Há uns tempos, várias pessoas me desafiaram a colocar em livro os textos que aqui vou publicando.
Aceito o desafio!
Não sem algum pudor e "medo".
Não tenho grande jeito para estas coisas.
Mas, se for por uma boa causa, aceito o desafio. CONVOSCO!
terça-feira, 6 de dezembro de 2016
segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
O HUGO E O AVÔ
Tem 29 anos. Não o conhecia até ao seu internamento. Ontem, veio
cumprimentar-me juntamente com um colega seu. Pediu-me que lhe desse um terço
para trazer ao pescoço.
Esta tarde, quando ia à procura dum outro doente, encontrei-o. Vinha acompanhado por uma outra pessoa que eu já conhecia há uns 7 anos. Cumprimentei-os aos dois e, qual não foi o meu espanto, vejo que ele é filho dessa pessoa que eu já conhecia.
A sua história é simples: ingeriu comprimidos em demasia. Queria acabar com a vida. Namorou durante 7 anos uma moça que o deixou há 1 mês. Amava-a tanto que não aguentou a dor da separação.
Ingenuamente eu disse-lhe que “uma mulher não merecia que puséssemos termo à vida por ela nos ter deixado!” Esta minha afirmação foi mesmo ingénua e nada respeitadora do seu sofrimento. Ele simplesmente me disse que o amor não se pode medir.
Passadas umas horas, vem um idoso ter comigo. “Sou o avô do Hugo. Eu sei que ele já esteve a falar consigo. Ele telefonou-me a dizer que esta tarde viria à Missa. Eu vim visitá-lo e quero estar junto a ele. Ajude o meu neto”.
Na Missa lá estavam os dois: avô e neto. Na homilia, ele e outros colegas seus tiveram consciência de que eu me dirigia a eles. Notei isso nos seus olhares.
Terminada a Missa, avô e neto vêm ter comigo. Perguntei ao neto: “Gostas do teu avô?” Resposta dele: “Eu AMO o meu avô!”
Desconfio que este amor vai dar fruto! Ai vai, vai! O avô vai fazer milagres!
Esta tarde, quando ia à procura dum outro doente, encontrei-o. Vinha acompanhado por uma outra pessoa que eu já conhecia há uns 7 anos. Cumprimentei-os aos dois e, qual não foi o meu espanto, vejo que ele é filho dessa pessoa que eu já conhecia.
A sua história é simples: ingeriu comprimidos em demasia. Queria acabar com a vida. Namorou durante 7 anos uma moça que o deixou há 1 mês. Amava-a tanto que não aguentou a dor da separação.
Ingenuamente eu disse-lhe que “uma mulher não merecia que puséssemos termo à vida por ela nos ter deixado!” Esta minha afirmação foi mesmo ingénua e nada respeitadora do seu sofrimento. Ele simplesmente me disse que o amor não se pode medir.
Passadas umas horas, vem um idoso ter comigo. “Sou o avô do Hugo. Eu sei que ele já esteve a falar consigo. Ele telefonou-me a dizer que esta tarde viria à Missa. Eu vim visitá-lo e quero estar junto a ele. Ajude o meu neto”.
Na Missa lá estavam os dois: avô e neto. Na homilia, ele e outros colegas seus tiveram consciência de que eu me dirigia a eles. Notei isso nos seus olhares.
Terminada a Missa, avô e neto vêm ter comigo. Perguntei ao neto: “Gostas do teu avô?” Resposta dele: “Eu AMO o meu avô!”
Desconfio que este amor vai dar fruto! Ai vai, vai! O avô vai fazer milagres!
segunda-feira, 28 de novembro de 2016
A FILIPA COM LINFOMA DE HODGKIN
Tomo a liberdade de reproduzir aqui uma mensagem que recebi da
Filipa. Desculpa, Filipa, mas tinha de o fazer.
"Olá Tenho 19, chamo-me Filipa e tenho linfoma de
hodgkin...Coloquei um cateter e então fui ao centro de saúde tirar os pontos.
quando estava a espera para ser atendida duas senhoras conversavam... uma dizia
que tinha umas dores aqui e ali e a outra também!!! (eu pensei: oh umas dores! Isso com as injecções que andam a tomar passa, agora o que tenho não...) mantive-me calada e ia ouvindo e sorrindo... quando dei por mim uma das
senhoras disse que tinha feito quimioterapia no Hospital Santa Maria, que tinha
lá estado muito tempo internada... e disse que uma das vezes que tinha lá ido
encontrou umas meninas novinhas também doentes... foi como levar um estalo,
afinal a senhora também estava doente. Então meti-me na conversa e
disse:"Também estou a fazer quimioterapia"... Enquanto esperávamos
para ser atendidas fomos conversando as três e fui levando cada vez mais
estalos, pois tinha feito pouco das senhoras! A que fez quimioterapia tem
lúpus, e disse-me quais os problemas que aquilo lhe causava. Também lhe contei
a minha historia, mas ao lado da dela não era nada!!!... Assim falamos durante
algum tempo e fui descobrindo uma força enorme na senhora, com dois filhos e
marido, lutava e luta pela vida... disse que muitas vezes pensou em
desistir...mas depois pensava o que seria deles sem ela…então voltava a lutar
por mais tempo de vida... Ainda falamos mais algum tempo… Apesar de tudo, tenho
tido muita força de vontade para ultrapassar tudo mas sei que não vai ser
fácil... Cumprimentos"
sexta-feira, 25 de novembro de 2016
APESAR DE TUDO, A MINHA CIDADE (A)PARECEU-ME MAIS BONITA
Uma ambulância. Dois técnicos. Doze horas de serviço.
A correr, que é preciso acudir com urgência, porque os casos também são urgentes. São seres humanos que estão em causa. É a vida que está em causa.
O pulsar duma cidade onde tanta gente passa despercebida. Onde tantos vivem sem ser notados. A solidão, o desespero, a fome, a droga, a prostituição...
Uma ressaca duma quase over-dose, um fim de semana sem comer seja o que for e a viver na rua há já muitos meses. O marido que, ao acabar a semana, diz que se vai separar; os comprimidos, a desilusão, o mundo que desaba duma só vez sobre os ombros, a falta de apetite que leva a estar três dias sem comer...
Um acidente de viação de alguém que está a iniciar a vida, e a esperança dum futuro melhor...
A solidão que se faz dor, dentro do carro num parque...
Os sorrisos de quem se sente agradecido, de quem teve alguém que cuidou.
Os segredos que se dizem no meio de tanta dor.
A alegria do dever cumprido. A felicidade transbordante de ter servido.
A entrega e a amizade dos técnicos.
Uma cidade onde choviam gotas de dor misturadas com alguns raios de sol.
A minha cidade. Que hoje, apesar de tudo, me (a)pareceu mais bonita.
A correr, que é preciso acudir com urgência, porque os casos também são urgentes. São seres humanos que estão em causa. É a vida que está em causa.
O pulsar duma cidade onde tanta gente passa despercebida. Onde tantos vivem sem ser notados. A solidão, o desespero, a fome, a droga, a prostituição...
Uma ressaca duma quase over-dose, um fim de semana sem comer seja o que for e a viver na rua há já muitos meses. O marido que, ao acabar a semana, diz que se vai separar; os comprimidos, a desilusão, o mundo que desaba duma só vez sobre os ombros, a falta de apetite que leva a estar três dias sem comer...
Um acidente de viação de alguém que está a iniciar a vida, e a esperança dum futuro melhor...
A solidão que se faz dor, dentro do carro num parque...
Os sorrisos de quem se sente agradecido, de quem teve alguém que cuidou.
Os segredos que se dizem no meio de tanta dor.
A alegria do dever cumprido. A felicidade transbordante de ter servido.
A entrega e a amizade dos técnicos.
Uma cidade onde choviam gotas de dor misturadas com alguns raios de sol.
A minha cidade. Que hoje, apesar de tudo, me (a)pareceu mais bonita.
quarta-feira, 23 de novembro de 2016
A (EX)SENHORA DA BENGALA
A
idade, há muito que não lhe permite grandes correrias. Há bastante tempo que
anda com uma bengala que a ajuda a caminhar. Ultimamente tem piorado bastante;
sobretudo depois da morte do marido. A saudade que tinha, era bastante. Uma
saudade que lhe tolhia os movimentos e, de maneira especial, a alma. O
semblante sempre carregado. Mas não desistia de procurar algo. Às vezes
queixava-se de ainda não ter encontrado a 'paz'. Mas lá ia caminhando. E a
bengala sempre a acompanhava.
No
domingo passado vejo-a vir ao longe. Vinha para a Missa. Dirijo-me a ela para a
acompanhar no resto do caminho. Falamos de algumas trivialidades. Noto que
vinha sem bengala. Mas não lhe digo nada. Eis senão quando ela me diz:
"Ainda não reparou que venho sem bengala?" Faço-me estupefacto:
"Olha, pois vem! Mas o que é que se passou?" Responde-me:
"Iniciei um tratamento novo; ainda só fiz uma sessão, mas já está a dar
resultado". Ela caminhava razoavelmente bem.
A
Missa decorre. No momento da Comunhão, na fila, uma senhora caminha com
dificuldade. E quem eu vejo a acompanhá-la? A "ex-senhora da
bengala". Ajudava-a com todo o entusiasmo e carinho. Foi levá-la ao lugar.
No
fim de Missa, publicamente fiz menção deste caso (mas sem nomear fosse quem
fosse; só os conhecidos ficaram a saber de quem se tratava; até porque também
estavam todos contentes).
Quando
a "ex-senhora da bengala" ia a sair a capela, disse-me: "Quando
eu melhorar mais um bocado, até se vai admirar daquilo que eu serei capaz de
fazer!".
segunda-feira, 21 de novembro de 2016
CORTAR COM TUDO
Quando
se é internado um Hospital, tudo muda. Tem de se cortar com tudo. A nossa
roupa; a família; o ambiente; a privacidade; até muitas vezes o nosso nome
("o doente da cama 5"); a nossa posição social (um engenheiro passou
a ser o "sr. António'); os nossos hábitos alimentares; a nossa
independência dá lugar à dependência; outros 'decidem' por nós (mesmo com o
'consentimento informado', a informação não é por aí além e ficamos sem saber
de que somos informados); o nosso vocabulário não consegue atingir a enormidade
de vocábulos esquisitos e 'eruditos' com que nos falam; ficam a conhecer-nos por
fora e por dentro (todas as nossas vísceras são analisadas ao pormenor por
exames e mais exames; câmeras que nos filmam; o que até aí fazia parte do meu
íntimo, passa a ser do domínio de mais uns quantos); o nosso sono passa a ser
partilhado por mais alguns; deixa de haver lugar para uma conversa a sós com o
nosso médico, o psicólogo ou o capelão... Tudo muda. Algumas destas situações
não terão a ver com desumanização?
Há
dias, um senhor aí duns 80 e tal anos queixava-se: "Não há direito. Estou
aqui há quinze dias e ainda não me deram um copito de vinho. Não há direito.
Mas eu já os fintei: já bebi 2 copos de tinto. Um amigo encheu-se de pena de
mim e trouxe-me um vinhito. Eles não sabem. Mas os dois copos souberam-me muito
bem".
Pois.
Ainda há quem seja capaz de furar os esquemas! Este caso pode dar para rir. Mas
também pode dar para pensar.
Um dia, um colega meu, noutro Hospital, ia a passar no corredor e ouviu uma voz vinda dum quarto: "Sr. Padre... sr. Padre...". Ele ouviu e viu que conhecia aquela voz. Entrou e confirmou quem era a pessoa: uma senhora com 102 anos (!). Começaram a falar e o meu colega perguntou: "Então o que é que está aqui a fazer?" A senhora respondeu: "Viram que eu tinha uma 'promenia' e tive de vir parar ao Hospital". Nisto, ela abre a gaveta da mesa de cabeceira e tira de lá uma garrafita. Põe à boca e bebe. O meu colega diz: "O que é que está a fazer?" Resposta: "Estou a matar o bicho. Desde que me lembro que faço isto todos os dias. Esta cachacita é que me tem mantido viva!". Palavras para quê?
Com estes dois casos, não estou a querer dizer que eles foram fruto da desumanização. Contei-os simplesmente para aliviar um pouco os pensamentos dos meus queridos leitores(as).
sexta-feira, 18 de novembro de 2016
UM DESABAFO... MIL E UM DESABAFOS!
Por
dia passam por aqui centenas de pessoas. É um lugar privilegiado do e no
Hospital. Quase que podia dizer que é a "sala de visitas" desta Casa.
O local é minimamente acolhedor (e vamos tentar torná-lo ainda mais acolhedor).
É a Capela.
A quantidade de pessoas que diariamente procuram este espaço é enorme: doentes,
familiares, visitas, pessoas das consultas externas, profissionais da saúde...
Muitos profissionais aqui vêm antes de iniciar o serviço e ao terminá-lo.
Quantos gritos de angústia já aqui foram ouvidos! Quantos desesperos! Mares de
lágrimas já aqui foram vertidas!
E quantas lágrimas de alegria! Quantos sorrisos e segredos saíram do coração de
tanta gente!
Se estas quatro paredes pudessem falar!...
