sexta-feira, 1 de julho de 2016

RECADO PARA O FUTURO

Ia quente aquele ano de 1970. Apesar do calor, o trabalho não abrandava. Na secção de louça artística daquela empresa de cerâmica de Coimbra, havia o afã calmo, habitualmente próprio de uma actividade de labor concentrado, habilidade, harmonia no tratamento das formas; que as paletas e os pincéis iam, nas suas voltas e reviravoltas, recriando.
   Os operários, na roda trituradora da mó dos anos, tinham atingido uma qualidade superior, quase conseguindo a perfeição… Os trabalhos saíam-lhes das mãos com tais proporções e sentido artístico que era um privilégio apreciá-los ali, no trabalhar das paletas, nas pinceladas de água, nos jeitos correctos. Entre aqueles simples operários, destacava-se um em especial – Acácio Serra, modelador – um homem de arte.
   A diferença entre um artista e um grande artista ou génio, está na capacidade deste conseguir um “golpe de asa”, algo que imprime ao que se cria uma forma elevada e interiormente estética que nos perpassa o espírito, que deixa o olhar embebecido, uma qualquer coisa que fica impressa, como pátina, numa determinada obra e não surge na outra, embora também bela e  tecnicamente irrepreensível. A estas outras, por muito bem elaboradas, por muito correctas, falece-lhes qualquer quid, a interioridade especial, o significado intelectual e o sentido que sempre transcende o próprio sentir comum… Ficam aquém, há uma diminutio, um apoucamento, escondido algures, que se adivinha mas não se sabe onde nem porquê…
   O que saía das mãos mágicas do Serra tinha a marca, a chancela do golpe de asa, a tal “transcendência” que deixava os olhos e a alma presos àquele “quid”, àquele indefinível, que nos toma o espírito numa sensação de belo, de bom, de extraterreno.
   Sobretudo dedicava-se a modelar imagens de Cristo na Cruz. É difícil de explicar o que sentia ao admirá-las: todas diferentes, todas sublimes. O Serra pegava num pedaço de barro e os seus dedos, orientados sabe-se lá por que sortilégios sabedores, cheios de vida, com movimentos precisos,, carregando ali, pressionando novamente acolá, utilizando a paleta maior, a pequenina agora, fazia com que aquela matéria informe tomasse jeitos admiráveis, incríveis para os olhos encantados de Ricardo. Depois, a cabeça de Cristo levemente inclinada, aquela expressão que, por certo, só uma inspiração divina podia ter proporcionado: os traços de sofrimento atroz, mas também a aceitação, a compreensão do que Lhe estava a acontecer, o suportar resignado das ofensas, das dores, a oferta daquele sacrifício pavoroso em favor de todos os que O provocavam e neles a toda a Humanidade. Às vezes parecia sorrir levemente… Parecia querer ensinar a morrer. Dizer que ninguém tivesse medo de morrer. Ele sabia que, do lado de lá, estava tudo… Que tivéssemos confiança… Ele estaria lá…
   Interessante, Ricardo não recorda de ter lido, de forma tão nítida e tocante, em nenhuma outra imagem de Cristo, uma mensagem impressiva e forte como a que era transmitida pelos cristos de Acácio Serra. E já fora a Roma, a Florença, às grandes capitais da arte, do espanto, da maravilha…
   Ricardo, na época, também era empregado na fábrica e estudava para fazer o seu Curso de Direito. O facto dos proventos não abundarem, a ar de um “deixa correr”…, tem agora o desgosto de não possuir uma daquelas imagens. Mantém, porém, a convicção, instalada no fundo da alma que, em cada uma das imagens, ficou algo que teve o “toque” de alguma inspiração artística do Senhor.
   Por vezes dava livre curso à imaginação e via os crucifixos a serem vendidos em feiras de então, entre barulhos de pregoeiros vários, confusão, gritarias musicais… Às tantas, podia acontecer que um sertanejo tirasse o guarda-chuva da gola do casaco e apontasse:
- Ó mulher, aquele ali quanto vale?...
- 10$00!
- Tão caro? Que dizes, Maria?
- Gosto dele! Ó home, leva-o!
   Hoje, um Cristo desses, eventualmente desconjuntado, num humilde quarto, manterá, seguramente, a real dignidade que lhe advém do fundo dos tempos… A expressão está lá e aquela família afortunada ignora que a representação da sua maior riqueza está ali, pendurada numa parede carcomida pela humidade e pelo tempo. A vida é assim: no oculto, no difícil de entender, quantas vezes não está o verdadeiro Valor deste Mundo. Também Ele nos pintou  de mil emoções e nos moldou com o barro do amor, com arte, com o tal “golpe de asa”.
