quarta-feira, 2 de novembro de 2016

UM OLHAR QUE FEZ DOER

Vinha a tremer. Trazia uma pequena bolsa com 2 comprimidos. Deu-mos para a mão. Li o nome químico deles. Era um retroviral.
Há muito que não via ninguém assim. Naquele estado. Psíquica e espiritualmente destruído.
Tem medo. Medo de iniciar o tratamento. Medo do que pode vir depois. 
Medo de tudo.
Contou-me a história de há uns anos.
Fiquei com o coração angustiado e a doer. Faltaram-me as palavras. Eu não lhe conseguia tirar o sofrimento.
E eu continuava com os comprimidos na mão. Estávamos os dois sentados frente a frente. No fim de algum tempo a fitar aqueles olhos suplicantes, fez-me um pedido:
"Abençoe-me esses comprimidos. São os primeiros que vou tomar neste início do tratamento."
Que eles e sobretudo ele sejam abençoados.
Demos um abraço. Prometeu voltar.

Mas eu ainda não me sinto bem. Aquele olhar ainda está a provocar-me. A fazer doer cá por dentro.

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