domingo, 30 de outubro de 2016

VIVI O QUE TINHA PARA VIVER

Tinha pedido à Equipa de Enfermagem para que fosse visitada pelo Capelão. Queria simplesmente conversar.
E muito tinha para dizer!
"Há praticamente 40 anos tive um tumor nos intestinos. Fui operada. Passei momentos horríveis. Quase ia apodrecendo. E deitava um cheiro nauseabundo. Tinha vergonha de estar fosse ao pé de quem fosse. O meu marido tinha morrido há 4 meses. E eu tinha duas filhas pequenas para criar. Fui 'enviada' para casa para morrer. Mas não me deixei abater. Enchi-me de todas as forças de que era capaz! Eu não queria morrer: as minhas filhas necessitavam de mim. Melhorei. Lutei. Sofri. Consegui vencer! Hoje tenho uma família de que me orgulho. Os meus netos são a menina dos meus olhos. Apesar de estarem longe, vêm visitar-me. Estou de novo internada. Sei muito bem o que tenho. Aquele 'maroto' voltou. Mas, como tenho agora 87 anos, já de nada me importo. Vivi o que tinha para viver. Realizei os meus sonhos. Criei e eduquei as minhas filhas. Vi os meus netos a ficarem bem na vida. Que mais posso esperar? Que mais posso querer? Estou preparada para morrer. Quero ir ter com Deus. E espero que Ele me receba no seu amor."
Que teria eu para dizer?

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

TENHO SEDE

Um médico seu amigo pediu-me para a ir visitar; não sem antes me informar de que a iria encontrar num "estado lastimável", praticamente em fase terminal. Dirigi-me à equipa de serviço e foi-me dito que a senhora se encontrava numa "determinada sala" e que se encontrava muito mal, que já não falava nem abria os olhos. Fui até junto à cama e verifiquei que era verdade o que me tinham dito. No entanto, não deixei de tentar falar. Peguei numa das mãos e... passado algum tempo, a senhora abre os olhos e encara-me: "Quem é o senhor?", ouvi eu lá do fundo dela mesma."Eu sou o padre do Hospital". "Ah, já sei: foi o meu compadre Dr.... que lhe pediu para vir junto a mim!". "Sim, é verdade!" Voltou a fechar os olhos. Continuei a seu lado. Esperei mais algum tempo e por mais algum gesto. Daí a pouco, voltei a ouvir: "Tenho sede!" Fui perguntar se lhe podia dar água; "quem sim!". 
Junto à cama, dei-lhe um pouco de água numa seringa. Nunca vi ninguém a beber com tanta sofreguidão! Depois, disse-me:"Reze comigo. E vou ver se posso receber a Comunhão". Rezámos, dei-lhe um pedacinho da partícula. Fizemos silêncio. Por fim, disse-me: "Obrigada. Tenho paz!", No dia seguinte, ela partiu para o Pai. Mas aquele "tenho sede!" ainda ecoa dentro de mim.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

