quinta-feira, 30 de junho de 2016

"ACEITO O DESAFIO!"

Estava a sair do gabinete.
Um homem de avançada idade abeira-se de mim.
"Por favor, vá junto do meu filho. Ele tem uma doença grave. Pediu a sua presença".
Não fazia a mínima ideia de quem era.
Entro no quarto. Apresento-me.
"Padre, chameio-o para que me ajude a morrer".
Olhei para ele. Olhos nos olhos.
"Peço-lhe desculpa. Mas, para o ajudar a morrer, talvez seja melhor chamar um médico".
Sei que provoquei. Foi premeditado.
"Se quiser, posso ajudá-lo a viver. Nem que sejam só 5 minutos".
Surpreendido, agora é ele que me olha olhos nos olhos.
Fazemos silêncio. Prolongado. Não deixa de me olhar.
De repente, sinto que vai buscar forças lá no mais íntimo dele mesmo.
"Aceito o desafio", disse ele.
Respirei fundo.
"Temos homem", disse eu para dentro de mim.
E este homem, duns 60 e poucos anos, lutou; durante quase 3 anos. Foi buscar forças onde parecia que elas não existiam.
O Dr. João, era esse o seu nome, passados uns dias da nossa conversa inicial, apresentou-me um poema. Do qual ele tinha gostado muito e que revelava o seu estado de espírito naquele momento. O desejo de avançar, de viver, mesmo tendo de continuar a "reparar" alguns rombos e empenos. Ele deu-me o poema, que aqui deixo, com a indicação do autor.


FRÁGIL LENHO

Esta encadernação,
este corpo que trago comigo,
sempre forte, sempre são,
companheiro amigo,
começou a ceder.

Frágil como seus pares,
este lenho de mil mares
encrespados e serenos,
apresenta pequenos rombos,
alguns empenos,
restos de encalhes e tombos.

Tentarei a reparação,
farei trabalhos de restauração,
para que continue a navegar,
a trabalhar,
até ao dia em que possa,
deixá-lo, enfim...
naufragar.

João Mendes Ferreira, in "Caleidoscópio" (Ed. MinervaCoimbra) 

terça-feira, 28 de junho de 2016

RESPEITO PELO CAMINHAR DO PAULO

Há uns 8 meses que não o via. Conheci-o quando teve um internamento relativamente prolongado.
As desadaptações à sociedade, à família, à escola e ao afecto, trouxeram-no até aqui.
Conversámos bastantes vezes. Ele procurava um sentido para a vida; procurava que o deixassem ser feliz tal como é; queria encontrar-se consigo mesmo, queria aprender a gostar de si, da sua maneira de ser e de agir. Mas queria que os outros também aprendessem a gostar dele.
Agora faltam-lhe duas cadeiras para terminar o curso.
E diz-me: "Nesta cidade não foi só um curso que tirei: tirei muitos cursos! Guardo dela boas recordações. Mas não consigo cá viver mais. O ambiente é muito mesquinho".
Há todo um mundo que se lhe apresenta pela frente. O da procura de emprego, o de viver numa cidade grande "onde ninguém se conhece" (como ele dizia), o de procurar um grupo onde se sinta acolhido e aceite como é ("sei que há um grupo numa igreja em Lisboa..."), o de encontrar ou de se deixar encontrar por alguém que o ame e a quem ele ame...
Mas valeu a pena saber que já há 8 meses "se sente bem", sem caídas de descompensação afectiva e psíquica. Apesar de ser importante ele saber (como me dizia) que "a vida é composta de altos e baixos".

Deixa que eu fique aqui... imaginando o caminho que segues e dizendo bem no meu íntimo: "Deus te guie e te acompanhe, Paulo!"
E, como disse ontem o Papa Francisco, "não basta a Igreja pedir desculpas a estas pessoas: é preciso pedir-lhes perdão!"

domingo, 26 de junho de 2016

AS PEQUENAS GRANDES COISAS DA VIDA

   Uma jovem de 20 anos. Com uma intervenção cirúrgica de há alguns dias. Hora de almoço. O refeitório onde se encontram as doentes que podem anda de pé. Pratos cheios de comida; vi-as comer com gosto e apetite. Olho para a Andreia e vejo uma pequena malga cheia de água de arroz. O meu olhar é interrogativo. Ela responde: "Nem imagina o quanto me está a saber bem esta aguita de arroz: há nove dias que não como nada. É a minha primeira refeição. Como é boa esta água de lavar o arroz!"

