Entrei
no quarto. 3 senhoras internadas.
A
senhora da primeira cama, junto à porta, estava a dormitar; mas com um sono
bastante solto. De touca: o cabelo está a começar a cair. Uma pequena bacia
protegida por um plástico: sinal de que os vómitos a estão a atormentar. E, de
facto, passados poucos momentos, os vómitos vieram.
Uma
segunda senhora, cuja cama estava junto da janela, está muito queixosa: não
consegue comer; só de pensar no comer lhe chegam os vómitos. Chora. "Há 3
anos que ando nesta vida". Já não sabe o que há-de pedir. "Seria
melhor que tudo acabasse e já! Será que é mal eu pensar assim? Mas o sofrimento
é tanto!... Não aguento. Junto dos meus, não sou capaz de me queixar: eles
ficam logo a pensar que eu estou pior. E eu não quero que eles pensem isso.
Como sou de longe, não quero que eles me venham ver muitas vezes: têm a sua
vida, têm os meus netos..."
A
senhora que estava na cama do meio, permanecia calada. Comecei por lhe dedicar
a minha atenção. Porque ela estava em silêncio, foi-me mais fácil ver nela o
rosto do sofrimento e da tristeza. Já viram o rosto da tristeza? Sabem como ele
é? Eu não sou capaz de o descrever. A testa... os olhos... as sobrancelhas...
os músculos faciais... a boca... o pescoço... tudo era tristeza! E medo! Muito
medo. Ela não conseguia falar. Só foi capaz de me dizer que estava internada
desde 3ª feira (há 4 dias!). As lágrimas corriam-lhe pelos cantos dos olhos;
imagino que eram lágrimas geladas. Porque, ao caírem por aquele rosto tão frio,
mesmo que as lágrimas fossem quentes, elas regelavam! Só lhe fiz um convite:
que quando quisesse e pudesse, colocasse tudo cá para fora: a revolta; quando
fosse capaz de verbalizar a revolta, não deixasse de o fazer.
E
as lágrimas frias continuavam a correr-lhe pelos cantos dos olhos.
Eram
lágrimas de tristeza e de medo. Pudera! A ver o que se está a passar com as
colegas do lado...! Mesmo muito medo!
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