HOSPITAL DE DIA

De vez em quando reservo uma manhã para ir ao Hospital de Dia. Duas salas: uma mais dedicada a Hematologia e Ginecologia; outra, para Gastroenterologia, Pneumologia... Claro que estou a falar de salas onde se administra quimioterapia. Cada sala tem capacidade para umas 30 camas. 
Poucos Profissionais da Saúde para cuidarem de todos estes doentes.
Como se, cuidar, fosse só administrar medicamentos...
O doentes que vão pela primeira vez, necessitam de cuidados especiais: o seu nervosismo e ansiedade exigem uma maior atenção por parte dos profissionais. Mas haverá tempo para isso, no meio de tantos(as) a tratar?
É sempre 'bom' ir lá. Quase todos os doentes estão acompanhados por algum familiar. É possível conversa 'amena'. Há possibilidade de grande abertura. Parece que o carinho e o afecto envolvem todo aquele ambiente. E não é neste pequeno 'post' que serei capaz de descrever tudo o que lá se passa. Muitas das pessoas já as encontrei em internamentos anteriores, no Hospital.
Cada doente é único, diferente. Gente de perto do Hospital e de longe. Uns estão em casa de familiares que vivem perto; outros vieram de ambulância, de táxi, ou em carro próprio conduzido por um familiar.
É-lhes servida uma pequena e ligeira refeição.
Um dos dias que por lá passei:
Primeira pessoa com quem conversei: um pequeno bloco de apontamentos na mão, olhos fechados. 'Acordei-a' dos seus pensamentos. "Faz hoje uma semana que o meu marido foi a enterrar. Estou a tentar escrever uma pequena oração para ler, logo, na Missa que vamos celebrar." E falou-me do marido e do amor que os une. Da força que tem de dar aos filhos. Da amizade que está a sentir da parte dos amigos. "Mas é duro, sr. Padre. E logo nesta altura em que me encontro nesta situação!".
Duas pessoas à frente: uma senhora esfrega o seu braço direito. "Estou cheia de frio: não sei se é do ar condicionado, se é dos nervos que tenho". Claro que era dos nervos. Fui buscar um pequeno cobertor. "Estou melhor assim".
Sessenta e um anos, já reformado, e que "Fazia todos os anos um chek-up; tudo estava a correr bem. Mas, dum momento para o outro, começaram as hemorragias. O cólon já não estava bem. Tive, logo a seguir, de ser intervencionado ao fígado. Aqui estou, mas cheio de esperança.". Falamos de muita coisa. Quer saber também algo de mim e como vou tentando ser padre. Conto-lhe o que sou capaz.
Mais à frente, uma outra senhora com um olhar esquisito. Acabava de se deitar na cadeira. "Sabe? É a primeira vez que aqui venho. Sinto-me tão incomodada... Preocupo-me com tudo o que poderá acontecer a partir de agora. Contam-me tanta coisa que estou cheia de medo".
Cumprimento uma outra pessoa: um homem para os seus 60 e tal anos. Barba de 'três dias', bem cuidada. Conta toda a história da sua vida. Os lugares onde trabalhou; e foram muitos e bem distantes. "Olhe, sou médico. Chegou a minha vez. E posso garantir-lhe que é bem diferente estar deste lado de cá!"
Uma jovem, conhecida de há bastante tempo. Com uns pais e um marido fenomenais. "Nunca pensei estar de novo aqui...". Pede para que lhe vá buscar a Comunhão.

Tantos casos, tantos! E de uma riqueza indescritível. Sinto-me mesmo Padre, no meio de todas estas pessoas!

domingo, 23 de outubro de 2016

DUAS COMPANHEIRAS INSEPARÁVEIS (com um cantinho no meu coração)

No meio da vida pacata duma aldeia, o ir ao médico ou o ir à Missa torna-se num acontecimento importante. Veste-se roupa diferente, já se deixa o almoço adiantado, traz-se algum produto caseiro para oferecer a alguém...
Então, nas aldeias afastadas da sede de freguesia, tudo isto redobra de valor. Até se aproveita para ir colocar umas flores do próprio jardim nas campas dos seus entes queridos.
Tudo isto feito com muito amor.
Aproveita-se também para levar para casa aquilo que não se encontra à venda na pequena loja da terra... um peixe, um bife pequeno...
A Ti Maria e a Ti Aida.
Todas as semanas vinham ao médico; sempre as duas; vinham fazer o ponto da situação, conversar, falar das dores nas costas, da falta de apetite, das dificuldades em dormir...
O dia de virem ao médico era também dia de irem ao cemitério.
Ambas eram viúvas. Vinham dizer "Presente" ao amor que as tinha mantido felizes durante muitos anos. Conversavam, como se os maridos ali estivessem a ouvi-las (e não estariam?), deixavam uma flor em cima da campa.
Era Dezembro. Fazia frio. Tinha sido uma noite daquelas de "caramelo". A água estava gelada. Eu tinha roupa para lavar. Aqueci um pouco de água para "temperar" a que já estava no tanque da roupa.
Comecei a lavar; debaixo dum alpendre, bem escondido.
Eis senão quando aparecem junto a mim a Ti Maria e a Ti Aida. Vinham do cemitério (a minha casa ficava a uns 40 metros).
"Bom dia!"
"Bom dia minhas meninas. Como têm passado?"
"Bem. Cá com as nossas doenças... Viemos ao médico e aproveitámos para vir também ao cemitério"
"E vão já para casa? Querem tomar alguma coisa? Está tanto frio!..."
"Não, muito obrigadas. Fica para outra vez. E não será assim tão longe quanto isso!"
Despediram-se.
Continuei a lavar a minha roupa no tanque.
Passado algum tempo depois. Dia do meu aniversário.
A meio da tarde ouço bater à minha porta. Vou ver quem era.
"É aqui que mora o sr. José?"
"Sim, sou eu"
"Trago-lhe uma encomenda"
Abre a porta da carrinha e tira de lá uma caixa grande.
Pede-me ajuda para a descarregar. Vou ajudar, sem saber o que se passava.
Nisto saem da carrinha duas senhoras que vinham escondidas: eram a ti Maria e a ti Aida. Começam a cantar os "parabéns a você".
Eu também canto, porque a ti Maria também fazia anos nesse dia.
Descarregamos a caixa; levamo-la para dentro de casa.
Abrimos. Era uma máquina de lavar roupa!
"Gostámos de o ver a lavar a roupa no tanque, naquele dia. Mas... com uma máquina ficará mais livre para outras coisas".
Comemos e bebemos do que havia. E havia bastante, porque elas trouxeram um leitão assado!
Não sei porquê, mas estas duas mulheres ficaram sempre com um cantinho no meu coração!!! Eu sei que também estava no delas!