Podia relatar aqui mil e uma situações que diriam bem o quanto aqui se vive.
Uma mãe. O seu filho já estava há bastante tempo internado. A evolução positiva
era praticamente nenhuma. Este jovem não teria grande consciência do seu
sofrimento; de certeza que a mãe tinha muito maior consciência.
E, pelo que tenho visto, o sofrimento duma mãe é indescritível! Não sei que
registo é que elas têm bem lá no fundo do seu ser, que aumenta em não sei quantas
toneladas o seu sofrimento!
Chega-se junto da imagem de Maria.
As duas olham-se olhos nos olhos.
Uns segundos de silêncio.
Continuando de olhos nos olhos, saiu-lhe do mais profundo das suas entranhas,
este desabafo:
"Agora, sei quanto Tu sofreste, Mãe! Só agora é que eu sou capaz de dar
valor ao teu sofrimento! O sofrimento do meu filho ainda poderá ter alguma
solução. Mas o Teu Filho estava irremediavelmente condenado! "
quarta-feira, 16 de novembro de 2016
NÃO QUERO MORRER SOZINHA
Estar de
chamada de noite é sempre difícil.
É que,
muitas vezes, é na noite que acontecem situações mais complicadas, mas também
mais desafiantes e entusiasmantes.
Uma noite,
estando eu a dormir profundamente, pela 1 hora da manhã toca o telemóvel. Vejo
que era a Coordenação da Urgência que me ligava. Pensei logo: “Há problema
grave”. Do outro lado, ouvi: “Por favor,
venha à urgência que há alguém que quer falar consigo.”
Levantei-me,
vesti-me, meti-me no carro e rolei até ao Hospital. Ainda ensonado, dirigi-me à
Urgência e disseram-me: “Há aqui alguém que quer falar consigo. A situação é
bastante complicada”.
Depois de
esclarecido de todo estado da situação, dirigi-me até à pessoa que tinha pedido
a minha presença.
Apresentei-me.
Uma senhora
totalmente consciente. Também da sua situação.
“Padre, sei
que vou morrer. E já não falta muito. E não quero morrer sozinha. Gostava de
morrer acompanhada.”
“Aqui
estou”, disse eu.
“Mas vai
poder estar comigo até eu morrer?”
“Sim,
posso”.
“Obrigada”.
Durante
duas horas e meia conversámos do que e como nos foi possível. O filme do
passado, os momentos bons e menos bons, as certezas e as dúvidas, os medos, os
afectos… tudo!
Passadas
que foram essas 2 horas e meia, a senhora morreu. Posso dizer que morreu feliz.
E eu fiquei
a pensar e a “digerir” tudo o que se tinha passado. Parece que ainda hoje ‘vejo’
o local, o rosto e as mãos da senhora, as suas reacções, a sua respiração, os
seus olhares… os seus medos e desejos, a sua fé e as suas dúvidas…
E eu fiquei
feliz.
segunda-feira, 14 de novembro de 2016
GUARDO NO MEU CORAÇÃO AS LÁGRIMAS DO MEU MARIDO
Uma
visita a uma das Ginecologias.
Quatro
senhoras na sala de visitas. Uma delas em cadeira de rodas. Conversámos sobre
'trivialidades' (às vezes,
as 'trivialidades' são o trampolim para outras conversas mais sérias!).
Conversa daqui, conversa dacolá, começam a falar dos maridos, da vida em
casal... (no fundo,
todas diziam bem da vida em
casal; nem sempre, neste serviço de Ginecologia, se ouve dizer bem da vida em casal e dos maridos - elas
lá sabem porquê!).
Três
das senhoras ainda não me conheciam; só a senhora da cadeira de rodas é que me
conhecia. Uma delas lança-me uma pergunta como que num relâmpago:
"E
o sr. não diz nada do seu casamento?"
"Eu
não sou casado. E as mulheres são um pouco 'chatas'. Não deixam que os homens
vão para onde querem. Por isso é que não me casei!!!" (apeteceu-me brincar)
"Isso
não é verdade. E, no casamento, os dois têm de ir sempre para o mesmo lado. Mas
não tem nem uma mulher com quem viva a sua vida?
"Não,
não tenho".
"Não
acredito. Não é possível"
"É
verdade. Eu sou padre"
"Maroto!
Estava aqui a dar-nos baile! E essa marota que está aí não dizia nada!"
Todos
nos rimos.
A
senhora que estava na cadeira de rodas meteu palavra:
"Sim,
é verdade. Sou a única que o conheço. Mas, já agora, deixem que eu diga o que
sinto dentro de mim. Sou casada há 43 anos. Sinto-me feliz por isso. Hoje,
daria exactamente o mesmo passo. Estou internada há 5 meses e, até hoje, o meu
marido ainda nunca falhou um dia em me visitar: todos os dias cá tem vindo.
Olhe, ainda guardo, na minha mesa de cabeceira, a flor que ele me trouxe no dia
dos namorados. E guardo no meu coração as lágrimas que lhe vi quando me
ofereceu a flor. Eu amo-o muito. E tenho a certeza que ele também me ama".
sexta-feira, 11 de novembro de 2016
ABANDONADO PELA MULHER. ABANDONADO PELA IGREJA?
Conhecemo-nos há muito. Mas há pouco mais de um ano que não
conversávamos.
Teve um problema grande de saúde. Depois duma intervenção cirúrgica teve de fazer quimioterapia e radioterapia. Felizmente parece que o pior já foi ultrapassado.
Há dias encontrámo-nos.
"Então, como é que isso vai? A saúde?"
"A nível de saúde física tudo vai correndo normalmente. É claro que as minhas capacidades físicas nunca mais foram as mesmas. Não é que esteja totalmente diminuído, mas... Tive um casamento de vinte e tal anos. Passado algum tempo da minha intervenção, começaram os problemas em minha casa. Eu sei que não podia corresponder totalmente às expectativas da minha mulher em relação a mim: a doença e os tratamentos deixaram marcas. Ela acabou por pedir a separação e eu não ofereci resistência. Divorciámo-nos. Encontrei-me sozinho. Vazio. Foi o segundo grande terramoto da minha vida depois da doença."
"E agora? A nível de serenidade, de auto-estima, como vão as coisas?"
"Olhe, há um ano encontrei alguém que me está a aceitar como eu sou e como eu me encontro. Temos um bom relacionamento."
Eu ia ouvindo. Mas notava que havia nele alguma coisa que eu não estava a ser capaz de atingir.
"Apesar de me sentir bem, há uma coisa que me está a fazer sofrer. Falta-me a força da Comunhão. E eu preciso tanto dela. As leis da Igreja dizem que não posso receber a Comunhão por estar casado civilmente. Porque é que eu não posso comungar?"
Conversámos durante algum tempo. Encontrámos uma solução para o problema: um momento alto de oração e recebeu a Comunhão.
Mas como é que é possível que este homem, abandonado pela mulher por causa das suas menores capacidades físicas e, depois de ter encontrado alguém que lhe dá o carinho de que ele necessita, seja também abandonado pela Igreja?
Teve um problema grande de saúde. Depois duma intervenção cirúrgica teve de fazer quimioterapia e radioterapia. Felizmente parece que o pior já foi ultrapassado.
Há dias encontrámo-nos.
"Então, como é que isso vai? A saúde?"
"A nível de saúde física tudo vai correndo normalmente. É claro que as minhas capacidades físicas nunca mais foram as mesmas. Não é que esteja totalmente diminuído, mas... Tive um casamento de vinte e tal anos. Passado algum tempo da minha intervenção, começaram os problemas em minha casa. Eu sei que não podia corresponder totalmente às expectativas da minha mulher em relação a mim: a doença e os tratamentos deixaram marcas. Ela acabou por pedir a separação e eu não ofereci resistência. Divorciámo-nos. Encontrei-me sozinho. Vazio. Foi o segundo grande terramoto da minha vida depois da doença."
"E agora? A nível de serenidade, de auto-estima, como vão as coisas?"
"Olhe, há um ano encontrei alguém que me está a aceitar como eu sou e como eu me encontro. Temos um bom relacionamento."
Eu ia ouvindo. Mas notava que havia nele alguma coisa que eu não estava a ser capaz de atingir.
"Apesar de me sentir bem, há uma coisa que me está a fazer sofrer. Falta-me a força da Comunhão. E eu preciso tanto dela. As leis da Igreja dizem que não posso receber a Comunhão por estar casado civilmente. Porque é que eu não posso comungar?"
Conversámos durante algum tempo. Encontrámos uma solução para o problema: um momento alto de oração e recebeu a Comunhão.
Mas como é que é possível que este homem, abandonado pela mulher por causa das suas menores capacidades físicas e, depois de ter encontrado alguém que lhe dá o carinho de que ele necessita, seja também abandonado pela Igreja?
quarta-feira, 9 de novembro de 2016
A DIGNIDADE DUMA BARRACA
Todas
as nossas cidades têm periferias muito especiais. Não falo só de periferias
geográficas; falo também e sobretudo a nível social e humano.
A
cidade onde eu vivia naquela altura não era diferente das outras.
Perto
da estação de caminho de ferro existia um grande canavial. Ocultava muita
coisa; muita miséria.
Agora
já não existe. Mas, naquela altura podiam ver-se bastantes barracas: de
madeira, com chão de terra batida; normalmente de uma só divisão que albergava
várias pessoas. As barracas escondiam droga, álcool, prostituição, solidão...
miséria. Mesmo dentro da cidade. Quem passava não sabia o que lá existia. As
canas tapavam tudo. As barracas e as pessoas.
Um
dia fui desafiado para ir lá. Olhei de soslaio para a pessoa que me convidou.
Hesitei. Torci o nariz. Mas... decidi: "Vamos lá, então!"
Entrei
naquele espaço. Íamos com um objectivo: visitar a Isabel; vivia só com 1 filho
dos seus 8 anos. Ela era nova: vinte e tal.
Não
foi preciso bater à porta porque ela estava aberta. Duas camas, uma mesa, duas
cadeiritas. Camas feitas.
O
chão era de terra; húmida.
"Boa
tarde, Isabel"
"Boa
tarde. Estamos a acabar de almoçar; e a acabar de arrumar a casa. Sentem-se,
por favor".
Mãe
e filho sentaram-se numa das camas. Nós os dois sentámo-nos nas cadeiras.
Conversámos.
Muito. E que conversa maravilhosa!
A
certa altura olho para a "cozinha": um fogão de dois bicos, uma
pequena mesa com louça.
Que
louça bem lavada. Sobretudo os tachos e as panelas estavam de tal maneira bem
areados que pareciam um espelho.
A
Isabel tinha esmero.
Mas
ela só desejava uma casa.
Enquanto
isso não acontecia, dizia ela que tinha de ter a maior dignidade possível
naquela barraca.
E
ela fazia tudo por isso.
Hoje,
a Isabel vive num T2 sorteado pela Câmara. Mas gostei de ver a
"dignidade" daquela barraca.
segunda-feira, 7 de novembro de 2016
A CANTAR !!!
Conversava
eu com uma doente, no corredor, quando passa por nós uma outra doente com o
carrinho do soro e dos antibióticos, o qual ela conduzia muito bem.
E vinha a cantar! Intrigou-me o ela vir a cantar. É que nunca antes tinha visto outra pessoa, internada, a cantar pelo corredor fora. A doente com quem eu estava a falar, disse-me que ela, logo de manhã, canta.
Então, meti-me com ela:
"A cantar?"
"Sim, gosto muito de cantar. Sabe? Não posso comer por causa da intervenção que tive. E já começo a sentir fome. Para esquecer a fome que começa a aparecer, canto. E, por causa de eu gostar de cantar e, talvez cantar um bocadito bem, já arranjei alguns serviços que me ajudaram a ganhar a vida. Por exemplo, o tratar de doentes idosos acamados e acompanhá-los durante a noite... Na vida, tenho levado tudo a cantar. Não há necessidade de estar triste: isso iria aumentar o sofrimento."
Falta-me dizer que não consegui colocar aqui, na escrita, o sotaque desta doente: é que ela é brasileira; da Baía.
Tem 49 anos, 7 filhos. Veio para Portugal há 2 anos para lutar pela vida. À aventura.
"E não quero ficar por aqui... quero ir mais longe!"
A cantar!...
E vinha a cantar! Intrigou-me o ela vir a cantar. É que nunca antes tinha visto outra pessoa, internada, a cantar pelo corredor fora. A doente com quem eu estava a falar, disse-me que ela, logo de manhã, canta.
Então, meti-me com ela:
"A cantar?"
"Sim, gosto muito de cantar. Sabe? Não posso comer por causa da intervenção que tive. E já começo a sentir fome. Para esquecer a fome que começa a aparecer, canto. E, por causa de eu gostar de cantar e, talvez cantar um bocadito bem, já arranjei alguns serviços que me ajudaram a ganhar a vida. Por exemplo, o tratar de doentes idosos acamados e acompanhá-los durante a noite... Na vida, tenho levado tudo a cantar. Não há necessidade de estar triste: isso iria aumentar o sofrimento."
Falta-me dizer que não consegui colocar aqui, na escrita, o sotaque desta doente: é que ela é brasileira; da Baía.
