Os
meus amigos sabiam que eu, com alguma frequência, ia passar alguns momentos do meu
dia (ou noite) a locais onde havia prostituição feminina.
Tentava
"estar com", ouvir os lamentos, as histórias de vida com muito para
contar.
Pois
esses meus amigos começaram a pedir-me para eu levar os seus filhos e filhas.
Tive
alguma relutância.
Não
por medo dos jovens, mas por pudor e respeito para com as prostitutas. É que
custa expôr a vida a pessoas que não "estão" dentro da vida.
Mas
acedi.
Um
dia, fui com um pequeno grupo de jovens.
Dirigimo-nos
ao local onde se encontravam as prostitutas.
Uma
delas chamou-me; já nos conhecíamos.
Tinha
65 anos. Vivia numa casa com duas divisões: sala-cozinha e quarto.
Eram
quatro pessoas que lá habitavam: ela, um filho com cancro, a filha e o genro
(estes dois desempregados).
A
Deolinda era, naquela casa, a única que podia ganhar alguma coisa para o
sustento de todos. Com a idade que tinha, não conseguia arranjar emprego. Só
lhe restava uma coisa: a prostituição.
Conversamos.
A
malta nova entra na conversa. Mesmo muito interessados. Por tudo: pelo
ambiente, pela história de vida; fazem perguntas... eu "assisto".
A
certa altura, a Deolinda vira-se para mim e diz: "Sabe? Esta minha vida é
uma merda! Mas não tenho outra maneira de ganhar pão para casa e para a
família. Os que me procuram (e não são muitos, porque a minha idade já é muita)
vêem em mim menos que um objecto. Muitas vezes sinto-me um farrapo. Mas... Sabe
uma coisa? No meio disto tudo, só tenho uma certeza: Sei que Deus gosta de mim!
Assim como sou!"
Ouvimos.
Calámo-nos. Engolimos em seco.
O
carinho manifestado pelos jovens passou a ser mais intenso. A conversa
tornou-se mais viva.
Na
viagem de regresso a casa, eles vinham em silêncio.
O
encontro com a Deolinda tinha sido de tal maneira marcante, que não lhes
apetecia falar.
Ainda
hoje eles (já adultos) me falam dessa experiência que tiveram.
" O encontro com a Deolinda tinha sido de tal maneira marcante, que não lhes apetecia falar.
ResponderEliminarAinda hoje eles (já adultos) me falam dessa experiência que tiveram. "
E como marcaram...
Grata por tudo o que viveu e ensinou da vida a esses jovens. Fez-lhes bem ver esse lado da vida, ah se fez!!!
Não é Vida como a Deolinda dizia, mas era a vida possível. Não podia baixar os braços, a família precisava...
Aprenderam muito e essa aprendizagem, camaradagem e respeito perpetua-se.
OBRIGADA pela lições de vida que expôe aqui e pelo muiiiiiito que dá e se dá.