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

O FILME DE UMA VIDA

Um pai alcoólico. Uma mãe que teve um filho doutro homem. Aos 13 anos começa a trabalhar. De trabalho em trabalho, lá vai sobrevivendo. O pai suicida-se: sente-se culpada; não se consegue perdoar. Tem uma filha dum relacionamento que pensava que ia dar certo. Mas o companheiro agride-a de todos as maneiras. Fica destruída fisica e psiquicamente. Separam-se. E como é que vai alimentar a filha? Arranja emprego por um mês. Cai doente. Pessoas de bom coração sustentam-na e à filha. Arranja outro emprego, desta vez bom. Mas passado um ano é despedida: mudança de patrões. Álcool. Bebedeiras atrás de bebedeiras. Faz desintoxicação. Consegue vencer. Acidente de automóvel: a cervical não aguenta. E a filha continua à espera duma vida melhor. Comprimidos: intoxicação... E tantos, tantos outros problemas!
Bastou uma hora para ouvir e ver este "filme"
E a mim, depois de ouvir e ouvir, só me resta ir desabafar para junto de Quem é capaz de ouvir tudo. 

Só espero que este filme venha a ter um final feliz.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

GOLIAS E DAVID (COM O LUÍS PELO MEIO)

Uma daquelas noites que passava "na rua".
Mas nesta noite resolvi ir sozinho. Aventurei-me.
Eu que não sou nada "forte"!
Fazia alguma ideia dos vários perigos que poderia correr; mas...Coração ao largo e lá me pus a caminho.
Já conhecia muitas das moças que estavam na rua. Elas já tinham à vontade para conversar comigo. Falávamos de muita coisa. Sobretudo das suas solidões, da violência física e psicológica a que eram sujeitas, da sua falta de recursos económicos...
Passei pela Gracinda; perguntei como estavam os miúdos e o companheiro.
"Estão todos no café ali ao lado".

Já eram umas 2 horas da manhã.
O café estava cheio de gente da noite. Sobretudo homens (chulos), porque as mulheres estavam na rua a "trabalhar".
Dirigi-me à Lídia. Era a primeira vez que a via por ali. As perguntas do costume, mas sem querer saber muito acerca da sua identidade; é bom manter um certo resguardo para que as pessoas não se sintam "expostas".
Disse-lhe quem era e ao que andava. Respondeu-me que as colegas já lhe tinham falado de mim. Sobretudo a Gracinda que estava ali ao pé já lhe tinha contado algumas coisas.
Passados uns 15 minutos de conversa, vejo que sai do café um autêntico "Golias": era o chulo da Lídia. Vinha com ar ameaçador.
"O que é que está aqui a fazer? Ela é minha!"
Coitado de mim, pequenito "David"! Tentei explicar o que estava a fazer.
"Não quero saber nada disso! Faço-o já em bocados!"
Eis senão quando vem de dentro do café o Luís (chulo da Gracinda); já nos conhecíamos há muito.
"Eh pá, não lhe faças mal nenhum que ele é nosso amigo. Por favor, deixa-o. Ele só quer o nosso bem. Não anda aqui para as roubar à gente. Deixa-o."
O Luís foi a minha salvação naquela noite.
Levaram-me para o café e juntei-me à malta que lá estava. Os três conversámos bastante.
Será que alguma coisa lá ficou naqueles corações?
Espero que sim. 