Tem 49 anos, 7 filhos. Veio para Portugal há 2 anos para lutar pela vida. À aventura.
"E não quero ficar por aqui... quero ir mais longe!"
A cantar!...
sexta-feira, 4 de novembro de 2016
CORAÇÃO TRAÍDO
Tem
36 anos, mas uma vida já muito vivida. Teve uma infância e juventude como
qualquer outro rapaz da sua idade. Iniciou a sua profissão. Tinha um futuro
risonho à sua frente: risonho, porque "normal". Passado algum tempo
de estar ao serviço, declarou-se-lhe uma doença que o iria incapacitar: os
níveis de chumbo no organismo eram demasiado altos. De tratamento em
tratamento, o seu estado ia-se degradando. Teve de fazer um transplante. Mas os
resultados não foram os que a esperança esperava!
O
seu caminhar é titubeante; e com dificuldade percebemos o que ele diz.
Muitas
vezes temos conversado. Até porque o conheço há bastantes anos.
Dói-me
ver uma vida sem horizonte. Tem a sua pequena reforma antecipada, mas sente-se
confinado ao seu pequeno espaço familiar; pode sair de casa só uma noite por
semana; nas tardes, lá vai arranjando uma boleiazita para ir até ao café para
ler o jornal e conviver com algum amigo que por lá apareça. Tem um
"espaço" demasiado apertado.
Ontem,
durante 45 minutos, conseguimos entender-nos. Convidei-o a encher os pulmões
antes de dizer cada palavra; sei que lhe foi difícil, mas foi a única maneira
de eu o entender. Um convite ao exercício físico (andando a pé), ao exercício
mental (lendo bastante)... uma oferta de disponibilidade para nos podermos
escutar um ao outro.
"Há
dias foram a minha casa umas assistentes sociais e disseram-me para eu escrever
um livro. Já o comecei a escrever; tem o título 'Coração traído' ".
Imaginei-me
"na pele" deste rapaz. Senti-me incomodado, senti-me mal: angustiado,
como que sem ar para respirar.
Mas
o que é verdade é que esta nossa última conversa me fez sentir mais próximo
dele.
quarta-feira, 2 de novembro de 2016
UM OLHAR QUE FEZ DOER
Vinha
a tremer. Trazia uma pequena bolsa com 2 comprimidos. Deu-mos para a mão. Li o
nome químico deles. Era um retroviral.
Há
muito que não via ninguém assim. Naquele estado. Psíquica e espiritualmente
destruído.
Tem
medo. Medo de iniciar o tratamento. Medo do que pode vir depois.
Medo de tudo.
Contou-me
a história de há uns anos.
Fiquei
com o coração angustiado e a doer. Faltaram-me as palavras. Eu não lhe
conseguia tirar o sofrimento.
E
eu continuava com os comprimidos na mão. Estávamos os dois sentados frente a
frente. No fim de algum tempo a fitar aqueles olhos suplicantes, fez-me um
pedido:
"Abençoe-me
esses comprimidos. São os primeiros que vou tomar neste início do
tratamento."
Que
eles e sobretudo ele sejam abençoados.
Demos
um abraço. Prometeu voltar.
Mas
eu ainda não me sinto bem. Aquele olhar ainda está a provocar-me. A fazer doer
cá por dentro.
domingo, 30 de outubro de 2016
VIVI O QUE TINHA PARA VIVER
Tinha
pedido à Equipa de Enfermagem para que fosse visitada pelo Capelão. Queria
simplesmente conversar.
E muito tinha para dizer!
"Há praticamente 40 anos tive um tumor nos intestinos. Fui operada. Passei momentos horríveis. Quase ia apodrecendo. E deitava um cheiro nauseabundo. Tinha vergonha de estar fosse ao pé de quem fosse. O meu marido tinha morrido há 4 meses. E eu tinha duas filhas pequenas para criar. Fui 'enviada' para casa para morrer. Mas não me deixei abater. Enchi-me de todas as forças de que era capaz! Eu não queria morrer: as minhas filhas necessitavam de mim. Melhorei. Lutei. Sofri. Consegui vencer! Hoje tenho uma família de que me orgulho. Os meus netos são a menina dos meus olhos. Apesar de estarem longe, vêm visitar-me. Estou de novo internada. Sei muito bem o que tenho. Aquele 'maroto' voltou. Mas, como tenho agora 87 anos, já de nada me importo. Vivi o que tinha para viver. Realizei os meus sonhos. Criei e eduquei as minhas filhas. Vi os meus netos a ficarem bem na vida. Que mais posso esperar? Que mais posso querer? Estou preparada para morrer. Quero ir ter com Deus. E espero que Ele me receba no seu amor."
Que teria eu para dizer?
E muito tinha para dizer!
"Há praticamente 40 anos tive um tumor nos intestinos. Fui operada. Passei momentos horríveis. Quase ia apodrecendo. E deitava um cheiro nauseabundo. Tinha vergonha de estar fosse ao pé de quem fosse. O meu marido tinha morrido há 4 meses. E eu tinha duas filhas pequenas para criar. Fui 'enviada' para casa para morrer. Mas não me deixei abater. Enchi-me de todas as forças de que era capaz! Eu não queria morrer: as minhas filhas necessitavam de mim. Melhorei. Lutei. Sofri. Consegui vencer! Hoje tenho uma família de que me orgulho. Os meus netos são a menina dos meus olhos. Apesar de estarem longe, vêm visitar-me. Estou de novo internada. Sei muito bem o que tenho. Aquele 'maroto' voltou. Mas, como tenho agora 87 anos, já de nada me importo. Vivi o que tinha para viver. Realizei os meus sonhos. Criei e eduquei as minhas filhas. Vi os meus netos a ficarem bem na vida. Que mais posso esperar? Que mais posso querer? Estou preparada para morrer. Quero ir ter com Deus. E espero que Ele me receba no seu amor."
Que teria eu para dizer?
sexta-feira, 28 de outubro de 2016
TENHO SEDE
Um
médico seu amigo pediu-me para a ir visitar; não sem antes me informar de que a
iria encontrar num "estado lastimável", praticamente em fase
terminal. Dirigi-me à equipa de serviço e foi-me dito que a senhora se
encontrava numa "determinada sala" e que se encontrava muito mal, que
já não falava nem abria os olhos. Fui até junto à cama e verifiquei que era
verdade o que me tinham dito. No entanto, não deixei de tentar falar. Peguei
numa das mãos e... passado algum tempo, a senhora abre os olhos e encara-me:
"Quem é o senhor?",
ouvi eu lá do fundo dela mesma."Eu
sou o padre do Hospital". "Ah, já sei: foi o meu compadre
Dr.... que lhe pediu para vir junto a mim!". "Sim, é verdade!" Voltou a
fechar os olhos. Continuei a seu lado. Esperei mais algum tempo e por mais
algum gesto. Daí a pouco, voltei a ouvir: "Tenho sede!" Fui perguntar se lhe
podia dar água; "quem sim!".
Junto à cama, dei-lhe um pouco de água
numa seringa. Nunca vi ninguém a beber com tanta sofreguidão! Depois,
disse-me:"Reze
comigo. E vou ver se posso receber a Comunhão". Rezámos,
dei-lhe um pedacinho da partícula. Fizemos silêncio. Por fim, disse-me: "Obrigada. Tenho paz!", No
dia seguinte, ela partiu para o Pai. Mas aquele "tenho
sede!" ainda ecoa dentro de mim.
quarta-feira, 26 de outubro de 2016
HOSPITAL DE DIA
De
vez em quando reservo uma manhã para ir ao Hospital de Dia. Duas salas: uma
mais dedicada a Hematologia e Ginecologia; outra, para Gastroenterologia,
Pneumologia... Claro que estou a falar de salas onde se administra
quimioterapia. Cada sala tem capacidade para umas 30 camas.
Poucos Profissionais da Saúde para cuidarem de todos estes doentes.
Como se, cuidar, fosse só administrar medicamentos...
O
doentes que vão pela primeira vez, necessitam de cuidados especiais: o seu
nervosismo e ansiedade exigem uma maior atenção por parte dos profissionais.
Mas haverá tempo para isso, no meio de tantos(as) a tratar?
É
sempre 'bom' ir lá. Quase todos os doentes estão acompanhados por algum
familiar. É possível conversa 'amena'. Há possibilidade de grande abertura.
Parece que o carinho e o afecto envolvem todo aquele ambiente. E não é neste
pequeno 'post' que serei capaz de descrever tudo o que lá se passa. Muitas das
pessoas já as encontrei em internamentos anteriores, no Hospital.
Cada
doente é único, diferente. Gente de perto do Hospital e de longe. Uns estão em
casa de familiares que vivem perto; outros vieram de ambulância, de táxi, ou em
carro próprio conduzido por um familiar.
É-lhes
servida uma pequena e ligeira refeição.
Um
dos dias que por lá passei:
Primeira
pessoa com quem conversei: um pequeno bloco de apontamentos na mão, olhos
fechados. 'Acordei-a' dos seus pensamentos. "Faz hoje uma semana que o meu
marido foi a enterrar. Estou a tentar escrever uma pequena oração para ler,
logo, na Missa que vamos celebrar." E falou-me do marido e do amor que os
une. Da força que tem de dar aos filhos. Da amizade que está a sentir da parte
dos amigos. "Mas é duro, sr. Padre. E logo nesta altura em que me encontro
nesta situação!".
Duas
pessoas à frente: uma senhora esfrega o seu braço direito. "Estou cheia de
frio: não sei se é do ar condicionado, se é dos nervos que tenho". Claro
que era dos nervos. Fui buscar um pequeno cobertor. "Estou melhor
assim".
Sessenta
e um anos, já reformado, e que "Fazia todos os anos um chek-up; tudo
estava a correr bem. Mas, dum momento para o outro, começaram as hemorragias. O
cólon já não estava bem. Tive, logo a seguir, de ser intervencionado ao fígado.
Aqui estou, mas cheio de esperança.". Falamos de muita coisa. Quer saber
também algo de mim e como vou tentando ser padre. Conto-lhe o que sou capaz.
Mais
à frente, uma outra senhora com um olhar esquisito. Acabava de se deitar na
cadeira. "Sabe? É a primeira vez que aqui venho. Sinto-me tão
incomodada... Preocupo-me com tudo o que poderá acontecer a partir de agora.
Contam-me tanta coisa que estou cheia de medo".
Cumprimento
uma outra pessoa: um homem para os seus 60 e tal anos. Barba de 'três dias',
bem cuidada. Conta toda a história da sua vida. Os lugares onde trabalhou; e
foram muitos e bem distantes. "Olhe, sou médico. Chegou a minha vez. E
posso garantir-lhe que é bem diferente estar deste lado de cá!"
Uma
jovem, conhecida de há bastante tempo. Com uns pais e um marido fenomenais.
"Nunca pensei estar de novo aqui...". Pede para que lhe vá buscar a
Comunhão.
Tantos
casos, tantos! E de uma riqueza indescritível. Sinto-me mesmo Padre, no meio de
todas estas pessoas!
domingo, 23 de outubro de 2016
DUAS COMPANHEIRAS INSEPARÁVEIS (com um cantinho no meu coração)
No meio da vida pacata duma aldeia, o ir ao médico ou o ir à Missa
torna-se num acontecimento importante. Veste-se roupa diferente, já se deixa o
almoço adiantado, traz-se algum produto caseiro para oferecer a alguém...
Então, nas aldeias afastadas da sede de freguesia, tudo isto redobra de valor. Até se aproveita para ir colocar umas flores do próprio jardim nas campas dos seus entes queridos.
Tudo isto feito com muito amor.
Aproveita-se também para levar para casa aquilo que não se encontra à venda na pequena loja da terra... um peixe, um bife pequeno...
A Ti Maria e a Ti Aida.
Todas as semanas vinham ao médico; sempre as duas; vinham fazer o ponto da situação, conversar, falar das dores nas costas, da falta de apetite, das dificuldades em dormir...
O dia de virem ao médico era também dia de irem ao cemitério.
Ambas eram viúvas. Vinham dizer "Presente" ao amor que as tinha mantido felizes durante muitos anos. Conversavam, como se os maridos ali estivessem a ouvi-las (e não estariam?), deixavam uma flor em cima da campa.
Era Dezembro. Fazia frio. Tinha sido uma noite daquelas de "caramelo". A água estava gelada. Eu tinha roupa para lavar. Aqueci um pouco de água para "temperar" a que já estava no tanque da roupa.
Comecei a lavar; debaixo dum alpendre, bem escondido.
Eis senão quando aparecem junto a mim a Ti Maria e a Ti Aida. Vinham do cemitério (a minha casa ficava a uns40 metros ).
"Bom dia!"
"Bom dia minhas meninas. Como têm passado?"
"Bem. Cá com as nossas doenças... Viemos ao médico e aproveitámos para vir também ao cemitério"
"E vão já para casa? Querem tomar alguma coisa? Está tanto frio!..."
"Não, muito obrigadas. Fica para outra vez. E não será assim tão longe quanto isso!"
Despediram-se.
Continuei a lavar a minha roupa no tanque.