   Rapaz de 26 anos. Com um passado complicado em muitos aspectos. Há meses teve um AVC hemorrágico. Deixou de andar e de falar. Quatro meses internado. Como melhorou, teve alta. Mas, passados alguns dias ingressou no hospital. A terra dele fica a centenas de quilómetros (tem de se atravessar o mar). O seu passado não o deixa ter autonomia. Há um mês que está internado. Já anda e já se começa a perceber alguma coisa do que diz. Muitas vezes me pediu um cigarrito e uma moeda. Simples, humilde e pobre, muito pobre. Hoje chegou o dia de voltar a casa... Os bombeiros vieram buscá-lo para o levar ao aeroporto. Alguns dos seus colegas de internamento ( e de 'experiência de vida' !) vieram despedir-se dele. E, cada um por si, com ele partilharam uns cigarritos para a viagem.

   71 anos. Graves problemas pulmonares. Chamou-me através duma enfermeira. Conheço-o há alguns anos. Já o tinha visitado no dia do internamento.Mal se percebe o que diz. "Quero os seus trabalhos. Sinto que vou morrer. E quero mesmo morrer: o sofrimento é muito. Mas peço-vos que liguem para a minha mulher. Digam-lhe que a amei muito!" 

sexta-feira, 24 de junho de 2016

NÃO SOU CAPAZ DE REZAR PELO MEU FILHO: REZO COM ELE.

Em discurso directo:

"Esta manhã estive a meditar na parábola dos talentos. Entre muitos que Deus me deu, deu-me dois talentos maravilhosos: os meus dois filhos. O meu marido faleceu quando o mais velho tinha 18 meses; a mais nova ainda andava dentro de mim. Tentei pôr a render estes dois talentos. E eles também se puseram a render. Hoje, encontro-me com este filho mais velho com uma doença que, habitualmente, não perdoa. Alguém me dizia para irmos a Fátima, a pé, a fim de pedirmos a cura do meu filho. A minha resposta foi a de que não regateio com Deus a vida do meu filho; essa vida não me pertence e não pertence ao meu filho: pertence a Deus. Não sou capaz de rezar pelo meu filho: rezo com ele. E, quando Deus vier para me pedir contas deste talento, espero entregar-lho com todo o amor".

O que é que eu hei-de dizer desta e a esta mãe? Ouço... e calo!

quarta-feira, 22 de junho de 2016

A QUE "DEUS" HEI-DE REZAR?

Conversamos muitas vezes. Conversas normais, como, por exemplo, o "ambiente" do Hospital. 
É médico, homem atento, carinhoso, sempre disposto a ajudar. 
Tinha eu estacionado o meu carro no parque e dirigia-me para o Hospital. Entretanto tive de voltar ao carro porque me tinha esquecido de algo. Ele dirigia-se para o parque de estacionamento. 
Quase junto a ele, disse-lhe: ?Fique descansado, que não estou a fugir de si'. 'Mas ainda bem que o encontro', respondeu-me. 
'Então, que se passa?', retorqui eu. 
'Olhe, diga-me a que "Deus" hei-de rezar. Sabe que a minha fé é muito pessoal'. 
'Mas o que é que o preocupa? Passa-se alguma coisa de grave?'. 
'À minha filha, com 30 anos, foi-lhe detectada leucemia. Estou assustado, preocupado, a sofrer horrivelmente. E quero rezar por ela. Mas não sei a que "Deus" hei-de rezar. A minha oração constante é só esta: Deus, misericórdia!. A que "Deus" hei-de dirigir a minha oração?' 
Pensei um pouco. Olhei-o nos olhos. Estavam vermelhos e as lágrimas afloravam. 
Só me veio esta resposta: 'Reze simplesmente. De certeza que o "Deus" que não sabe quem é, aceitará a sua oração. E eu também vou estar em união consigo a fazer a mesma oração'. 
Despedimo-nos com um abraço.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

