Tem
36 anos, mas uma vida já muito vivida. Teve uma infância e juventude como
qualquer outro rapaz da sua idade. Iniciou a sua profissão. Tinha um futuro
risonho à sua frente: risonho, porque "normal". Passado algum tempo
de estar ao serviço, declarou-se-lhe uma doença que o iria incapacitar: os
níveis de chumbo no organismo eram demasiado altos. De tratamento em
tratamento, o seu estado ia-se degradando. Teve de fazer um transplante. Mas os
resultados não foram os que a esperança esperava!
O
seu caminhar é titubeante; e com dificuldade percebemos o que ele diz.
Muitas
vezes temos conversado. Até porque o conheço há bastantes anos.
Dói-me
ver uma vida sem horizonte. Tem a sua pequena reforma antecipada, mas sente-se
confinado ao seu pequeno espaço familiar; pode sair de casa só uma noite por
semana; nas tardes, lá vai arranjando uma boleiazita para ir até ao café para
ler o jornal e conviver com algum amigo que por lá apareça. Tem um
"espaço" demasiado apertado.
Ontem,
durante 45 minutos, conseguimos entender-nos. Convidei-o a encher os pulmões
antes de dizer cada palavra; sei que lhe foi difícil, mas foi a única maneira
de eu o entender. Um convite ao exercício físico (andando a pé), ao exercício
mental (lendo bastante)... uma oferta de disponibilidade para nos podermos
escutar um ao outro.
"Há
dias foram a minha casa umas assistentes sociais e disseram-me para eu escrever
um livro. Já o comecei a escrever; tem o título 'Coração traído' ".
Imaginei-me
"na pele" deste rapaz. Senti-me incomodado, senti-me mal: angustiado,
como que sem ar para respirar.
Mas
o que é verdade é que esta nossa última conversa me fez sentir mais próximo
dele.
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