Passado algum tempo depois. Dia do meu aniversário.
A meio da tarde ouço bater à minha porta. Vou ver quem era.
"É aqui que mora o sr. José?"
"Sim, sou eu"
"Trago-lhe uma encomenda"
Abre a porta da carrinha e tira de lá uma caixa grande.
Pede-me ajuda para a descarregar. Vou ajudar, sem saber o que se passava.
Nisto saem da carrinha duas senhoras que vinham escondidas: eram a ti Maria e a ti Aida. Começam a cantar os "parabéns a você".
Eu também canto, porque a ti Maria também fazia anos nesse dia.
Descarregamos a caixa; levamo-la para dentro de casa.
Abrimos. Era uma máquina de lavar roupa!
"Gostámos de o ver a lavar a roupa no tanque, naquele dia. Mas... com uma máquina ficará mais livre para outras coisas".
Comemos e bebemos do que havia. E havia bastante, porque elas trouxeram um leitão assado!
Não sei porquê, mas estas duas mulheres ficaram sempre com um cantinho no meu coração!!! Eu sei que também estava no delas!
Então, nas aldeias afastadas da sede de freguesia, tudo isto redobra de valor. Até se aproveita para ir colocar umas flores do próprio jardim nas campas dos seus entes queridos.
Tudo isto feito com muito amor.
Aproveita-se também para levar para casa aquilo que não se encontra à venda na pequena loja da terra... um peixe, um bife pequeno...
A Ti Maria e a Ti Aida.
Todas as semanas vinham ao médico; sempre as duas; vinham fazer o ponto da situação, conversar, falar das dores nas costas, da falta de apetite, das dificuldades em dormir...
O dia de virem ao médico era também dia de irem ao cemitério.
Ambas eram viúvas. Vinham dizer "Presente" ao amor que as tinha mantido felizes durante muitos anos. Conversavam, como se os maridos ali estivessem a ouvi-las (e não estariam?), deixavam uma flor em cima da campa.
Era Dezembro. Fazia frio. Tinha sido uma noite daquelas de "caramelo". A água estava gelada. Eu tinha roupa para lavar. Aqueci um pouco de água para "temperar" a que já estava no tanque da roupa.
Comecei a lavar; debaixo dum alpendre, bem escondido.
Eis senão quando aparecem junto a mim a Ti Maria e a Ti Aida. Vinham do cemitério (a minha casa ficava a uns
"Bom dia!"
"Bom dia minhas meninas. Como têm passado?"
"Bem. Cá com as nossas doenças... Viemos ao médico e aproveitámos para vir também ao cemitério"
"E vão já para casa? Querem tomar alguma coisa? Está tanto frio!..."
"Não, muito obrigadas. Fica para outra vez. E não será assim tão longe quanto isso!"
Despediram-se.
Continuei a lavar a minha roupa no tanque.
Passado algum tempo depois. Dia do meu aniversário.
A meio da tarde ouço bater à minha porta. Vou ver quem era.
"É aqui que mora o sr. José?"
"Sim, sou eu"
"Trago-lhe uma encomenda"
Abre a porta da carrinha e tira de lá uma caixa grande.
Pede-me ajuda para a descarregar. Vou ajudar, sem saber o que se passava.
Nisto saem da carrinha duas senhoras que vinham escondidas: eram a ti Maria e a ti Aida. Começam a cantar os "parabéns a você".
Eu também canto, porque a ti Maria também fazia anos nesse dia.
Descarregamos a caixa; levamo-la para dentro de casa.
Abrimos. Era uma máquina de lavar roupa!
"Gostámos de o ver a lavar a roupa no tanque, naquele dia. Mas... com uma máquina ficará mais livre para outras coisas".
Comemos e bebemos do que havia. E havia bastante, porque elas trouxeram um leitão assado!
Não sei porquê, mas estas duas mulheres ficaram sempre com um cantinho no meu coração!!! Eu sei que também estava no delas!
sexta-feira, 21 de outubro de 2016
O FILME DE UMA VIDA
Um pai alcoólico. Uma mãe que teve um filho doutro homem. Aos 13 anos
começa a trabalhar. De trabalho em trabalho, lá vai sobrevivendo. O pai
suicida-se: sente-se culpada; não se consegue perdoar. Tem uma filha dum
relacionamento que pensava que ia dar certo. Mas o companheiro agride-a de
todos as maneiras. Fica destruída fisica e psiquicamente. Separam-se. E como é
que vai alimentar a filha? Arranja emprego por um mês. Cai doente. Pessoas de
bom coração sustentam-na e à filha. Arranja outro emprego, desta vez bom. Mas
passado um ano é despedida: mudança de patrões. Álcool. Bebedeiras atrás de
bebedeiras. Faz desintoxicação. Consegue vencer. Acidente de automóvel: a cervical
não aguenta. E a filha continua à espera duma vida melhor. Comprimidos:
intoxicação... E tantos, tantos outros problemas!
Bastou uma hora para ouvir e ver este "filme"
E a mim, depois de ouvir e ouvir, só me resta ir desabafar para junto de Quem é capaz de ouvir tudo.
Só espero que este filme venha a ter um final feliz.
Bastou uma hora para ouvir e ver este "filme"
E a mim, depois de ouvir e ouvir, só me resta ir desabafar para junto de Quem é capaz de ouvir tudo.
Só espero que este filme venha a ter um final feliz.
segunda-feira, 17 de outubro de 2016
GOLIAS E DAVID (COM O LUÍS PELO MEIO)
Uma
daquelas noites que passava "na rua".
Mas nesta noite resolvi ir sozinho. Aventurei-me.
Eu que não sou nada "forte"!
Fazia alguma ideia dos vários perigos que poderia correr; mas...Coração ao largo e lá me pus a caminho.
Já conhecia muitas das moças que estavam na rua. Elas já tinham à vontade para conversar comigo. Falávamos de muita coisa. Sobretudo das suas solidões, da violência física e psicológica a que eram sujeitas, da sua falta de recursos económicos...
Passei pela Gracinda; perguntei como estavam os miúdos e o companheiro.
"Estão todos no café ali ao lado".
Mas nesta noite resolvi ir sozinho. Aventurei-me.
Eu que não sou nada "forte"!
Fazia alguma ideia dos vários perigos que poderia correr; mas...Coração ao largo e lá me pus a caminho.
Já conhecia muitas das moças que estavam na rua. Elas já tinham à vontade para conversar comigo. Falávamos de muita coisa. Sobretudo das suas solidões, da violência física e psicológica a que eram sujeitas, da sua falta de recursos económicos...
Passei pela Gracinda; perguntei como estavam os miúdos e o companheiro.
"Estão todos no café ali ao lado".
Já
eram umas 2 horas da manhã.
O café estava cheio de gente da noite. Sobretudo homens (chulos), porque as mulheres estavam na rua a "trabalhar".
Dirigi-me à Lídia. Era a primeira vez que a via por ali. As perguntas do costume, mas sem querer saber muito acerca da sua identidade; é bom manter um certo resguardo para que as pessoas não se sintam "expostas".
Disse-lhe quem era e ao que andava. Respondeu-me que as colegas já lhe tinham falado de mim. Sobretudo a Gracinda que estava ali ao pé já lhe tinha contado algumas coisas.
Passados uns 15 minutos de conversa, vejo que sai do café um autêntico "Golias": era o chulo da Lídia. Vinha com ar ameaçador.
"O que é que está aqui a fazer? Ela é minha!"
Coitado de mim, pequenito "David"! Tentei explicar o que estava a fazer.
"Não quero saber nada disso! Faço-o já em bocados!"
Eis senão quando vem de dentro do café o Luís (chulo da Gracinda); já nos conhecíamos há muito.
"Eh pá, não lhe faças mal nenhum que ele é nosso amigo. Por favor, deixa-o. Ele só quer o nosso bem. Não anda aqui para as roubar à gente. Deixa-o."
O Luís foi a minha salvação naquela noite.
Levaram-me para o café e juntei-me à malta que lá estava. Os três conversámos bastante.
Será que alguma coisa lá ficou naqueles corações?
Espero que sim.
O café estava cheio de gente da noite. Sobretudo homens (chulos), porque as mulheres estavam na rua a "trabalhar".
Dirigi-me à Lídia. Era a primeira vez que a via por ali. As perguntas do costume, mas sem querer saber muito acerca da sua identidade; é bom manter um certo resguardo para que as pessoas não se sintam "expostas".
Disse-lhe quem era e ao que andava. Respondeu-me que as colegas já lhe tinham falado de mim. Sobretudo a Gracinda que estava ali ao pé já lhe tinha contado algumas coisas.
Passados uns 15 minutos de conversa, vejo que sai do café um autêntico "Golias": era o chulo da Lídia. Vinha com ar ameaçador.
"O que é que está aqui a fazer? Ela é minha!"
Coitado de mim, pequenito "David"! Tentei explicar o que estava a fazer.
"Não quero saber nada disso! Faço-o já em bocados!"
Eis senão quando vem de dentro do café o Luís (chulo da Gracinda); já nos conhecíamos há muito.
"Eh pá, não lhe faças mal nenhum que ele é nosso amigo. Por favor, deixa-o. Ele só quer o nosso bem. Não anda aqui para as roubar à gente. Deixa-o."
O Luís foi a minha salvação naquela noite.
Levaram-me para o café e juntei-me à malta que lá estava. Os três conversámos bastante.
Será que alguma coisa lá ficou naqueles corações?
Espero que sim.
sábado, 15 de outubro de 2016
UM CONDOMÍNIO PRIVADO JUNTO AO RIO
Vivia
num morro, numa barraca de madeira, bem perto do rio. Tinha 4 filhos, todos
menores. Já tinha andado "na rua", mas, agora, tinha estabilidade
afectiva (o seu companheiro era um homem carinhoso para ela e para os miúdos; e
era trabalhador).
Um cãozito (muito meigo) à porta da barraca.
Servia-se da água do rio para lavar a roupa e a louça. Claro que não tinha luz eléctrica. A barraca servia para todos se acomodarem; duma só divisão.
Com frequência a(os) visitava; e sentia-me bem no seu convívio. Ajudava como podia. Sobretudo na presença.
O sonho grande e quase único da Conceição era ter uma casa digna para ir criando os filhos. "Outras", sem tanta necessidade, já tinham conseguido uma casa através da Câmara. Ela continuava à espera. E... "quem espera, sempre alcança!"
Sabia quando ela fazia anos. Nesse dia, convidei um grupo de malta nova para darmos um passeio. Pedi-lhes para levarem de casa alguns produtos que eles achassem úteis para uma família com carências e com crianças, e também algum "mimo" para um aniversário.
Lá vamos nós: em 3 automóveis.
Foi uma invasão ao "condomínio privado" (!) da Conceição. Fizemos festa toda a tarde. Parecíamos um grupo que já há muito se conhecia.
Uns meses mais tarde soubemos que à Conceição lhe tinha calhado uma casa da Câmara com o espaço e comodidades suficientes para criar os filhos. Com a dignidade acrescida à sua dignidade de mulher e de mãe.
Um cãozito (muito meigo) à porta da barraca.
Servia-se da água do rio para lavar a roupa e a louça. Claro que não tinha luz eléctrica. A barraca servia para todos se acomodarem; duma só divisão.
Com frequência a(os) visitava; e sentia-me bem no seu convívio. Ajudava como podia. Sobretudo na presença.
O sonho grande e quase único da Conceição era ter uma casa digna para ir criando os filhos. "Outras", sem tanta necessidade, já tinham conseguido uma casa através da Câmara. Ela continuava à espera. E... "quem espera, sempre alcança!"
Sabia quando ela fazia anos. Nesse dia, convidei um grupo de malta nova para darmos um passeio. Pedi-lhes para levarem de casa alguns produtos que eles achassem úteis para uma família com carências e com crianças, e também algum "mimo" para um aniversário.
Lá vamos nós: em 3 automóveis.
Foi uma invasão ao "condomínio privado" (!) da Conceição. Fizemos festa toda a tarde. Parecíamos um grupo que já há muito se conhecia.
Uns meses mais tarde soubemos que à Conceição lhe tinha calhado uma casa da Câmara com o espaço e comodidades suficientes para criar os filhos. Com a dignidade acrescida à sua dignidade de mulher e de mãe.
quinta-feira, 13 de outubro de 2016
OS DOENTES SÃO SOLIDÁRIOS!
Era
um quarto de enfermaria com 6 camas. Tinha lá ido na semana anterior: estavam
lá internados 4 homens duma das minhas antigas paróquias.
Conversámos
bastante, rimo-nos muito. Disseram-me que, para passarem o tempo, costumavam
contar anedotas. Tudo se tornava mais fácil assim!
Passados
alguns dias voltei lá. E o ambiente não era o mesmo. Fiquei intrigado. Mas não
me atrevia a perguntar porquê. Até porque o quarto, naquele dia, tinha muitas
visitas. Fui conversando com um e com outro, quase em surdina.
A
certa altura, dois deles disseram-me:
"Não
está a estranhar a nossa postura?"
Perguntei:
"A vossa postura? Qual?"
Disseram:
"A de nós estarmos, hoje, tão calados!"