A MÃO DO ANSELMO

Tem 30 anos. A esposa pediu para o visitar. Mas avisou-me que a ele lhe era muito difícil falar: o estado da doença já é muito avançado.
Entretanto, foi-me contando a história destes 3 últimos anos da vida do marido.
Há 3 anos, à primeira esposa dele foi-lhe detectado um melanoma. A doença avançou de tal maneira que, passado um ano, faleceu.
Aliviado o choque, ele tentou refazer a sua vida.
"Começámos a namorar. Tinha a esposa falecido há pouco mais de um ano. De um momento para o outro, também nele foi declarado um melanoma. Casámos há 15 dias. Quisemos que o nosso amor fosse selado pelo casamento. Está agora, aqui, internado e em fase terminal. Já quase não percebemos o que ele diz. Passe por lá. Eu já lhe disse que lhe vinha pedir que o visitasse. Hoje de manhã, muito a custo, ele perguntou-me: 'o padre não vem cá?'. Por favor, passe junto a ele quanto mais não seja para ele o ver"
Preparei-me; interior e exteriormente.
Conversei um pouco com a família que estava reunida no quarto.
Passado algum tempo, pedi para todos saírem e me deixarem sozinho com o Anselmo.
Tentei conversar. Mas que palavras podia eu ter? Há momentos em que as palavras estão a mais. Aquele momento era um deles. O Anselmo tinha muita dificuldade em respirar. Cansado e cheio de dores. Tentou dizer-me algumas palavras (poucas), mas isso ainda o cansava muito mais. Olhava para mim como que a dizer 'não sou capaz!'. Com a mão direita dele pede-me a minha mão. As nossas mãos conversaram muito uma com a outra; quase se ouvia o que elas diziam com todo o silêncio que estava no quarto.
Passados alguns minutos, o Anselmo adormeceu com a mão dele bem agarrada à minha.
Aproveitei o seu sono para rezar um pouco. A mão dele dava-me mais força para rezar. Como que a minha oração foi uma "canção de embalar".

Quanta força tinha a mão do Anselmo! E quanto eu aprendi dele!

sábado, 18 de junho de 2016

LÁGRIMAS SUPLICANTES DE ALÍVIO

Há dias complicados (e são muitos) em todos os Serviços desta Casa. 
Quem está de fora não se apercebe da azáfama que vai por aqui.
Hoje foi um "dia para esquecer" num ou noutro Serviço que visitei.
Fui para ir atender alguém que, entretanto, já tinha tido alta.
Mas, como quase sempre, não deixei de ir visitar a Equipa de Enfermagem. Eram 15 h.; enquanto uns estavam a começar a almoçar, outros ainda andavam numa lufa-lufa total.
Conversámos sobre as dificuldades, sobre a falta de Pessoal, sobre o "peso" do trabalho.
Saio; despeço-me com um "até logo e descansem agora um bocadinho!"
No corredor, ouço chorar; um choro que se via ser bem sentido.
Peço licença para entrar no quarto.
Uma jovem que se contorcia com dores.
"Não aguento tanta dor; estou desesperada"
Procuro acalmar tanto quanto sou capaz.
"Ainda não chamou ninguém para lhe vir dar um analgésico?"
"Não. Eles e elas estão fartos de trabalhar. Não têm tido mãos a medir. Ainda nem começaram a comer. Não tenho coragem de os chamar"
Mas os olhos desta jovem imploravam ajuda; de tal maneira era um olhar suplicante que eu me sentia incomodado a olhá-la.
Chamei o Enfermeiro. Deu-lhe uma injecção.
Passados 5 minutos, o estado de espírito da jovem já era outro.
"Agora já posso fechar os olhos e descansar um pouco. Obrigada"

Fiquei feliz: a doente, aliviada da dor, já podia descansar; o Enfermeiro, aliviado do trabalho, já podia ir almoçar.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