sábado, 15 de outubro de 2016

UM CONDOMÍNIO PRIVADO JUNTO AO RIO

Vivia num morro, numa barraca de madeira, bem perto do rio. Tinha 4 filhos, todos menores. Já tinha andado "na rua", mas, agora, tinha estabilidade afectiva (o seu companheiro era um homem carinhoso para ela e para os miúdos; e era trabalhador).
Um cãozito (muito meigo) à porta da barraca.
Servia-se da água do rio para lavar a roupa e a louça. Claro que não tinha luz eléctrica. A barraca servia para todos se acomodarem; duma só divisão.
Com frequência a(os) visitava; e sentia-me bem no seu convívio. Ajudava como podia. Sobretudo na presença.
O sonho grande e quase único da Conceição era ter uma casa digna para ir criando os filhos. "Outras", sem tanta necessidade, já tinham conseguido uma casa através da Câmara. Ela continuava à espera. E... "quem espera, sempre alcança!"
Sabia quando ela fazia anos. Nesse dia, convidei um grupo de malta nova para darmos um passeio. Pedi-lhes para levarem de casa alguns produtos que eles achassem úteis para uma família com carências e com crianças, e também algum "mimo" para um aniversário.
Lá vamos nós: em 3 automóveis.
Foi uma invasão ao "condomínio privado" (!) da Conceição. Fizemos festa toda a tarde. Parecíamos um grupo que já há muito se conhecia.
Uns meses mais tarde soubemos que à Conceição lhe tinha calhado uma casa da Câmara com o espaço e comodidades suficientes para criar os filhos. Com a dignidade acrescida à sua dignidade de mulher e de mãe. 

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

OS DOENTES SÃO SOLIDÁRIOS!

Era um quarto de enfermaria com 6 camas. Tinha lá ido na semana anterior: estavam lá internados 4 homens duma das minhas antigas paróquias.
Conversámos bastante, rimo-nos muito. Disseram-me que, para passarem o tempo, costumavam contar anedotas. Tudo se tornava mais fácil assim!
Passados alguns dias voltei lá. E o ambiente não era o mesmo. Fiquei intrigado. Mas não me atrevia a perguntar porquê. Até porque o quarto, naquele dia, tinha muitas visitas. Fui conversando com um e com outro, quase em surdina.
A certa altura, dois deles disseram-me:
"Não está a estranhar a nossa postura?"
Perguntei: "A vossa postura? Qual?"
Disseram: "A de nós estarmos, hoje, tão calados!"
Disse eu: "Sim, notei alguma coisa... mas julgava que era por estar aqui muita gente".

Então veio a explicação: "Aproveitamos estar aqui muita gente para estarmos mais calados e, assim, interiorizarmos uma notícia que soubemos há pouco: um dos nossos colegas, o mais novo, parece que tem uma coisa ruim. E ele que ainda tinha uma vida inteira á sua frente! Depois das visitas saírem, temos de voltar à alegria para ele não sofrer. Mas, agora, temos a pensar nisto tudo. Estamos a sofrer!"

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

AO MENOS, AQUI, TENHO CAMA, MESA E ROUPA LAVADA!