Disse
eu: "Sim, notei alguma coisa... mas julgava que era por estar aqui muita gente".
Então
veio a explicação: "Aproveitamos estar aqui muita gente para estarmos mais
calados e, assim, interiorizarmos uma notícia que soubemos há pouco: um dos
nossos colegas, o mais novo, parece que tem uma coisa ruim. E ele que ainda
tinha uma vida inteira á sua frente! Depois das visitas saírem, temos de voltar
à alegria para ele não sofrer. Mas, agora, temos a pensar nisto tudo. Estamos a
sofrer!"
segunda-feira, 10 de outubro de 2016
AO MENOS, AQUI, TENHO CAMA, MESA E ROUPA LAVADA!
Deu entrada no Hospital numa situação muito grave.
Foi-me pedido que a visitasse e, assim que me foi possível, procurei escutá-la e prometi que a visitaria sempre que pudesse.
O seu estado era muito crítico.
Mas, passadas que foram umas três semanas, começou a melhorar bastante.
Antevia-se alta para breve.
A uma sexta-feira fui à enfermaria onde ela estava internada e sou contactado pelo médico que a assistia.
Disse-me: "Vai visitar a D. M...?"
"Sim, vou."
"Olhe, por favor tente ver o que se está a passar com ela. É que a informámos que ela iria ter alta na próxima 2ª feira e o que é verdade é que ela voltou ao estado em que se encontrava quando foi internada. Por favor, ajude-nos!"
Dirigi-me ao quarto. Sentei-me à beira da cama e começámos a conversar.
Da conversa não saía do que eu queria. Foi difícil. E fui-me embora sem conseguir o que queria.
Voltei no dia seguinte.
A conversa recomeçou. Passada uma meia hora e sem nada conseguir, resolvi perguntar:
"D. M... que se passa consigo? Deu entrada no Hospital num estado muito crítico, como sabe. No entanto melhorou e foi-lhe anunciado que ria ter alta. O que é verdade é que, a partir daí, voltou ao seu estado anterior! Que se passa? Que se passou?"
Resposta imediata:
"Olhe, tudo o que tenho está ali no cacife. Toda a minha roupa e nada mais. Quando eu ainda estava mal, veio visitar-me uma colega que vivia comigo no mesmo quarto. Sem eu ter muita consciência, levou-me a assinar um cheque, o que causou que ela levantasse o pouco dinheiro que eu tinha no Banco. Para onde é que eu vou? Não tenho dinheiro para alugar um quarto. Só tenho três ou quatro peças de roupa. Para onde é que eu vou? Fazer o quê? Ao menos, aqui, tenho cama, mesa e roupa lavada!"
"É isso que a preocupa?"
"Sim, e não é pouco! É tudo o que sinto e que me dá para estar como estou!"
"Deixe isso connosco!"
Com o Serviço Social do Hospital começámos a tratar dum quarto para a D. M... e de um pequeno subsídio que lhe daria para ir sobrevivendo.
Assim que a D. M... tomou consciência do que estávamos a fazer por ela, as melhoras foram voltando a ser o que eram quando o médico lhe anunciou a alta.
Passados 8 dias, a D. M... teve alta para o seu novo quarto, com a roupa necessária, e algum dinheiro para gastar.
A cura da D. M... estava dependente não só de medicamentos, mas também da sua situação social.
Foi-me pedido que a visitasse e, assim que me foi possível, procurei escutá-la e prometi que a visitaria sempre que pudesse.
O seu estado era muito crítico.
Mas, passadas que foram umas três semanas, começou a melhorar bastante.
Antevia-se alta para breve.
A uma sexta-feira fui à enfermaria onde ela estava internada e sou contactado pelo médico que a assistia.
Disse-me: "Vai visitar a D. M...?"
"Sim, vou."
"Olhe, por favor tente ver o que se está a passar com ela. É que a informámos que ela iria ter alta na próxima 2ª feira e o que é verdade é que ela voltou ao estado em que se encontrava quando foi internada. Por favor, ajude-nos!"
Dirigi-me ao quarto. Sentei-me à beira da cama e começámos a conversar.
Da conversa não saía do que eu queria. Foi difícil. E fui-me embora sem conseguir o que queria.
Voltei no dia seguinte.
A conversa recomeçou. Passada uma meia hora e sem nada conseguir, resolvi perguntar:
"D. M... que se passa consigo? Deu entrada no Hospital num estado muito crítico, como sabe. No entanto melhorou e foi-lhe anunciado que ria ter alta. O que é verdade é que, a partir daí, voltou ao seu estado anterior! Que se passa? Que se passou?"
Resposta imediata:
"Olhe, tudo o que tenho está ali no cacife. Toda a minha roupa e nada mais. Quando eu ainda estava mal, veio visitar-me uma colega que vivia comigo no mesmo quarto. Sem eu ter muita consciência, levou-me a assinar um cheque, o que causou que ela levantasse o pouco dinheiro que eu tinha no Banco. Para onde é que eu vou? Não tenho dinheiro para alugar um quarto. Só tenho três ou quatro peças de roupa. Para onde é que eu vou? Fazer o quê? Ao menos, aqui, tenho cama, mesa e roupa lavada!"
"É isso que a preocupa?"
"Sim, e não é pouco! É tudo o que sinto e que me dá para estar como estou!"
"Deixe isso connosco!"
Com o Serviço Social do Hospital começámos a tratar dum quarto para a D. M... e de um pequeno subsídio que lhe daria para ir sobrevivendo.
Assim que a D. M... tomou consciência do que estávamos a fazer por ela, as melhoras foram voltando a ser o que eram quando o médico lhe anunciou a alta.
Passados 8 dias, a D. M... teve alta para o seu novo quarto, com a roupa necessária, e algum dinheiro para gastar.
A cura da D. M... estava dependente não só de medicamentos, mas também da sua situação social.
sábado, 8 de outubro de 2016
DEIXOU-SE CAIR NOS BRAÇOS DO PAI
11
da manhã. Toca o meu telemóvel.
"O
Enfº... está pior; parece-nos que está próximo do último suspiro; quando ele vê
entrar uma bata branca no quarto, pergunta sempre se é o senhor; não daria para
vir cá?"
Eu
estava a 80 Km .
Decidi pôr-me a caminho.
Cheguei
ao seu quarto. A sua voz já quase não existia; no entanto, ainda que com
dificuldade, conseguia perceber-se alguma coisa. Ele mesmo tira a máscara do
oxigénio para se fazer ouvir melhor. Balbuceia algumas palavras, as quais tem
de repetir para eu perceber. Escutei e guardei. Pergunto se quer água.
"Que sim". Bebe com sofreguidão. Pergunto-lhe: "Quer, então
comungar?" Faz-me sinal que sim com a cabeça. Vou buscar a Comunhão.
Juntamente com a esposa, rezamos. "Senhor, queremos falar-te do ... ele
está muito mal; olha para o seu estado de sofrimento..." Estávamos os três
unidos em espírito, em sofrimento e também fisicamente: as nossas mãos estavam
entrelaçadas. Dou-lhe um pedacinho da partícula. Ele ajuda com a sua mão. Tento
dar-lhe água; já não tem forças para a sorver.
Depois
de ter recebido a Comunhão sob a forma de Viático (como que o
"Farnel" para a última viagem), só sou capaz de lhe dizer: "ao
partir, vamos ser acolhidos nos braços do Pai, onde seremos felizes para
sempre!"
Às
21 horas, cansado, deixou-se cair nos braços do Pai.
Neles, descansará para
sempre.
quinta-feira, 6 de outubro de 2016
ENTRE TANTOS ERROS QUE JÁ COMETI... MAIS UM!
Está
à minha frente. Todos os dias me (nos) vem visitar. Logo pela manhã, ainda
antes do pequeno almoço. Pede licença para entrar e senta-se numa das cadeiras
vazias. Tem um 'refrão' que lhe é habitual: "Hoje vão matar-me!". Há
mais de uma semana 'proibi-lhe' de repetir esse 'refrão'. E ele tem cumprido.
Pois se todos aqui lhe querem bem, como é que o iriam matar? É extremamente
inteligente; demais, até. Sabe história, geografia; canta bem e até é capaz de
fazer letras para canções. É simpatiquíssimo, podemos dizer que é um gentleman!
Gosta muito de bolachas e de oferecer revistas às senhoras. Vai à pressa tomar
o pequeno almoço e volta de novo para junto de nós; às vezes ainda vem a comer.
Ontem,
ao contrário do que acontece normalmente, só chegou ao meu gabinete pelas 10 da
manhã. A essa hora eu já estava com algum apetite. Busquei umas bolachas que lá
tinha e também lhe ofereci. Comemos os dois até as acabar. O pacote ficou
vazio. Ele ofereceu-se logo para o ir colocar no lixo. Eu disse: "deixa
lá, que eu coloco". Ele ficou triste. Errei. Não soube aproveitar a
disponibilidade do Manuel. Pedi-lhe desculpa. E continuámos amigos.
segunda-feira, 3 de outubro de 2016
ACTIVIDADE RADICAL AOS 82 ANOS
Entre
muitos campos de férias para jovens que realizei, também realizei um para
seniores. Pessoas dos 50 para cima.
Já lá vão alguns anos.
Uma das actividades
que tivemos e, talvez, a mais radical, foi descermos o rio em canoa. Nunca
nenhuma dessas pessoas tinha realizado tal proeza. A ansiedade era muita. As dúvidas
também eram algumas.
A
Ti Maria era uma das participantes, 82 anos.
No dia da descida do rio, todos se
aprontam para o evento.
Também a Ti Maria. Fiquei aflito. Julgava que ela não
quereria participar. Não lhe dissemos nada. Ao chegar ao rio, cada um ocupa o
seu lugar e fizemos da Ti Maria a guardiã dos nossos haveres (ela e o condutor
do autocarro).
Numa das paragens para descansar e comer alguma coisa, notámos
que a Ti Maria estava triste, muito triste. Perguntámos porquê. "Então, eu
preparei-me toda para descer o rio e vocês não me deixam?". Olhámos uns
para os outros e decidimos que ela faria o resto da descida connosco. Os olhos
dela brilharam. De repente, saca da algibeira um maço enorme de notas de 5.000
escudos. Dá-as a guardar ao condutor do autocarro, e sobe para a canoa.
"Guarde bem o dinheiro para, no final do dia, fazermos uma festa bem
grande. Eu pago tudo!". A partir daí, se a descida do rio estava a ser bem
animada, mais animada ficou. Era ver uma mulher feliz! No final, disse:
"Foi dos dias mais felizes da minha vida". E a festa fez-se. Na noite
seguinte, a Ti Maria também foi participar numa caminhada pelas montanhas a
descobrir mensagens.
E era a mais rápida a andar. Feliz.
sábado, 1 de outubro de 2016
NOITES SEM DORMIR
De
inverno, as noites são longas. O frio aperta.
Não fosse uma lareira para aquecer o ambiente, e tudo parecia mais frio. Não fosse um cházito quente ou um vinhito com açúcar, aquecido numa púcara de barro em cima das brasas, e parecia que até o coração ficava gelado!
As nossas casas também não ofereciam grande conforto: granito, madeira, escuras por causa do fumo da lareira...
A idade e as maleitas também já não permitiam grandes conversas. Eu passava todos os dias, a várias horas, por aquela rua.
As casas eram todas térreas.
As portas sempre entreabertas.
As "velhotas" que até aí estavam a aproveitar a última réstia de sol, sentadas num banquito à soleira da porta, assim que o sol começava a ficar envergonhado, recolhiam logo para junto do lume, onde já tinham uma panelita de ferro junto às brasas.
Ali vivia-se ao mando do frio; ao mando do sol.
As pessoas mais antigas nem sempre tinham um televisor; quando muito lá tinham uma telefonia.
Cedo deixava de ver esta gente; o meu trabalho nocturno só me permitia vê-los(as) no outro dia de manhã.
"Bom dia, ti Luz!"
"Bom dia, vizinho!"
"Dormiu bem esta noite?"
"Olhe, nem por isso! A partir da meia noite não dormi mais"
"A sério? E já falou com o sr Doutor?"
"Eu bem tomo os comprimidos que ele me mandou. Mas é a mesma coisa que nada!"
"Peça-lhe para lhe dar uma dosesita maior"
Todos os dias era a mesma conversa.
Não havia dose que lhe desse mais sono. As queixas eram sempre as mesmas.
Depois de muitos diálogos semelhantes, resolvi disparar:
"Ouça lá, ti Luz! A que horas é que se costuma deitar?"
"Às 5 da tarde já eu estou na cama!"
"Claro. À meia noite já tem 7 horas dormidas. Ainda queria dormir mais?"
Algumas vezes, a partir das 5 da tarde, ia de propósito um bocadito até ao lume da ti Luz. Só para ela não acordar todas as noites à meia noite.
Não fosse uma lareira para aquecer o ambiente, e tudo parecia mais frio. Não fosse um cházito quente ou um vinhito com açúcar, aquecido numa púcara de barro em cima das brasas, e parecia que até o coração ficava gelado!
As nossas casas também não ofereciam grande conforto: granito, madeira, escuras por causa do fumo da lareira...