UM FILHO DE 19 ANOS

Encontrámo-nos à saída.
Tinha ido ao bazar comprar qualquer coisa para o filho.
Mulher forte. Em todos os aspectos. Nota-se que é bastante sofrida.
Perdeu o marido há 4 anos. 
Só passados 19 anos de casamento é que teve um filho: único. Teve de sofrer muito para o ter.
Há ano e meio declarou-se nele uma doença grave.
"Amanhã, o meu filho tem alta. Não sei o que me vai esperar. Medicamente, já me disseram que não há mais nada a fazer. Estou 'desenganada'. Vamos para casa e, a única coisa que espero, é um milagre. Se dizem que há milagres, porque é que também não me há-de calhar um a mim e ao meu filho? Mas se o meu filho morrer, ao menos posso dizer que fui feliz durante 19 anos, que é a idade que ele tem. Foi um dom de Deus. Se ele morrer, garanto-lhe que não vou ficar em casa, sozinha. Vou dedicar o resto da minha vida ao voluntariado; quero continuar a ser útil a alguém. Não quero ficar em casa a olhar para as paredes..."
Olhámo-nos; olhos nos olhos; ambos inundados de lágrimas.
Só me restou fazer-lhe carícias no rosto e dizer-lhe: "Gosto muito de si!".
Despedimo-nos "até amanhã" com 2 beijos.

* Passados alguns dias, este "filho de 19 anos", depois de, na noite de ontem ter entrado na Urgência... "Já não está comigo fisicamente, mas está espiritualmente"! 
Imaginam quem pronunciou estas palavras...!

terça-feira, 14 de junho de 2016

LÁGRIMAS DE TRISTEZA E DE MEDO

Entrei no quarto. 3 senhoras internadas.
A senhora da primeira cama, junto à porta, estava a dormitar; mas com um sono bastante solto. De touca: o cabelo está a começar a cair. Uma pequena bacia protegida por um plástico: sinal de que os vómitos a estão a atormentar. E, de facto, passados poucos momentos, os vómitos vieram.
Uma segunda senhora, cuja cama estava junto da janela, está muito queixosa: não consegue comer; só de pensar no comer lhe chegam os vómitos. Chora. "Há 3 anos que ando nesta vida". Já não sabe o que há-de pedir. "Seria melhor que tudo acabasse e já! Será que é mal eu pensar assim? Mas o sofrimento é tanto!... Não aguento. Junto dos meus, não sou capaz de me queixar: eles ficam logo a pensar que eu estou pior. E eu não quero que eles pensem isso. Como sou de longe, não quero que eles me venham ver muitas vezes: têm a sua vida, têm os meus netos..."
A senhora que estava na cama do meio, permanecia calada. Comecei por lhe dedicar a minha atenção. Porque ela estava em silêncio, foi-me mais fácil ver nela o rosto do sofrimento e da tristeza. Já viram o rosto da tristeza? Sabem como ele é? Eu não sou capaz de o descrever. A testa... os olhos... as sobrancelhas... os músculos faciais... a boca... o pescoço... tudo era tristeza! E medo! Muito medo. Ela não conseguia falar. Só foi capaz de me dizer que estava internada desde 3ª feira (há 4 dias!). As lágrimas corriam-lhe pelos cantos dos olhos; imagino que eram lágrimas geladas. Porque, ao caírem por aquele rosto tão frio, mesmo que as lágrimas fossem quentes, elas regelavam! Só lhe fiz um convite: que quando quisesse e pudesse, colocasse tudo cá para fora: a revolta; quando fosse capaz de verbalizar a revolta, não deixasse de o fazer.
E as lágrimas frias continuavam a correr-lhe pelos cantos dos olhos.

Eram lágrimas de tristeza e de medo. Pudera! A ver o que se está a passar com as colegas do lado...! Mesmo muito medo!

domingo, 12 de junho de 2016

ADMINISTRAR UM SACRAMENTO "À SOCAPA"?

Vinha dizer que tem o marido muito mal. E que desejava que ele recebesse a Unção dos Doentes. 
Procurei indagar se o marido estava consciente, se ele desejava receber esse Sacramento... Diz que tem momentos de lucidez nos quais tem conversas com nexo e que talvez ele queira receber o Sacramento. 
Digo que será melhor aproveitar um dos momentos de lucidez para conversar com ele calmamente; mas que, mais logo, passarei pelo quarto do marido, não sem antes falar com ela e com a equipa de enfermagem. 
Mais tarde dirigi-me à equipa de enfermagem primeiro que tudo. Disse ao que ia. 
Foi então que fui informado de que a senhora lhes tinha pedido "qualquer coisa" que pusesse o marido a dormir antes de eu chegar para lhe administrar a Unção, pedido esse que a equipa recusou. Claro. 
Informação guardada, fui falar com a esposa. 
Chegámos à conclusão de que administrar um Sacramento "à socapa" não é honesto. Não respeita a dignidade e a liberdade do doente. Não é ético.
Às vezes há intenções que parecem muito 'santas', mas que, de santo, não têm nada. 
Vamos aguardar que o possível diálogo se estabeleça.
O Consentimento Informado é imprescindível para uma boa prática de Cuidados de Saúde. A vontade do doente, expressa no momento ou, estando inconsciente já tendo sido expressa em estado de consciência, é primordial e, repito, imprescindível.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