   O Serra ganhava mal. Como quase todos os outros naquele sector. O posto de trabalho de Ricardo era na Secção de Pessoal. Tentou, junto da Administração, argumentar, como pôde e soube, que aquele homem, como outros de outras secções, era um verdadeiro artista, um excepcional valor ao serviço da empresa, merecia outra retribuição, outro incentivo, uma compensação mais adequada. Saiu sempre de ombros caídos. Esbarrou com a incompreensão, com a incultura, insensibilidade e com a lógica irracional do lucro, da exploração.
   Havia outro artista de grande gabarito que mereceu igual sorte: Assunção Dinis, sem exagero, o maior desenhador artístico da época. Apenas com um rim e este já infectado, deslizou para a morte ainda nas primícias, ou um pouco mais, da vida. Não há artista de nome que o não tenha na galeria dos grandes desenhadores do País. Estes artistas são, normalmente, desconhecidos. A ignorância nacional que grassa activa, pavoneante, tosca e oca, pelas páginas dos telejornais e revistas deste pobre País, não lhes dá o merecido valor. Muitas vezes acontece focar-se a personalidade e obra de um artista, mas tão só, para se ganhar protagonismo, fingir intelectualidade e esperar que alguma chispa reluzente salte da obra e ilumine a mediocridade do apresentador.
   O argumento derrubante da administração para liquidar aquele nicho de arte, era o de que aquela secção obrigava a mão-de-obra intensiva e que seria muito mais rentável o azulejo, o pavimento, o sanitário. Então, numa decisão infeliz, dominada por razões economicistas, aqueles “iluminados” empresários deliberaram deitar à sarjeta da rua anos e anos de experiência, de arte, de sabedoria. Ali, naquela desprezada calda da cultura, foram deitados fora restos deixados por Cabral Antunes, por pintores como Antão e muitos outros de difícil adjectivação dada a sua grandeza. Era um saber transmitido à maneira medieval: mestre/aprendiz, em que aquele não era apenas o professor mas o amigo próximo, o interessado no progresso do seu pupilo, de que se regozijava, olhando-o com sincero orgulho.
   Claro que a economia por um lado e os poderes públicos, tão ou mais cegos que aqueles coitados empresários, por outro, não promoveram a continuação daquele valor em Coimbra, cidade onde a arte morou tantas vezes ao longo dos séculos… Ricardo ficou magoado com sensação de perda que sentia pelos artistas dedicados àquele serviço durante décadas, por Coimbra. Aprendeu que as empresas não têm alma e que só no brilho do ouro encontraram a sua razão de ser, a sua exclusiva vocação… Hoje, passados bastantes anos, tantos contactos próximos com empresas, Ricardo pode confirmar, sem temor de erro que, de facto não têm alma!... Esqueceram por completo a sua função social. O fenómeno da globalização, a rentabilidade, a luta pela sobrevivência, expulsaram delas o importante: o Homem!
   Como não bastasse este ror de acontecimentos, Ricardo recebeu a inesperada e dolorosa notícia de que Acácio Serra se encontrava gravemente doente, internado nos Hospitais da Universidade de Coimbra, então nos Colégios de S. Jerónimo e das Artes.
   Correu para lá! Foi informado por um excelente clínico e amigo, que nada havia a fazer: uma doença renal… Viu uma perna do Serra como que a transbordar de gordura – ele que era magro -, sobre a outra, cobrindo-a totalmente. Saiu dali de coração apertado, triste e confuso. Com a sensação de uma grande impotência, de perda… Ele, o grande artista… O génio das figuras de Jesus… Como compree3nder? Terminava a Secção de Modulação e Pintura e o Senhor achou por bem chamá-lo. Seria? De facto, a não ser assim, teria de escolher outro Serra, a quem poderia inspirar aquela forma especial de transmitir a sua imagem. Bom, os desígnios de Deus são insondáveis e não vale a pena matutar em filosóficos porquês.
   Estava nestas tristes lucubrações, debruçado no varandim, que do primeiro andar dava para o pátio, quando, subitamente, começou a ouvir uns gritos lancinantes, gritos intensos, gritos que pareciam rasgar p cérebro. Exprimiam não só dor mas como que a violência de descarnar e desossar em vivo um corpo, feriam o ouvido, anavalhavam os ares, trespassavam a alma, ecoavam pelos céus fora.
   Meio-aturdido, enfiou-se numa primeira enfermaria, tentando orientar-se quanto à proveniência daquela aflitiva chamada. Acto impulsivo, pois que poderia fazer?... que auxílio?...
   Depois de algumas voltas encontrou numa cama um rapazinho, magro, completamente anémico, talvez de uns treze anos. Não teria mais, de certeza. A carne estava viva e não destruída, os ossos pareciam inteiros, mas aqueles gritos como que ultrapassavam a intensidade adequada à dor que se imagina… Seriam antes uma oração ao Além, com toda a força, para que tivesse misericórdia e o levasse. De facto, não havia telhado que abafasse tal intensidade, tal querer, tal pedido.