A idade e as maleitas também já não permitiam grandes conversas. Eu passava todos os dias, a várias horas, por aquela rua.
As casas eram todas térreas.
As portas sempre entreabertas.
As "velhotas" que até aí estavam a aproveitar a última réstia de sol, sentadas num banquito à soleira da porta, assim que o sol começava a ficar envergonhado, recolhiam logo para junto do lume, onde já tinham uma panelita de ferro junto às brasas.
Ali vivia-se ao mando do frio; ao mando do sol.
As pessoas mais antigas nem sempre tinham um televisor; quando muito lá tinham uma telefonia.
Cedo deixava de ver esta gente; o meu trabalho nocturno só me permitia vê-los(as) no outro dia de manhã.
"Bom dia, ti Luz!"
"Bom dia, vizinho!"
"Dormiu bem esta noite?"
"Olhe, nem por isso! A partir da meia noite não dormi mais"
"A sério? E já falou com o sr Doutor?"
"Eu bem tomo os comprimidos que ele me mandou. Mas é a mesma coisa que nada!"
"Peça-lhe para lhe dar uma dosesita maior"
Todos os dias era a mesma conversa.
Não havia dose que lhe desse mais sono. As queixas eram sempre as mesmas.
Depois de muitos diálogos semelhantes, resolvi disparar:
"Ouça lá, ti Luz! A que horas é que se costuma deitar?"
"Às 5 da tarde já eu estou na cama!"
"Claro. À meia noite já tem 7 horas dormidas. Ainda queria dormir mais?"
Algumas vezes, a partir das 5 da tarde, ia de propósito um bocadito até ao lume da ti Luz. Só para ela não acordar todas as noites à meia noite.
quarta-feira, 28 de setembro de 2016
O CORPO É QUE PAGA!
Queixou-se
do que lhe estava a acontecer: há alguns anos que tinha feito uma mastectomia;
agora, outra vez com problemas, mas na outra mama.
Dizia que tudo lhe estava a correr mal. Sentia-se revoltada e perguntava "porquê?". Chegou a dizer que já não tinha fé e que Deus é que lhe estava a dar esta nova doença.
Começa a contar os encontros e desencontros da sua vida. Os problemas do casal, as infidelidades, as lutas por manter a dignidade. O que teve de vender para que não fosse tudo por água abaixo.
Depois de muito conversarmos, chegou a uma conclusão: "Como é que não hei-de ter este problema actual, se a minha vida tem sido um inferno?"
Realmente tem sido uma vida sem cor, sem objectivos. Depois, o corpo é que o paga!
Saíu com um propósito: começar a dar cor à sua vida, a lembrar-se e preocupar-se mais consigo mesma, a cuidar da sua auto-estima.
E eu aqui fico a desejar que esses propósitos se concretizem.
Dizia que tudo lhe estava a correr mal. Sentia-se revoltada e perguntava "porquê?". Chegou a dizer que já não tinha fé e que Deus é que lhe estava a dar esta nova doença.
Começa a contar os encontros e desencontros da sua vida. Os problemas do casal, as infidelidades, as lutas por manter a dignidade. O que teve de vender para que não fosse tudo por água abaixo.
Depois de muito conversarmos, chegou a uma conclusão: "Como é que não hei-de ter este problema actual, se a minha vida tem sido um inferno?"
Realmente tem sido uma vida sem cor, sem objectivos. Depois, o corpo é que o paga!
Saíu com um propósito: começar a dar cor à sua vida, a lembrar-se e preocupar-se mais consigo mesma, a cuidar da sua auto-estima.
E eu aqui fico a desejar que esses propósitos se concretizem.
segunda-feira, 26 de setembro de 2016
MULHER ABANDONADA, MAS COM ALGUMAS AMIZADES SINCERAS
Várias
causas contribuíram para o seu internamento.
Uma vida de amargura, de solidão.
O seu corpo é o seu instrumento de trabalho e o seu ganha-pão.
No intervalo de
cada cliente, e com o dinheiro adquirido, lá se ia injectar; para esquecer? Não
importa por agora.
Dois filhos já lhe foram 'tirados'.
A família desprezou-a
por completo.
Agora,
deitada numa cama, não tem consciência do local onde se encontra e muito menos
do seu estado de saúde. Tem por perto os profissionais de saúde. Uma religiosa
vem visitá-la. Conhece-a 'da rua'.
Também vem uma colega da rua e um cliente.
Estas são as suas amizades sinceras. Vêm mesmo sem ela ter consciência de que
vêm.
E choram. Amizade sincera. Esta é a sua família.
sábado, 24 de setembro de 2016
"A MELHOR OBRA DA MINHA VIDA"
Há
seis anos que nos conhecemos.
Encontrámo-nos várias vezes.
Posso dizer que
sintonizamos em muitas ideias. Diz que não é católico. Pelo menos diz que não é
'praticante'.
Tem sucesso na profissão: conquistado a pulso. Já com quarenta e
tal, tirou um curso superior, o qual exerce agora com todo o brio e felicidade:
foi para isso que sempre lutou, pensava eu.
Diz (e eu acredito) que é feliz com a esposa. Tem um filho.
Com toda a felicidade que fui capaz de lhe ver nos olhos, disse-me:
"Olhe, o meu filho é a maior realização da minha vida! Não foi a profissão que me realizou plenamente. Mas sim o meu filho. Por causa dele, eu lutei. Ele é a minha melhor obra. Não me posso sentir mais feliz. Sou um pai realizado."
E eu também fiquei feliz. Por eles. Pais e filho.
E, depois desta conversa, ficámos ainda mais amigos.
Diz (e eu acredito) que é feliz com a esposa. Tem um filho.
Com toda a felicidade que fui capaz de lhe ver nos olhos, disse-me:
"Olhe, o meu filho é a maior realização da minha vida! Não foi a profissão que me realizou plenamente. Mas sim o meu filho. Por causa dele, eu lutei. Ele é a minha melhor obra. Não me posso sentir mais feliz. Sou um pai realizado."
E eu também fiquei feliz. Por eles. Pais e filho.
E, depois desta conversa, ficámos ainda mais amigos.
quinta-feira, 22 de setembro de 2016
AFECTOS E DESAFECTOS
Uma
vida passada no estrangeiro: como emigrantes. Muito trabalho, poucas férias.
Dois filhos. Lá os foram educando conforme o tempo e as possibilidades o
permitiam. Chegado o tempo da reforma, o casal volta para a sua terra. Os
filhos ficaram no país que os viu nascer e crescer.
Vêm
a pensar gozar a reforma o melhor possível. Tinham o direito a isso. No
entanto, sempre com uma vida regrada.
Mas...
uma doença grave coloca a mulher de cama, donde nunca mais sairá. Um tumor a
invade por completo de um momento para o outro. Os filhos são avisados: vêm cá
passar uma semana.
A
médica diz que a senhora está a necessitar de muito afecto e espera que os
filhos lhe tragam o afecto necessário.
Primeira
tarde de visita: chegam, dizem "boa tarde" e encostam-se à parede do
quarto. Olham constantemente para o relógio. Passado 1/4 de hora dizem que têm
de ir embora. "Mas ainda agora chegaram e já se vão embora!?!?", diz
o pai. Eles replicaram: "Já te tínhamos dito que iríamos estar pouco
tempo: temos de ir ver o jogo de Portugal!"
A
noite é toda passada no jardim da casa a beber cerveja... a comemorar. Os
vizinhos nem querem acreditar!
Durante
os dias de estadia, o pai nunca é convidado para tomar seja que refeição for
com eles. Retiraram todo o ouro que a mãe possuía. E lembram o pai de que era
preciso dividir o dinheiro.
E
lá partiu esta mãe, carente do afecto dos filhos.
E
lá partiram eles com os bolsos cheios. Até sempre!
segunda-feira, 19 de setembro de 2016
A MELHOR MANEIRA DE AGRADECER
Pediu
licença para entrar.
Notei-lhe o rosto alegre, mas com alguns sulcos de
tristeza.
Convidei-a a sentar-se. As palavras saíam-lhe como que num turbilhão:
"Não
sei por onde começar. Faz hoje um ano que saí deste hospital. Não sei se ainda
se recorda de mim. Vim junto de si algumas vezes para procurar ajuda. Fui para
casa e passados três dias morreu o meu genro. Ainda não tinham passado 4 meses
e morre a mãe dele com um cancro no pâncreas. Há dois meses apenas,
descobriu-se que eu tinha um tumor também no pâncreas. Tive de fazer exames
rigorosos. Vim hoje saber o resultado. Nem imagina a minha apreensão. E a da
minha família. A minha filha está a sofrer muito por imaginar o pior.
Felizmente os resultados dizem que não é maligno. Estou feliz. Já fui à capela
agradecer a Deus. Mas sinto que as palavras que Lhe disse não bastam. Que
hei-de fazer mais para agradecer a Deus?"
"Já
telefonou à sua filha a dizer que não é nada maligno?"
"Não.
Ainda não. Não tenho telefone".
Passei-lhe
o meu telefone para as mãos.
"Ligue
daqui. E já! Diga-lhe que está tudo bem".
Ligou.
Falaram. Choraram as duas. De alegria.
"Obrigada.
Estou mesmo feliz. Graças a Deus!"
"Vê?
Essa foi a melhor maneira de agradecer a Deus: fazer alguém feliz (a sua filha)
com a boa notícia que tinha para lhe transmitir. É assim que Deus nos quer ver:
felizes. Essa é a melhor maneira que temos para Lhe agradecer".
Partiu.
Feliz. E Deus também ficou.
sexta-feira, 16 de setembro de 2016
ÀS VEZES HÁ DIAS ASSIM...
Uma
senhora que vem ter comigo, destroçada: sempre foi tida como 'não prestando para nada' quer
na família, quer no trabalho; sente-se espezinhada e injustiçada; não teve nem
tem ninguém que lhe diga 'aqui estou', ninguém que lhe diga 'gosto de ti'; o
seu momento de maior sofrimento foi quando lhe morreu a 'minha cadelinha':
"era a única que me dava afecto e que me compreendia".
Outra
que se sente muito feliz por tudo o que a vida lhe tem proporcionado, mas que
agora só pensa na morte: tem um tumor ósseo que, diz ela, lhe "irá tirar a
vida dentro de pouco tempo"; "ainda bem que não tenho filhos: o meu
sofrimento seria maior; mas custa-me deixar o marido, os pais e a irmã".
Um
casal com uma filha de 22 anos, internada na Medicina Intensiva: um acidente
quase lhe tirava a vida; está inconsciente; ainda não a puderam ver; estão
ansiosos pelo momento do encontro: "não sabemos como a iremos encontrar;
ainda não caímos na realidade e temos muitas dúvidas; não quero perder a fé - dizia
a mãe - mas tudo isto está a ser muito difícil!"
No
Hospital de Dia, alguém se queixa de sempre ter feito os exames de rotina e
"nunca ter aparecido nada"; por alguma incúria - diz - só passado
algum tempo lhe foi diagnosticado um tumor no colo do útero; "não acredito
no que se está a passar comigo; sei que, mais tarde ou mais cedo, vou morrer;
estou a procurar habituar-me à ideia".
É melhor acabar por aqui. Aguenta coração!
domingo, 11 de setembro de 2016
UMA PESCADORA... SIM!
Uma
nova visita ao Hospital de Dia.
Quimioterapia.
A sala ainda não estava completamente
cheia. A hora também ainda não o permitia: era cedo. Começo por conversar com
um doente que se sentia bastante agoniado. Falámos um pouco do seu estado
geral. Um ponto me chamou a atenção: tem uma família extraordinária que o apoia
incondicionalmente neste caminho longo e duro.
Vou
ter com uma senhora. Tem uma filha junto a si, a acompanhar o tratamento.
Começamos a entabular conversa pelo local da sua residência. Descubro que é
vizinha da terra dos meus pais. Isso foi motivo para que houvesse mais empatia
entre nós. Falámos de tudo: das nossas terras, das tradições que tínhamos
vivido, das romarias a S. Filipe Neutel, das Festas (mais concretamente da
festa do Senhor dos Aflitos), das fogaças... tudo foi objecto da nossa
recordação e do nosso interesse. Ma eu procurava saber, sobretudo, do seu
estado de espírito. Descobri algo que me encantou:
"Sou
pescadora. Sou capaz de andar 500 e tal quilómetros só para pescar num rio ou numa albufeira. É
um passatempo que me fascina. A natureza, a ansiedade de ver o peixe a 'picar',
os almoços, as companhias... É o que me tem valido! Olhe, até parece que sinto
Deus neste passatempo: o contacto com a natureza e a amizade ajudam a me
aproximar mais de Deus e a enfrentar a minha doença..."
E,
então, recordámos o peixe do rio que algumas mulheres da nossa zona ainda
continuam a teimar fritar nas festas de Verão; o melhor tempero deste peixe
frito é o pó que anda no ar naquelas tardes de Verão.
Nunca
tinha encontrado uma mulher pescadora.
Mas
que garra tem esta mulher! É o que lhe vale na situação em que se encontra!
sexta-feira, 9 de setembro de 2016
TER MÃE
Hospital
de Dia.
Porque é 6ª feira, a sala está ocupada só a 50%.