Deu entrada no Hospital numa situação muito grave.
Foi-me pedido que a visitasse e, assim que me foi possível, procurei escutá-la e prometi que a visitaria sempre que pudesse.
O seu estado era muito crítico.
Mas, passadas que foram umas três semanas, começou a melhorar bastante.
Antevia-se alta para breve.
A uma sexta-feira fui à enfermaria onde ela estava internada e sou contactado pelo médico que a assistia.
Disse-me: "Vai visitar a D. M...?"
"Sim, vou."
"Olhe, por favor tente ver o que se está a passar com ela. É que a informámos que ela iria ter alta na próxima 2ª feira e o que é verdade é que ela voltou ao estado em que se encontrava quando foi internada. Por favor, ajude-nos!"
Dirigi-me ao quarto. Sentei-me à beira da cama e começámos a conversar.
Da conversa não saía do que eu queria. Foi difícil. E fui-me embora sem conseguir o que queria.
Voltei no dia seguinte.
A conversa recomeçou. Passada uma meia hora e sem nada conseguir, resolvi perguntar:
"D. M... que se passa consigo? Deu entrada no Hospital num estado muito crítico, como sabe. No entanto melhorou e foi-lhe anunciado que ria ter alta. O que é verdade é que, a partir daí, voltou ao seu estado anterior! Que se passa? Que se passou?"
Resposta imediata:
"Olhe, tudo o que tenho está ali no cacife. Toda a minha roupa e nada mais. Quando eu ainda estava mal, veio visitar-me uma colega que vivia comigo no mesmo quarto. Sem eu ter muita consciência, levou-me a assinar um cheque, o que causou que ela levantasse o pouco dinheiro que eu tinha no Banco. Para onde é que eu vou? Não tenho dinheiro para alugar um quarto. Só tenho três ou quatro peças de roupa. Para onde é que eu vou? Fazer o quê? Ao menos, aqui, tenho cama, mesa e roupa lavada!"
"É isso que a preocupa?"
"Sim, e não é pouco! É tudo o que sinto e que me dá para estar como estou!"
"Deixe isso connosco!"
Com o Serviço Social do Hospital começámos a tratar dum quarto para a D. M... e de um pequeno subsídio que lhe daria para ir sobrevivendo.
Assim que a D. M... tomou consciência do que estávamos a fazer por ela, as melhoras foram voltando a ser o que eram quando o médico lhe anunciou a alta.
Passados 8 dias, a D. M... teve alta para o seu novo quarto, com a roupa necessária, e algum dinheiro para gastar.
A cura da D. M... estava dependente não só de medicamentos, mas também da sua situação social.

sábado, 8 de outubro de 2016

DEIXOU-SE CAIR NOS BRAÇOS DO PAI

11 da manhã. Toca o meu telemóvel.
"O Enfº... está pior; parece-nos que está próximo do último suspiro; quando ele vê entrar uma bata branca no quarto, pergunta sempre se é o senhor; não daria para vir cá?"
Eu estava a 80 Km. Decidi pôr-me a caminho.
Cheguei ao seu quarto. A sua voz já quase não existia; no entanto, ainda que com dificuldade, conseguia perceber-se alguma coisa. Ele mesmo tira a máscara do oxigénio para se fazer ouvir melhor. Balbuceia algumas palavras, as quais tem de repetir para eu perceber. Escutei e guardei. Pergunto se quer água. "Que sim". Bebe com sofreguidão. Pergunto-lhe: "Quer, então comungar?" Faz-me sinal que sim com a cabeça. Vou buscar a Comunhão. Juntamente com a esposa, rezamos. "Senhor, queremos falar-te do ... ele está muito mal; olha para o seu estado de sofrimento..." Estávamos os três unidos em espírito, em sofrimento e também fisicamente: as nossas mãos estavam entrelaçadas. Dou-lhe um pedacinho da partícula. Ele ajuda com a sua mão. Tento dar-lhe água; já não tem forças para a sorver.
Depois de ter recebido a Comunhão sob a forma de Viático (como que o "Farnel" para a última viagem), só sou capaz de lhe dizer: "ao partir, vamos ser acolhidos nos braços do Pai, onde seremos felizes para sempre!"

Às 21 horas, cansado, deixou-se cair nos braços do Pai. 
Neles, descansará para sempre.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

ENTRE TANTOS ERROS QUE JÁ COMETI... MAIS UM!

Está à minha frente. Todos os dias me (nos) vem visitar. Logo pela manhã, ainda antes do pequeno almoço. Pede licença para entrar e senta-se numa das cadeiras vazias. Tem um 'refrão' que lhe é habitual: "Hoje vão matar-me!". Há mais de uma semana 'proibi-lhe' de repetir esse 'refrão'. E ele tem cumprido. Pois se todos aqui lhe querem bem, como é que o iriam matar? É extremamente inteligente; demais, até. Sabe história, geografia; canta bem e até é capaz de fazer letras para canções. É simpatiquíssimo, podemos dizer que é um gentleman! Gosta muito de bolachas e de oferecer revistas às senhoras. Vai à pressa tomar o pequeno almoço e volta de novo para junto de nós; às vezes ainda vem a comer.