   Procurou alguém que lhe desse uma explicação, que fizesse um pouco deluz naquele pesadelo. Encontrou um Enfermeiro, muito calmo, sereno. Estranhou tal posição face ao drama que se desenrolava ali, a metros. Crê mesmo que se terá exaltado… Mas o Enfermeiro, com ar humano e profissional, explicou-lhe que era um doente terminal, que tinham já administrado toda a escala de opiáceos e nada, nada podiam fazer, senão aguardar. Leucemia!
   Saiu meio enlouquecido, tapando os ouvidos com os dedos. À portaria ainda eram bem audíveis os apelos de misericórdia; e mesmo depois de descer a Alameda, já nos Arcos do Jardim, continuou a ouvi-los na memória e na alma. Em casa voltou a ouvi-los. Apeteceu-lhe também gritar para que o Céu escutasse… Nos dias seguintes os gritos continuaram a ressoar dentro de si, no seu ser, no seu espírito… Começou a rezar, pedindo que o rapazinho morresse. Tão depressa quanto possível… A contradição era-lhe dolorosa…
   Uma semana depois, teve por missão seleccionar pessoas para ingresso na empresa.
- A próxima, por favor!
   Entrou uma senhora toda vestida de preto. Cerca de quarenta anos. A cara marcada por fundos traços de sofrimento e olhos congestionados. Algumas cãs, a denunciarem dificuldades na vida. Ricardo sentiu um sobressalto, uma estranha impressão. Aquela senhora, que nunca tinha visto, com quem nunca tinha falado, dizia-lhe qualquer coisa… E foi directo:
- Como se chama?
- Carmina!
- Anda de luto por algum filho?
- Ando!
- Não me diga que faleceu nos Serviços do Doutor Gouveia Monteiro?
- Foi sim!
- De leucemia?
- Sim, de leucemia. Mas como sabe tudo isto?
- Por uma coincidência.
   Esqueceu de lhe fazer o interrogatório habitual. A opalavra que lhe surgiu, rápida e sem hesitações, foi:
- Está admitida! Entra amanhã, se quiser…
   A Carmina envelheceu ali, cabelo todo branco… Labutou até à reforma. Por estranho que possa parecer, Ricardo, muitas e muitas vezes fugiu de se encontrar com ela. Não que tal encontro lhe desagradasse, mas porque sempre que acontecia estar perto, lá surgiam os gritos, aqueles gritos, agora já longínquos, como que arrumados algures. Eram, ecos a surdir do fundo da memória e escutados pelo coração.
   Hoje, trinta e três anos passados, amarrado a uma cama, com leucemia, fazendo revisões de última hora nas longas noites dos Hospitais da Universidade de Coimbra, seriam cerca das quatro da manhã, vieram à memória de Ricardo estes acontecimentos que foram, provavelmente, um recado, um anúncio distante da doença que o atacaria. Terá Jesus querido mostrar-lhe o pior para suavizar o presente? E terá querido fazê-lo através de uma criança? – Ele que ama tanto as crianças: “deixai vir a Mim as criancinhas”.
   Ricardo sabe que lhe faltou a coragem de ter pegado na cruz e segui-Lo na vida, como era devido. Afogou-se muitas vezes no mar das iniquidades e de quantas coisas de que tinha o conhecimento de estar a errar. Apesar de tudo, a que não são estranhas as razões expostas, irá tentar resistir a não Lhe pedir nada… a não ser perdão. Julga não ter direito! Pede uma única coisa: que “SEJA FEITA A TUA VONTADE!”, como nos ensinou no Pai Nosso. Aceita com as duas mãos erguidas “ o que resultar da Tua vontade”.
   Apenas havia pedido já, em fase difícil, ao Padre José António, capelão dos Hospitais da Universidade – o Senhor o tenha sempre na Sua protecção – que, com apelo do Além, o ajudasse a morrer com dignidade de Homem, sem a mínima revolta, sem qualquer contrariedade, serenamente…
   Ricardo, de olhos postos no indefinível, disse, ciciando: “espero encontrar-me contigo no lugar que projectaste e ter a felicidade de ver minha mãe, avós, tios, amigos e todas as pessoas queridas que permitiste conhecesse nesta vida. Havemos de conversar acerca do rapaz: Jesus, hei-de pedir-Te o significado… Deves tê-lo ouvido e tê-lo-ás em bom lugar… Confio em Ti! Só não entendo por que não deixaste para mim aquele sofrimento do rapazito. Tu e eu sabemos bem que era a mim que competia… Tu sabias…”


João Mendes Ferreira, in “O Chão das Macieiras”, Edições Minerva Coimbra

1 comentário:

  1. Nem imagina como me emocionei a ler este texto tão maravilhoso!.... Transportou-me para 1070 , 71 e 72 ... anos em que passei a maior parte do meu tempo internada nos H.U.C. no qual vivenciei tanto sofrimento !... Vi falecer jovens da minha idade, vitimas de leucemia. Nunca mais me esqueço delas !....Tudo o que vi e sofri nessa época me ajudaram a ser a pessoa que sou hoje !...

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