Pessoas de todas as
idades e sexos.
Uns acompanhados por um familiar. Outros (muito poucos)
sozinhos.
Uns mais tristes, outros nem tanto. Uns com vómitos, outros já
'experimentados' nestas lides.
Alguém que vem fazer tratamento pela primeira
vez: olhar e rosto interrogativos; e estava sozinho; sentia-se desamparado; 55
anos, mas com ar de quem aparenta uns 70.
Um
jovem de 20 anos com linfoma. A mãe acompanha-o. Ele dorme. Não o quis acordar
e conversei com a mãe. As mães são sempre um poço de afecto, de preocupação
pelos filhos. Preferiam sofrer elas e não ver sofrer os filhos. "É ele que
me vai dando força. Para não me ver a sofrer diz-me para não estar triste
porque, senão, as minhas rugas vão ficar mais acentuadas. Procuro não lhe
mostrar o meu sofrimento; mas, às vezes, tudo é superior a mim. Vou ver se não
perco a esperança!"
Deixo-a.
Passados uns minutos, olho para trás e vejo a mãe a olhar fixamente para o
filho. Parecia que estava a conversar com ele. Mas ele continuava a dormir.
E
olho novamente para o homem de 55 anos. Doeu-me o semblante deste homem. De
quem não compreendia o que se estava a passar. E continuava sozinho. Já não
tinha mãe para falar com ele, mesmo no silêncio.
quarta-feira, 7 de setembro de 2016
24 SEMANAS DE GRAVIDEZ
Vinha
banhada em lágrimas.
Pediu licença para entrar, apesar da porta estar aberta.
Saudei-a com dois beijos e convidei-a a sentar-se.
Não conseguia falar:
soluçava. Eu já conheço a sua situação. Esperei até ela ser capaz de falar. O
silêncio permitiu que ela acalmasse.
Foi capaz de começar a dizer tudo o que se
tinha passado.
"Estou
aqui sem dormir. O meu marido, esta noite, chegou a casa cheio de vinho. É
sempre assim: sempre que bebe demais, eu é que pago. Maltratou-me. Tive de
fugir. Chamei uma ambulância, porque estava bastante machucada. Mas desisti
porque eu não queria apresentar queixa. E não quero. Se o acuso, não terei mais
algum apoio. Estou grávida de 24 semanas. O dinheiro que ganho é muito pouco.
Ainda temos o subsídio de desemprego dele. Mas não sou senhora de dinheiro
algum. E sempre que quero alguns euros para comprar seja o que for, tenho de
pagar com o meu corpo. É nessa altura que ele me compra para ter relações
sexuais. Como é que vou aguentar esta vida? Dentro de pouco nasce o meu filho e
eu não tenho roupa nenhuma para lhe vestir. Quem me ajudará?"
E as lágrimas
continuavam a banhar-lhe todo o rosto. À porta tinha mais gente à espera que eu
as atendesse. Mas o mais importante, naquele momento, era atender esta mulher
dorida e aflita.
segunda-feira, 5 de setembro de 2016
ZÉ, SÊ HUMILDE... ACEITA...!
Espero que a pessoa implicada neste post não o leia. Não quero, de maneira nenhuma, que ele fique zangado comigo,de tão simples, recatado e humilde ele é!
Há 22 anos fiz um Ano Sabático em França. Em 3 paróquias da Diocese de Versailles. Vivia na Casa paroquial duma delas com mais dois colegas: um francês e um brasileiro. Foi um ano excepcional para mim (talvez para eles nem tanto: quase me limitei a aprender e a dar pouco de mim).
Certo dia dei comigo a pensar: 'Vivemos 3 pessoas nesta casa e só há 2 quartos: o meu e o do Geraldo. Onde é que viverá o François?'.
Fui ter com uma das Secretárias da paróquia e perguntei: 'Annie, onde é que dorme o François? Na casa só há 2 quartos! Qual é o quarto dele?' Ela respondeu: 'É o teu!' Retorqui: 'O meu? Mas no meu só durmo eu! Onde é que ele dorme?' A Annie respondeu: 'Vai-lhe perguntar.'
Dirigi-me ao escritório do François e perguntei-lhe: 'François, onde é que tu dormes? A Annie diz que o meu quarto é o teu.' De repente olho para a esquerda e vejo um colchão encostado num vão da parede. Fico estupefacto. Descobri que, de dia ele levantava o colchão e escondia-o; à noite colocava-o no chão para dormir. 'François, não posso aceitar isto. Tu dormes aqui, no escritório? Tens de voltar para o teu quarto!' Ele, com toda a calma e muita ternura, responde: 'Zé, sê humilde e aceita o que os outros te querem dar!'
Fiquei sem palavras. Realmente, eu estava ali para aprender. E quanto eu aprendi com os dois colegas e as Comunidades Cristãs ali residentes! Mas esta, da Humildade, foi demais!
Ainda um dia hei-de contar mais umas coisitas sobre esta minha passagem por terras de França.
Há 22 anos fiz um Ano Sabático em França. Em 3 paróquias da Diocese de Versailles. Vivia na Casa paroquial duma delas com mais dois colegas: um francês e um brasileiro. Foi um ano excepcional para mim (talvez para eles nem tanto: quase me limitei a aprender e a dar pouco de mim).
Certo dia dei comigo a pensar: 'Vivemos 3 pessoas nesta casa e só há 2 quartos: o meu e o do Geraldo. Onde é que viverá o François?'.
Fui ter com uma das Secretárias da paróquia e perguntei: 'Annie, onde é que dorme o François? Na casa só há 2 quartos! Qual é o quarto dele?' Ela respondeu: 'É o teu!' Retorqui: 'O meu? Mas no meu só durmo eu! Onde é que ele dorme?' A Annie respondeu: 'Vai-lhe perguntar.'
Dirigi-me ao escritório do François e perguntei-lhe: 'François, onde é que tu dormes? A Annie diz que o meu quarto é o teu.' De repente olho para a esquerda e vejo um colchão encostado num vão da parede. Fico estupefacto. Descobri que, de dia ele levantava o colchão e escondia-o; à noite colocava-o no chão para dormir. 'François, não posso aceitar isto. Tu dormes aqui, no escritório? Tens de voltar para o teu quarto!' Ele, com toda a calma e muita ternura, responde: 'Zé, sê humilde e aceita o que os outros te querem dar!'
Fiquei sem palavras. Realmente, eu estava ali para aprender. E quanto eu aprendi com os dois colegas e as Comunidades Cristãs ali residentes! Mas esta, da Humildade, foi demais!
Ainda um dia hei-de contar mais umas coisitas sobre esta minha passagem por terras de França.
sábado, 3 de setembro de 2016
UMA JOVEM MULHER QUE EU ADMIRO
Tem
entre os 20 e os 30 anos.
Rosto e corpo de muito jovem.
Viveu, com a família,
no estrangeiro, até há 1 ano. Mas era em Portugal que tinha o amor da sua vida.
O seu amor era alimentado de diversas maneiras e, sobretudo, quando ela vinha
cá passar férias. Planeavam casar em breve.
No entanto... Há 1 ano que esta
Jovem tem como residência o Hospital. De manhã à noite, aqui passa as suas
horas. Não, não é ela que está doente. É o homem dos seus sonhos. Doença grave.
Tive o privilégio de assistir ao entusiasmo com que sonhavam com o seu
casamento. A ânsia com que começaram a tratar dos papéis. E casaram. Com que
alegria e esperança! "Eu sempre tive esperança. E ainda tenho. Mas sei que
a situação é mesmo muito complicada. E mesmo que eu há uns meses soubesse o que
sei hoje, tinha-me casado exactamente na mesma. Amo o Luís. E mais agora em que
ele precisa muito de mim. E eu sei que lhe dei a maior das felicidades por nos
termos casado."
Admiro esta Jovem e Mulher. Mas ontem vi lágrimas (muitas)
nos seus olhos. Eram lágrimas de amor. E o seu rosto parecia que ficava
iluminado quando pronunciava o nome 'Luís'.
Mesmo
com lágrimas.
quinta-feira, 1 de setembro de 2016
UMA NOVA EXPERIÊNCIA: INEM (há já uns anos)
Já lá vão uns anos... mas foi uma experiência espectacular no INEM
O
período de trabalho era das 16:00 às 24:00. Cheguei às 15:40. Só tive tempo de
arrumar algumas coisas. Às 15:45 já estávamos a sair para um serviço. As emoções
foram muitas: as curvas, as rotundas, a ultrapassagem dos veículos, o tempo que
passava... e ainda tínhamos alguns quilómetros à nossa frente até chegar à
ambulância que trazia o doente (um jovem de 17 anos em estado bastante
crítico). O encontro com a ambulância. A entrega total do médico e do
enfermeiro nos primeiros socorros. O carinho com que ele era tratado. A
medicação, o oxigénio. O afecto das duas funcionárias da Instituição, que
acompanhavam o jovem... Decidi não ir na ambulância para dar lugar à
funcionária na qual o jovem confiava. A viagem para o Hospital. A entrada na
urgência. Imediatamente uma nova chamada. Agora era um homem de quase 80 anos.
De novo a adrenalina da viagem. IC2 a todo o vapor. Uma lomba numa rua, lomba
essa sem estar anunciada. E vínhamos a acelerar! Voámos! De novo o encontro com
a ambulância à porta do doente. A esposa e os vizinhos de veras assustados. Não
se esperava a doença súbita. O médico e o enfermeiro entram na ambulância. Eu
fico cá fora junto desta quase multidão que aguardava notícias (num próximo
post conto o que se passou). O doente tem de ser transportado até ao hospital.
De novo "a abrir" IC2 fora. Chegámos bem. O doente ficou internado.
Reposição
de todo o material médico usado nas duas saídas. Tudo pronto. Espera. De alguns
minutos. Poucos. Nova chamada. Saímos a toda a pressa. Um idoso dum Lar.
Corremos para a auto-estrada. Na saída da auto-estrada, a viatura não consegue
ter velocidade. A caixa de velocidades. Temos de informar que não podemos
seguir até ao destino. Uma outra VMER nos substitui. Trocamos de viatura e
regressamos à base. Há tempo para comer alguma coisa. Termina a pequena
refeição. Nova chamada. Temos muitos quilómetros à nossa frente. Já é de noite.
A Estrada da Beira parece que não tem curvas. Vamos ao encontro da ambulância.
Um homem de 56 anos. Problemas cardíacos graves. Verificar a medicação. Vem bem
medicado do Centro de Saúde. Aumenta-se a dose. O ritmo cardíaco normaliza-se.
Venho an ambulância, junto do doente, do médico e duma bombeira. O médico
explica-me pormenorizadamente tudo o que se deve fazer nestas circunstâncias,
durante a viagem até ao hospital. Vamos conversando com o doente. Mantê-lo
atento e activo. Chegamos já perto das 24:00. Uma nova equipa nos espera.
Quero
destacar:
.
a destreza dos enfermeiros-condutores; a sua presença de espírito; o
profissionalismo; a segurança com que conduzem a VMER;
.
a calma e serenidade do médico; o seu espírito de serviço e a paixão com que
exerce a sua missão;
.
a camaradagem com que me envolveram;
.
a colaboração da quase totalidade dos condutores que fomos encontrando ao longo
dos 4 percursos;
.
a falta de civismo de alguns condutores que não se arredavam e até se colocavam
à nossa frente;
.
o papel maravilhoso dos bombeiros que serviam nas 3 ambulâncias;
Pode
parecer estranho, mas, nas 4 viagens que fizémos, senti uma enorme segurança.
Muita
coisa fica por dizer.
sábado, 27 de agosto de 2016
FALTA DE APETITE?
Soube
que tem um casal de filhos; mas, como não andam de bem um com o outro, não a
visitam muitas vezes: não se querem encontrar!
E,
enquanto isto, ela (de 80 e tais anos) vai definhando. As duas colegas de
quarto sabem da sua carência de afecto e procuram dar-lho o mais que podem. Mas
nem tudo podem fazer. As forças físicas delas são poucas ou nenhumas.
Ontem,
à hora do almoço, entrei no seu quarto; as duas colegas já tinham almoçado, mas
ela ainda continuava com quase tudo à frente.
"Então,
não há apetite?"
"Não,
não sou capaz de comer!"
Do
lado sai um piropo: " O que ela deve querer é que lhe dêem o comer na
boca!" Sorrimos todos.
"Ora
vamos lá ver se alguma coisa começa a desaparecer de cima da mesa! Primeiro a
sopa. Parece estar tão saborosa..." pego na colher e, na brincadeira,
começo a dar-lha na boca. E não é que ela come?! Foram só 5 colheres, mas já
foi bom.
Vejo
uma taça cheia de fruta triturada. E também começo a dar-lha às colheradas, na
boca. E foi toda.
Havia
mais uma taça de pudim.
"Não,
já não quero mais nada!"
"Olhe,
só 3 colheres. Pode ser?"
"Mas
só 3!"
"Tá
bem. Vá lá: uma... ( e lá foi ela)... uma e meia... uma e três quartos...
duas... duas e meia... duas e três quartos... três!" E foram sete colheres
de pudim!
