quarta-feira, 23 de novembro de 2016

A (EX)SENHORA DA BENGALA

A idade, há muito que não lhe permite grandes correrias. Há bastante tempo que anda com uma bengala que a ajuda a caminhar. Ultimamente tem piorado bastante; sobretudo depois da morte do marido. A saudade que tinha, era bastante. Uma saudade que lhe tolhia os movimentos e, de maneira especial, a alma. O semblante sempre carregado. Mas não desistia de procurar algo. Às vezes queixava-se de ainda não ter encontrado a 'paz'. Mas lá ia caminhando. E a bengala sempre a acompanhava.
No domingo passado vejo-a vir ao longe. Vinha para a Missa. Dirijo-me a ela para a acompanhar no resto do caminho. Falamos de algumas trivialidades. Noto que vinha sem bengala. Mas não lhe digo nada. Eis senão quando ela me diz: "Ainda não reparou que venho sem bengala?" Faço-me estupefacto: "Olha, pois vem! Mas o que é que se passou?" Responde-me: "Iniciei um tratamento novo; ainda só fiz uma sessão, mas já está a dar resultado". Ela caminhava razoavelmente bem.
A Missa decorre. No momento da Comunhão, na fila, uma senhora caminha com dificuldade. E quem eu vejo a acompanhá-la? A "ex-senhora da bengala". Ajudava-a com todo o entusiasmo e carinho. Foi levá-la ao lugar.
No fim de Missa, publicamente fiz menção deste caso (mas sem nomear fosse quem fosse; só os conhecidos ficaram a saber de quem se tratava; até porque também estavam todos contentes).

Quando a "ex-senhora da bengala" ia a sair a capela, disse-me: "Quando eu melhorar mais um bocado, até se vai admirar daquilo que eu serei capaz de fazer!".

Sem comentários:

Enviar um comentário