UM BEIJO CHEIO DE TERNURA

Ainda faltava meia hora para a Celebração da Eucaristia. 
Resolvi sentar-me um pouco na capela.
Encontrava-se lá um casal de pessoas muito idosas: ele está internado num dos serviços e vê-se que as suas forças são muito poucas; a visão também já não é grande coisa. 

Estavam os dois na segunda fila; bem perto do LCD que estava a transmitir a apresentação de power-point própria para este dia do Corpo e Sangue de Cristo.
Como ele não podia ler, era ela que ia lendo o texto dos vários slides. Eu, bem atrás, em silêncio, ia saboreando a ternura entre os dois.
Ela leu: "Amavelmente, vais enchendo o meu caminho com as minhas flores predilectas. Silenciosamente, a minha vida agradece-te diariamente por todo o bem que me fazes." 

E deu-lhe um beijinho no rosto.
E a leitura continuava. 

Por fim, ela leu: "Obrigada, porque a tua vida é um presente no meu caminho". Um último beijo selou a leitura carinhosa dela e a escuta atenta dele. 
Mas este último beijo foi diferente dos outros.
Que bom ver um casal tão idoso e tão cheio de ternura. 

Que beijos doces eles trocaram!
Fiquei feliz. 

quarta-feira, 8 de junho de 2016

A DOENTE DA CAMA 12

Já lá vai muito tempo.
Fui conversar um pouco com a D. Maria de Jesus, da cama 10. Ela pediu a Comunhão.
Antes, avisei as outras duas doentes que ia rezar um pouco com a D. Maria e que ia rezar também por todas elas. Que "sim senhor! Bem precisamos".
Estava em plena oração, e eis senão quando a senhora que estava na cama 12, dispara:
"Olhe lá, senhor: o Benfica, ontem, ganhou?"
"Sim, ganhou 1-0"
"Graças a Deus! Senhor, eu Te dou graças!"
"E o Porto também ganhou"
"Pois... isso é que foi mau! Perdemos a oportunidade de ficar mais perto deles!"
A senhora da cama 12, esta que rezou desta maneira, tem 88 anos.
"Sabe, é que eu gosto muito do Benfica! E ainda não tinha tido oportunidade de perguntar a ninguém se ele tinha ganho."
Descobri que, naquele momento, teria sido mais importante dar graças pela vitória do Benfica. Era essa a aspiração da minha doente da cama 12.
Eu também Te dou graças, Senhor, pelo alto momento de oração que tive com aquelas três doentes. E pelos risos que todos demos. E pelo conselho que dei aos enfermeiros: no próximo fim de semana, não se esqueçam de, assim que chegarem ao serviço, dizerem àquela senhora qual o resultado do jogo do Benfica; ela estará mais interessada nisso do que em avaliar a tensão arterial.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

ESTOU CHEIA DE MEDO

Fui visitar uma das Cirurgias.
Três senhoras internadas passeavam no corredor. Saudámo-nos. Uma delas, que me conhecia, disse:
"Ainda bem que aí vem! Fale um pouco com esta senhora, que está a precisar muito de ajuda."
"Com todo o gosto. Mas o que é que se passa?"
Afasto-me um pouco das outras duas e fico a sós com a senhora que "precisava de ajuda".
"Estou cheia de medo. Vou ser operada na 3ª feira e estou cheia de medo."
"Como é que podemos resolver esse medo? Há alguma coisa que eu possa fazer?"
"Olhe, o meu medo vem do seguinte: eu tinha uma colega de quarto que foi operada na 5ª feira passada. Ela ainda não voltou. Onde é que ela estará? É capaz de ter morrido! O medo que eu tenho é de já não regressar a este quarto e de morrer, como de certeza aconteceu com ela."
"Espere um bocadinho que eu vou ver o que é que se passa."
Fui ter com a equipe de Enfermagem e indaguei sobre a senhora que tinha sido operada. Estava na Unidade. Pedi licença para levar lá a senhora que "precisava de ajuda".
Não vos consigo descrever a alegria que lhe vi no rosto, o afecto que esta senhora demonstrou àquela que tinha sido operada.
Regressou ao seu quarto mais leve e mais calma.
Depois, conversámos mais um pouco sobre coisas da terra dela e da minha. Vi-a a "relaxar" cada vez mais.

