quinta-feira, 2 de junho de 2016

MERECER O PAI QUE TIVERAM

Era um segundo internamento. Doloroso. 
O tumor já lhe tinha invadido o corpo. A esposa estava presente todo o tempo que lhe era permitido. Eram de longe. Mas ela assentou arraiais junto do marido.
Pediu-me para o acompanhar, para lhe dar o apoio que me fosse possível. Ele desejava-o como de pão para a boca.
Diversas vezes me abeirei dele. Sempre que ele o solicitava, dava-lhe a Comunhão.
Mas algo me impressionava: a sua serenidade.
A filha, psicóloga, perguntava-lhe: "Pai, estás com muitas dores?"
Ele sempre respondia: "Sim, estou. Mas sou capaz de aguentar tudo!"
E era verdade. Aguentava tudo com serenidade.
Eu próprio me interrogava como era possível. Não se lhe ouvia um queixume que fosse. Até parecia que sorria.
Um domingo, antes do almoço, dei-lhe a Comunhão.
Ao fim da tarde, a esposa diz-lhe que tem de ir à terra tratar dum assunto que os preocupava. Ele diz que sim, que vá; até para ficar mais descansado.
"Mas olha, antes de te ires embora, vamos rezar juntos aquela jaculatória que rezávamos todos os dias".
Rezaram. "Agora, podes ir em paz que eu também fico em paz!"
E ficou. Passadas que foram duas horas, ele "partiu". Em paz. E com serenidade.
Na 2ª feira, de manhã, toca o meu telemóvel. "Padre, estamos aqui, na entrada. Queremos falar consigo. Pode ser?"

Eram os filhos. As lágrimas embeberam o nosso diálogo. "Tivemos um pai extraordinário. Por tudo o que ele nos deu. Sobretudo por este exemplo de serenidade. Temos de continuar a merecê-lo".

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