sexta-feira, 4 de novembro de 2016

CORAÇÃO TRAÍDO

Tem 36 anos, mas uma vida já muito vivida. Teve uma infância e juventude como qualquer outro rapaz da sua idade. Iniciou a sua profissão. Tinha um futuro risonho à sua frente: risonho, porque "normal". Passado algum tempo de estar ao serviço, declarou-se-lhe uma doença que o iria incapacitar: os níveis de chumbo no organismo eram demasiado altos. De tratamento em tratamento, o seu estado ia-se degradando. Teve de fazer um transplante. Mas os resultados não foram os que a esperança esperava!
O seu caminhar é titubeante; e com dificuldade percebemos o que ele diz.
Muitas vezes temos conversado. Até porque o conheço há bastantes anos.
Dói-me ver uma vida sem horizonte. Tem a sua pequena reforma antecipada, mas sente-se confinado ao seu pequeno espaço familiar; pode sair de casa só uma noite por semana; nas tardes, lá vai arranjando uma boleiazita para ir até ao café para ler o jornal e conviver com algum amigo que por lá apareça. Tem um "espaço" demasiado apertado.
Ontem, durante 45 minutos, conseguimos entender-nos. Convidei-o a encher os pulmões antes de dizer cada palavra; sei que lhe foi difícil, mas foi a única maneira de eu o entender. Um convite ao exercício físico (andando a pé), ao exercício mental (lendo bastante)... uma oferta de disponibilidade para nos podermos escutar um ao outro.
"Há dias foram a minha casa umas assistentes sociais e disseram-me para eu escrever um livro. Já o comecei a escrever; tem o título 'Coração traído' ".
Imaginei-me "na pele" deste rapaz. Senti-me incomodado, senti-me mal: angustiado, como que sem ar para respirar.

Mas o que é verdade é que esta nossa última conversa me fez sentir mais próximo dele.

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