De
vez em quando reservo uma manhã para ir ao Hospital de Dia. Duas salas: uma
mais dedicada a Hematologia e Ginecologia; outra, para Gastroenterologia,
Pneumologia... Claro que estou a falar de salas onde se administra
quimioterapia. Cada sala tem capacidade para umas 30 camas.
Poucos Profissionais da Saúde para cuidarem de todos estes doentes.
Como se, cuidar, fosse só administrar medicamentos...
O
doentes que vão pela primeira vez, necessitam de cuidados especiais: o seu
nervosismo e ansiedade exigem uma maior atenção por parte dos profissionais.
Mas haverá tempo para isso, no meio de tantos(as) a tratar?
É
sempre 'bom' ir lá. Quase todos os doentes estão acompanhados por algum
familiar. É possível conversa 'amena'. Há possibilidade de grande abertura.
Parece que o carinho e o afecto envolvem todo aquele ambiente. E não é neste
pequeno 'post' que serei capaz de descrever tudo o que lá se passa. Muitas das
pessoas já as encontrei em internamentos anteriores, no Hospital.
Cada
doente é único, diferente. Gente de perto do Hospital e de longe. Uns estão em
casa de familiares que vivem perto; outros vieram de ambulância, de táxi, ou em
carro próprio conduzido por um familiar.
É-lhes
servida uma pequena e ligeira refeição.
Um
dos dias que por lá passei:
Primeira
pessoa com quem conversei: um pequeno bloco de apontamentos na mão, olhos
fechados. 'Acordei-a' dos seus pensamentos. "Faz hoje uma semana que o meu
marido foi a enterrar. Estou a tentar escrever uma pequena oração para ler,
logo, na Missa que vamos celebrar." E falou-me do marido e do amor que os
une. Da força que tem de dar aos filhos. Da amizade que está a sentir da parte
dos amigos. "Mas é duro, sr. Padre. E logo nesta altura em que me encontro
nesta situação!".
Duas
pessoas à frente: uma senhora esfrega o seu braço direito. "Estou cheia de
frio: não sei se é do ar condicionado, se é dos nervos que tenho". Claro
que era dos nervos. Fui buscar um pequeno cobertor. "Estou melhor
assim".
Sessenta
e um anos, já reformado, e que "Fazia todos os anos um chek-up; tudo
estava a correr bem. Mas, dum momento para o outro, começaram as hemorragias. O
cólon já não estava bem. Tive, logo a seguir, de ser intervencionado ao fígado.
Aqui estou, mas cheio de esperança.". Falamos de muita coisa. Quer saber
também algo de mim e como vou tentando ser padre. Conto-lhe o que sou capaz.
Mais
à frente, uma outra senhora com um olhar esquisito. Acabava de se deitar na
cadeira. "Sabe? É a primeira vez que aqui venho. Sinto-me tão
incomodada... Preocupo-me com tudo o que poderá acontecer a partir de agora.
Contam-me tanta coisa que estou cheia de medo".
Cumprimento
uma outra pessoa: um homem para os seus 60 e tal anos. Barba de 'três dias',
bem cuidada. Conta toda a história da sua vida. Os lugares onde trabalhou; e
foram muitos e bem distantes. "Olhe, sou médico. Chegou a minha vez. E
posso garantir-lhe que é bem diferente estar deste lado de cá!"
Uma
jovem, conhecida de há bastante tempo. Com uns pais e um marido fenomenais.
"Nunca pensei estar de novo aqui...". Pede para que lhe vá buscar a
Comunhão.
Tantos
casos, tantos! E de uma riqueza indescritível. Sinto-me mesmo Padre, no meio de
todas estas pessoas!
Trabalhei na área da saúde 42 anos e vi muita coisa ( ... ) Também como doente, passei já muito tempo da minha vida em internamentos onde também vi e senti muita coisa ( .... ) Tinha um sentimento; Falta de padres, freiras ou mesmo voluntariado para dar apoio a tanto sofrimento que presenciei onde pouco podia fazer para minimizar tanto sofrimento !.... Ainda bém que hoje existe um Padre José António nestes serviços de tanto sofrimento. Bem Haja !!!!
ResponderEliminarQue bom e felicidade sentir que ajudamos o proximo. Obrigada padre Ze Antonio
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