Desejei-lhe boa sorte para a intervenção cirúrgica e prometi que a iria visitar no dia a seguir a ela ser operada.

sábado, 4 de junho de 2016

EU QUERO A MINHA MÃE

Sempre me impressionou a simplicidade da Maria. E a sua voz calma. Mas via nela uns olhos tão tristes!...
Não era capaz de me ficar só a contemplar o seu rosto. Fiz os possíveis por saber mais. Mas nem foi preciso perguntar. As palavras começaram a sair, como em catadupa, da sua boca:
"A minha mãe morreu quando eu era bébé. Fiquei eu e mais uma irmã. O meu pai abandonou-nos. Não quis saber de nós. Fui acolhida numa casa de Irmãs. Elas passaram a ser a minha mãe; sobretudo a irmã Vitória. Ele foi a minha mãe; e, ainda hoje, já ela velhinha, ainda lhe chamo mãe. Ela é a minha mãe..."
De repente, sai-lhe um grito do fundo da alma: "Eu quero a minha mãe!"
A Maria tem 50 e poucos anos. Mas, naquele momento, ouvi o grito da criança que estava nela.
Continuou:
"Mais tarde, fui ter com o meu pai. Esperava que ele me recebesse, mas isso não aconteceu. Tratou-me tão mal, bateu-me tanto, desprezou-me tanto, que eu não aguentei e fugi. Voltei para junto da minha mãe Vitória. Passados uns anos, tive de vir de África para aqui. Mas tenho tantas saudades da minha mãe Vitória!... De vez em quando falo com ela ao telefone. Mas as saudades continuam. Agora, estou aqui nesta cama, quase a morrer. Eu sei. E prefiro morrer, porque não tenho a minha mãe comigo."
Actualmente, a Maria tem o apoio e a ajuda duma família que a "adoptou". Hoje, quando ela recebeu a Unção dos Doentes, lá estava presente essa família adoptiva. A Maria já estava em estado de coma. E não conseguiu ver as lágrimas que corriam pelo rosto dos seus familiares adoptivos. Eu vi. E a simplicidade continua no rosto da Maria.
Parecia que estava a dormir ao colo da mãe Vitória.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

MERECER O PAI QUE TIVERAM

Era um segundo internamento. Doloroso. 
O tumor já lhe tinha invadido o corpo. A esposa estava presente todo o tempo que lhe era permitido. Eram de longe. Mas ela assentou arraiais junto do marido.
Pediu-me para o acompanhar, para lhe dar o apoio que me fosse possível. Ele desejava-o como de pão para a boca.
Diversas vezes me abeirei dele. Sempre que ele o solicitava, dava-lhe a Comunhão.
Mas algo me impressionava: a sua serenidade.
A filha, psicóloga, perguntava-lhe: "Pai, estás com muitas dores?"
Ele sempre respondia: "Sim, estou. Mas sou capaz de aguentar tudo!"
E era verdade. Aguentava tudo com serenidade.
Eu próprio me interrogava como era possível. Não se lhe ouvia um queixume que fosse. Até parecia que sorria.
Um domingo, antes do almoço, dei-lhe a Comunhão.
Ao fim da tarde, a esposa diz-lhe que tem de ir à terra tratar dum assunto que os preocupava. Ele diz que sim, que vá; até para ficar mais descansado.
"Mas olha, antes de te ires embora, vamos rezar juntos aquela jaculatória que rezávamos todos os dias".
Rezaram. "Agora, podes ir em paz que eu também fico em paz!"
E ficou. Passadas que foram duas horas, ele "partiu". Em paz. E com serenidade.
Na 2ª feira, de manhã, toca o meu telemóvel. "Padre, estamos aqui, na entrada. Queremos falar consigo. Pode ser?"

Eram os filhos. As lágrimas embeberam o nosso diálogo. "Tivemos um pai extraordinário. Por tudo o que ele nos deu. Sobretudo por este exemplo de serenidade. Temos de continuar a merecê-lo".