Hoje, passados bastantes anos, tantos contactos próximos com empresas, Ricardo pode confirmar, sem temor de erro que, de facto não têm alma!... Esqueceram por completo a sua função social. O fenómeno da globalização, a rentabilidade, a luta pela sobrevivência, expulsaram delas o importante: o Homem!
   Como não bastasse este ror de acontecimentos, Ricardo recebeu a inesperada e dolorosa notícia de que Acácio Serra se encontrava gravemente doente, internado nos Hospitais da Universidade de Coimbra, então nos Colégios de S. Jerónimo e das Artes.
   Correu para lá! Foi informado por um excelente clínico e amigo, que nada havia a fazer: uma doença renal… Viu uma perna do Serra como que a transbordar de gordura – ele que era magro -, sobre a outra, cobrindo-a totalmente. Saiu dali de coração apertado, triste e confuso. Com a sensação de uma grande impotência, de perda… Ele, o grande artista… O génio das figuras de Jesus… Como compree3nder? Terminava a Secção de Modulação e Pintura e o Senhor achou por bem chamá-lo. Seria? De facto, a não ser assim, teria de escolher outro Serra, a quem poderia inspirar aquela forma especial de transmitir a sua imagem. Bom, os desígnios de Deus são insondáveis e não vale a pena matutar em filosóficos porquês.
   Estava nestas tristes lucubrações, debruçado no varandim, que do primeiro andar dava para o pátio, quando, subitamente, começou a ouvir uns gritos lancinantes, gritos intensos, gritos que pareciam rasgar p cérebro. Exprimiam não só dor mas como que a violência de descarnar e desossar em vivo um corpo, feriam o ouvido, anavalhavam os ares, trespassavam a alma, ecoavam pelos céus fora.
   Meio-aturdido, enfiou-se numa primeira enfermaria, tentando orientar-se quanto à proveniência daquela aflitiva chamada. Acto impulsivo, pois que poderia fazer?... que auxílio?...
   Depois de algumas voltas encontrou numa cama um rapazinho, magro, completamente anémico, talvez de uns treze anos. Não teria mais, de certeza. A carne estava viva e não destruída, os ossos pareciam inteiros, mas aqueles gritos como que ultrapassavam a intensidade adequada à dor que se imagina… Seriam antes uma oração ao Além, com toda a força, para que tivesse misericórdia e o levasse. De facto, não havia telhado que abafasse tal intensidade, tal querer, tal pedido.
   Procurou alguém que lhe desse uma explicação, que fizesse um pouco deluz naquele pesadelo. Encontrou um Enfermeiro, muito calmo, sereno. Estranhou tal posição face ao drama que se desenrolava ali, a metros. Crê mesmo que se terá exaltado… Mas o Enfermeiro, com ar humano e profissional, explicou-lhe que era um doente terminal, que tinham já administrado toda a escala de opiáceos e nada, nada podiam fazer, senão aguardar. Leucemia!
   Saiu meio enlouquecido, tapando os ouvidos com os dedos. À portaria ainda eram bem audíveis os apelos de misericórdia; e mesmo depois de descer a Alameda, já nos Arcos do Jardim, continuou a ouvi-los na memória e na alma. Em casa voltou a ouvi-los. Apeteceu-lhe também gritar para que o Céu escutasse… Nos dias seguintes os gritos continuaram a ressoar dentro de si, no seu ser, no seu espírito… Começou a rezar, pedindo que o rapazinho morresse. Tão depressa quanto possível… A contradição era-lhe dolorosa…
   Uma semana depois, teve por missão seleccionar pessoas para ingresso na empresa.
- A próxima, por favor!
   Entrou uma senhora toda vestida de preto. Cerca de quarenta anos. A cara marcada por fundos traços de sofrimento e olhos congestionados. Algumas cãs, a denunciarem dificuldades na vida. Ricardo sentiu um sobressalto, uma estranha impressão. Aquela senhora, que nunca tinha visto, com quem nunca tinha falado, dizia-lhe qualquer coisa… E foi directo:
- Como se chama?
- Carmina!
- Anda de luto por algum filho?
- Ando!
- Não me diga que faleceu nos Serviços do Doutor Gouveia Monteiro?
- Foi sim!
- De leucemia?
- Sim, de leucemia. Mas como sabe tudo isto?
- Por uma coincidência.
   Esqueceu de lhe fazer o interrogatório habitual. A opalavra que lhe surgiu, rápida e sem hesitações, foi:
- Está admitida! Entra amanhã, se quiser…
   A Carmina envelheceu ali, cabelo todo branco… Labutou até à reforma. Por estranho que possa parecer, Ricardo, muitas e muitas vezes fugiu de se encontrar com ela. Não que tal encontro lhe desagradasse, mas porque sempre que acontecia estar perto, lá surgiam os gritos, aqueles gritos, agora já longínquos, como que arrumados algures. Eram, ecos a surdir do fundo da memória e escutados pelo coração.
   Hoje, trinta e três anos passados, amarrado a uma cama, com leucemia, fazendo revisões de última hora nas longas noites dos Hospitais da Universidade de Coimbra, seriam cerca das quatro da manhã, vieram à memória de Ricardo estes acontecimentos que foram, provavelmente, um recado, um anúncio distante da doença que o atacaria. Terá Jesus querido mostrar-lhe o pior para suavizar o presente? E terá querido fazê-lo através de uma criança? – Ele que ama tanto as crianças: “deixai vir a Mim as criancinhas”.
   Ricardo sabe que lhe faltou a coragem de ter pegado na cruz e segui-Lo na vida, como era devido. Afogou-se muitas vezes no mar das iniquidades e de quantas coisas de que tinha o conhecimento de estar a errar. Apesar de tudo, a que não são estranhas as razões expostas, irá tentar resistir a não Lhe pedir nada… a não ser perdão. Julga não ter direito! Pede uma única coisa: que “SEJA FEITA A TUA VONTADE!”, como nos ensinou no Pai Nosso. Aceita com as duas mãos erguidas “ o que resultar da Tua vontade”.
   Apenas havia pedido já, em fase difícil, ao Padre José António, capelão dos Hospitais da Universidade – o Senhor o tenha sempre na Sua protecção – que, com apelo do Além, o ajudasse a morrer com dignidade de Homem, sem a mínima revolta, sem qualquer contrariedade, serenamente…
   Ricardo, de olhos postos no indefinível, disse, ciciando: “espero encontrar-me contigo no lugar que projectaste e ter a felicidade de ver minha mãe, avós, tios, amigos e todas as pessoas queridas que permitiste conhecesse nesta vida. Havemos de conversar acerca do rapaz: Jesus, hei-de pedir-Te o significado… Deves tê-lo ouvido e tê-lo-ás em bom lugar… Confio em Ti! Só não entendo por que não deixaste para mim aquele sofrimento do rapazito. Tu e eu sabemos bem que era a mim que competia… Tu sabias…”


João Mendes Ferreira, in “O Chão das Macieiras”, Edições Minerva Coimbra