"Já
não posso mais. Mas agora estou consolada!"
O
que falta a esta doente não é o apetite: O que lhe falta é alguém que lhe dê
atenção!
E
os dois filhos continuam zangados, não aparecem porque têm receio de se
encontrar um com o outro.
Que
pena. Assim, a sopa, a fruta e o pudim continuam em cima da mesa sem que esta
velhinha lhes consiga tocar.
quinta-feira, 25 de agosto de 2016
FELIZ COM UM "MIÚDO" JÁ MÉDICO
Conheço-o
desde pequenito. Tem mais um irmão.
Depois de alguns anos sem o ter visto (quer
pelo meu trabalho em outras terras, quer pelos seus estudos), vim encontrá-lo
no Hospital. É médico. Algumas vezes temos conversado.
Ontem,
fui encontrá-lo no átrio dos elevadores dum determinado piso. Estávamos a
conversar, quando duas das suas doentes, internadas, o vêem e o chamam. Pedidos
e mais pedidos, queixas e mais queixas... "Não me sinto bem... desejava
comer outras comidas: só pastosa, só pastosa... não me dou com os medicamentos
que me está a dar: quero os que sempre tomei; com esses é que me dou bem...
".
Foi
maravilhoso ver a paciência e o carinho com que ele as atendeu. A maneira como
as respeitava, como as escutava. Fiquei feliz por ver a maneira como o
"miudito" que conheci há uns bons pares de anos estava a cumprir tão bem
a sua missão de médico. Confesso que me senti como que um "pai" ao
ver o filho a singrar na vida. E bem. Por fim, dei-lhe os parabéns com um
abraço cheio de carinho.
quinta-feira, 4 de agosto de 2016
A TERESA (HISTÓRIA DE UMA "MULHER DA RUA")
O texto seguinte já tem uns anos. Com facilidade se descobre isso.
Muitas
das minhas noites eram passadas "na rua".
Sentir o pulsar da cidade era um desafio.
Creio que os "amantes da noite" são diferentes (?) dos "amantes do dia". Há tantas solidões que são "curtidas" na noite!... É na noite que se conhece muito do ser humano.
Nunca ia sozinho.
Já passava da 1 hora. Chovia bem.
Conversávamos. Curiosos de quem iríamos encontrar.
A certa altura, junto a uma praça de táxis, vemos alguém estendido no chão.
Abeirámo-nos. A pessoa chorava, quase inerte. Fazia frio.
Era a Teresa. Toda molhada.
"Estás bem? O que é que aconteceu?"
"Bateram-me e deixaram-me aqui caída"
Vimos se os ossos estavam todos no sítio.
Levantámo-la.
"Já comeste alguma coisa?"
"Ainda não"
"Vamos levar-te a casa".
A custo, lá conseguimos levá-la.
A casa não ficava muito longe.
Entrámos. Havia alguém em casa. Era o "chulo". Bem descansado, via televisão. Ficou admirado de nos ver entrar. Pouco se preocupou se a Teresa vinha bem ou mal.
Vimos se havia algo para comer. Apenas alguns bolitos secos. Bolos e água foi o seu "jantar". Deitámo-la.
Amanhã, seria um dia igual a tantos outros: voltava a vender o corpo e a entregar o pouco que ganhava ao "chulo".
Por muito tempo deixámos de a ver.
Preocupados, tentámos encontrá-la.
Vivia noutra casa.
Nem era preciso abrir a porta. Entrámos. Subimos uma escada toda partida. A sua habitação "nova" era composta por um quarto e uma cozinha.
Agora, vivia só.
Sentámo-nos na cozinha. Era hora de jantar. Tinha, num alguidar, umas couves cortadas grosseiramente. Ia cozê-las sem mais nada.
Disse-nos que pagava 3 contos pelo aluguer da casa. Era pouco. Mas era muito para as suas posses e para o estado em que a casa se encontrava.
A certa altura alguém bate à porta. Ele vai ver quem era. Ouvimos discussão. Alguém lhe exigia 3 contos.
"Mas eu não os tenho. Não tenho saído para a rua, não tenho tido clientes... Estou doente"
Não aguentei e fui à porta entrar na discussão.
Os três contos que a dona da casa lhe exigia eram referentes ao dia anterior.
Afinal, a Teresa pagava 3 contos por dia por aquela casa. No fim do mês eram 90 contos! Que injustiça!
Berrei e a dona da casa foi-se embora.
Por aquele dia, o problema estava resolvido. E o que é que se iria passar nos dias seguintes?
A Teresa estava doente.
Todos se aproveitavam da sua "simplicidade" para a chular.
Que fazer?
Hoje, a Teresa vive numa casita nova que vontades amigas construíram; na sua terra de origem. Tem uma pequena reforma. Vive feliz. Já ninguém a chula.
Sentir o pulsar da cidade era um desafio.
Creio que os "amantes da noite" são diferentes (?) dos "amantes do dia". Há tantas solidões que são "curtidas" na noite!... É na noite que se conhece muito do ser humano.
Nunca ia sozinho.
Já passava da 1 hora. Chovia bem.
Conversávamos. Curiosos de quem iríamos encontrar.
A certa altura, junto a uma praça de táxis, vemos alguém estendido no chão.
Abeirámo-nos. A pessoa chorava, quase inerte. Fazia frio.
Era a Teresa. Toda molhada.
"Estás bem? O que é que aconteceu?"
"Bateram-me e deixaram-me aqui caída"
Vimos se os ossos estavam todos no sítio.
Levantámo-la.
"Já comeste alguma coisa?"
"Ainda não"
"Vamos levar-te a casa".
A custo, lá conseguimos levá-la.
A casa não ficava muito longe.
Entrámos. Havia alguém em casa. Era o "chulo". Bem descansado, via televisão. Ficou admirado de nos ver entrar. Pouco se preocupou se a Teresa vinha bem ou mal.
Vimos se havia algo para comer. Apenas alguns bolitos secos. Bolos e água foi o seu "jantar". Deitámo-la.
Amanhã, seria um dia igual a tantos outros: voltava a vender o corpo e a entregar o pouco que ganhava ao "chulo".
Por muito tempo deixámos de a ver.
Preocupados, tentámos encontrá-la.
Vivia noutra casa.
Nem era preciso abrir a porta. Entrámos. Subimos uma escada toda partida. A sua habitação "nova" era composta por um quarto e uma cozinha.
Agora, vivia só.
Sentámo-nos na cozinha. Era hora de jantar. Tinha, num alguidar, umas couves cortadas grosseiramente. Ia cozê-las sem mais nada.
Disse-nos que pagava 3 contos pelo aluguer da casa. Era pouco. Mas era muito para as suas posses e para o estado em que a casa se encontrava.
A certa altura alguém bate à porta. Ele vai ver quem era. Ouvimos discussão. Alguém lhe exigia 3 contos.
"Mas eu não os tenho. Não tenho saído para a rua, não tenho tido clientes... Estou doente"
Não aguentei e fui à porta entrar na discussão.
Os três contos que a dona da casa lhe exigia eram referentes ao dia anterior.
Afinal, a Teresa pagava 3 contos por dia por aquela casa. No fim do mês eram 90 contos! Que injustiça!
Berrei e a dona da casa foi-se embora.
Por aquele dia, o problema estava resolvido. E o que é que se iria passar nos dias seguintes?
A Teresa estava doente.
Todos se aproveitavam da sua "simplicidade" para a chular.
Que fazer?
Hoje, a Teresa vive numa casita nova que vontades amigas construíram; na sua terra de origem. Tem uma pequena reforma. Vive feliz. Já ninguém a chula.
domingo, 31 de julho de 2016
IRÃO À VOSSA FRENTE
Os
meus amigos sabiam que eu, com alguma frequência, ia passar alguns momentos do meu
dia (ou noite) a locais onde havia prostituição feminina.
Tentava
"estar com", ouvir os lamentos, as histórias de vida com muito para
contar.
Pois
esses meus amigos começaram a pedir-me para eu levar os seus filhos e filhas.
Tive
alguma relutância.
Não
por medo dos jovens, mas por pudor e respeito para com as prostitutas. É que
custa expôr a vida a pessoas que não "estão" dentro da vida.
Mas
acedi.
Um
dia, fui com um pequeno grupo de jovens.
Dirigimo-nos
ao local onde se encontravam as prostitutas.
Uma
delas chamou-me; já nos conhecíamos.
Tinha
65 anos. Vivia numa casa com duas divisões: sala-cozinha e quarto.
Eram
quatro pessoas que lá habitavam: ela, um filho com cancro, a filha e o genro
(estes dois desempregados).
A
Deolinda era, naquela casa, a única que podia ganhar alguma coisa para o
sustento de todos. Com a idade que tinha, não conseguia arranjar emprego. Só
lhe restava uma coisa: a prostituição.
Conversamos.
A
malta nova entra na conversa. Mesmo muito interessados. Por tudo: pelo
ambiente, pela história de vida; fazem perguntas... eu "assisto".
A
certa altura, a Deolinda vira-se para mim e diz: "Sabe? Esta minha vida é
uma merda! Mas não tenho outra maneira de ganhar pão para casa e para a
família. Os que me procuram (e não são muitos, porque a minha idade já é muita)
vêem em mim menos que um objecto. Muitas vezes sinto-me um farrapo. Mas... Sabe
uma coisa? No meio disto tudo, só tenho uma certeza: Sei que Deus gosta de mim!
Assim como sou!"
Ouvimos.
Calámo-nos. Engolimos em seco.
O
carinho manifestado pelos jovens passou a ser mais intenso. A conversa
tornou-se mais viva.
Na
viagem de regresso a casa, eles vinham em silêncio.
O
encontro com a Deolinda tinha sido de tal maneira marcante, que não lhes
apetecia falar.
Ainda
hoje eles (já adultos) me falam dessa experiência que tiveram.
quinta-feira, 28 de julho de 2016
A SOLIDÃO ATÉ NA MORTE
O que experienciei há uns dias, fez-me lembrar o que vivi há uns tempos atrás e que passo a transcrever:
Fui visitá-lo. Conversámos durante algum tempo. Estava mesmo muito mal.
Quando saí de junto dele, notei alguma preocupação por parte das pessoas que estavam ali, junto à casa.
"Como vai ser se ele morrer? Como vamos fazer? Ele não tem ninguém!..."
Havia dúvidas a mais nas pessoas.
Passados dois ou três dias, o Ti João morreu.
Durante a Celebração, na Capela, não notei nada de especial. E até estava muita gente!
Terminada a Celebração era necessário pegar na urna para iniciarmos o cortejo para o cemitério. Ninguém se mexe. Ninguém mesmo; nem os membros da Irmandade, que, normalmente, exerciam essa tarefa. Olho para toda a gente; ninguém está interessado em olhar para mim. Era suposto (?!) que, se os irmãos da Irmandade não pegassem na urna, ao menos se apresentassem homens para isso. Ninguém se mexe.
"Se houver aí três senhoras que se disponibilizem, ajudem-me a pegar na urna". Vieram três senhoras ajudar-me.
Quando chegamos à rua, ouço uma voz a proclamar bem alto:
"Se ninguém o quiser levar, eu vou a minha casa buscar uma rodilha e levo-o à cabeça!"
Colocámos a urna na carrinha da Agência.
Chegados ao cemitério, a mesma cena: eu e três senhoras é que transportámos a urna."
"Pediram-me para ir visitar o Ti João; estava muito mal. De idade
avançada; solteiro; sempre tinha vivido sozinho; sem ninguém de família por
perto.
É verdade que a sua maneira de ser era bastante especial; por isso, não era
muito bem-quisto pelas pessoas. Também não era lá muito abastado de riquezas.Fui visitá-lo. Conversámos durante algum tempo. Estava mesmo muito mal.
Quando saí de junto dele, notei alguma preocupação por parte das pessoas que estavam ali, junto à casa.
"Como vai ser se ele morrer? Como vamos fazer? Ele não tem ninguém!..."
Havia dúvidas a mais nas pessoas.
Passados dois ou três dias, o Ti João morreu.
Durante a Celebração, na Capela, não notei nada de especial. E até estava muita gente!
Terminada a Celebração era necessário pegar na urna para iniciarmos o cortejo para o cemitério. Ninguém se mexe. Ninguém mesmo; nem os membros da Irmandade, que, normalmente, exerciam essa tarefa. Olho para toda a gente; ninguém está interessado em olhar para mim. Era suposto (?!) que, se os irmãos da Irmandade não pegassem na urna, ao menos se apresentassem homens para isso. Ninguém se mexe.
"Se houver aí três senhoras que se disponibilizem, ajudem-me a pegar na urna". Vieram três senhoras ajudar-me.
Quando chegamos à rua, ouço uma voz a proclamar bem alto:
"Se ninguém o quiser levar, eu vou a minha casa buscar uma rodilha e levo-o à cabeça!"
Colocámos a urna na carrinha da Agência.
Chegados ao cemitério, a mesma cena: eu e três senhoras é que transportámos a urna."
Então, há uns dias tive de presidir a um funeral de uma pessoa institucionalizada há mais de 30 anos. Éramos 5 pessoas: eu, duas Profissionais da casa e dois funcionários da agência funerária.
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