Era
um segundo internamento. Doloroso.
O tumor já lhe tinha invadido o corpo. A
esposa estava presente todo o tempo que lhe era permitido. Eram de longe. Mas
ela assentou arraiais junto do marido.
Pediu-me
para o acompanhar, para lhe dar o apoio que me fosse possível. Ele desejava-o
como de pão para a boca.
Diversas
vezes me abeirei dele. Sempre que ele o solicitava, dava-lhe a Comunhão.
Mas
algo me impressionava: a sua serenidade.
A
filha, psicóloga, perguntava-lhe: "Pai, estás com muitas dores?"
Ele
sempre respondia: "Sim, estou. Mas sou capaz de aguentar tudo!"
E
era verdade. Aguentava tudo com serenidade.
Eu
próprio me interrogava como era possível. Não se lhe ouvia um queixume que
fosse. Até parecia que sorria.
Um
domingo, antes do almoço, dei-lhe a Comunhão.
Ao
fim da tarde, a esposa diz-lhe que tem de ir à terra tratar dum assunto que os preocupava. Ele diz que sim, que vá; até para ficar mais descansado.
"Mas
olha, antes de te ires embora, vamos rezar juntos aquela jaculatória que
rezávamos todos os dias".
Rezaram.
"Agora, podes ir em paz que eu também fico em paz!"
E
ficou. Passadas que foram duas horas, ele "partiu". Em paz. E com serenidade.
Na
2ª feira, de manhã, toca o meu telemóvel. "Padre, estamos aqui, na
entrada. Queremos falar consigo. Pode ser?"
Eram
os filhos. As lágrimas embeberam o nosso diálogo. "Tivemos um pai
extraordinário. Por tudo o que ele nos deu. Sobretudo por este exemplo de serenidade. Temos de continuar a merecê-lo".
Que lindo e sereno. O Senhor o tenha em paz
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