Ontem, ao contrário do que acontece normalmente, só chegou ao meu gabinete pelas 10 da manhã. A essa hora eu já estava com algum apetite. Busquei umas bolachas que lá tinha e também lhe ofereci. Comemos os dois até as acabar. O pacote ficou vazio. Ele ofereceu-se logo para o ir colocar no lixo. Eu disse: "deixa lá, que eu coloco". Ele ficou triste. Errei. Não soube aproveitar a disponibilidade do Manuel. Pedi-lhe desculpa. E continuámos amigos. 

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

ACTIVIDADE RADICAL AOS 82 ANOS

Entre muitos campos de férias para jovens que realizei, também realizei um para seniores. Pessoas dos 50 para cima. 
Já lá vão alguns anos. 
Uma das actividades que tivemos e, talvez, a mais radical, foi descermos o rio em canoa. Nunca nenhuma dessas pessoas tinha realizado tal proeza. A ansiedade era muita. As dúvidas também eram algumas.

A Ti Maria era uma das participantes, 82 anos. 
No dia da descida do rio, todos se aprontam para o evento. 
Também a Ti Maria. Fiquei aflito. Julgava que ela não quereria participar. Não lhe dissemos nada. Ao chegar ao rio, cada um ocupa o seu lugar e fizemos da Ti Maria a guardiã dos nossos haveres (ela e o condutor do autocarro). 
Numa das paragens para descansar e comer alguma coisa, notámos que a Ti Maria estava triste, muito triste. Perguntámos porquê. "Então, eu preparei-me toda para descer o rio e vocês não me deixam?". Olhámos uns para os outros e decidimos que ela faria o resto da descida connosco. Os olhos dela brilharam. De repente, saca da algibeira um maço enorme de notas de 5.000 escudos. Dá-as a guardar ao condutor do autocarro, e sobe para a canoa. "Guarde bem o dinheiro para, no final do dia, fazermos uma festa bem grande. Eu pago tudo!". A partir daí, se a descida do rio estava a ser bem animada, mais animada ficou. Era ver uma mulher feliz! No final, disse: "Foi dos dias mais felizes da minha vida". E a festa fez-se. Na noite seguinte, a Ti Maria também foi participar numa caminhada pelas montanhas a descobrir mensagens. 
E era a mais rápida a andar. Feliz.

sábado, 1 de outubro de 2016

NOITES SEM DORMIR

De inverno, as noites são longas. O frio aperta.
Não fosse uma lareira para aquecer o ambiente, e tudo parecia mais frio. Não fosse um cházito quente ou um vinhito com açúcar, aquecido numa púcara de barro em cima das brasas, e parecia que até o coração ficava gelado!
As nossas casas também não ofereciam grande conforto: granito, madeira, escuras por causa do fumo da lareira...
A idade e as maleitas também já não permitiam grandes conversas. Eu passava todos os dias, a várias horas, por aquela rua.
As casas eram todas térreas.
As portas sempre entreabertas.
As "velhotas" que até aí estavam a aproveitar a última réstia de sol, sentadas num banquito à soleira da porta, assim que o sol começava a ficar envergonhado, recolhiam logo para junto do lume, onde já tinham uma panelita de ferro junto às brasas.
Ali vivia-se ao mando do frio; ao mando do sol.
As pessoas mais antigas nem sempre tinham um televisor; quando muito lá tinham uma telefonia.
Cedo deixava de ver esta gente; o meu trabalho nocturno só me permitia vê-los(as) no outro dia de manhã.
"Bom dia, ti Luz!"
"Bom dia, vizinho!"
"Dormiu bem esta noite?"
"Olhe, nem por isso! A partir da meia noite não dormi mais"
"A sério? E já falou com o sr Doutor?"
"Eu bem tomo os comprimidos que ele me mandou. Mas é a mesma coisa que nada!"
"Peça-lhe para lhe dar uma dosesita maior"
Todos os dias era a mesma conversa.
Não havia dose que lhe desse mais sono. As queixas eram sempre as mesmas.
Depois de muitos diálogos semelhantes, resolvi disparar:
"Ouça lá, ti Luz! A que horas é que se costuma deitar?"
"Às 5 da tarde já eu estou na cama!"
"Claro. À meia noite já tem 7 horas dormidas. Ainda queria dormir mais?"
Algumas vezes, a partir das 5 da tarde, ia de propósito um bocadito até ao lume da ti Luz. Só para ela não acordar todas as noites à meia noite.