sábado, 16 de dezembro de 2017

UMA ESTÓRIA (VERDADEIRA) DE NATAL

Vou contar esta estória na primeira pessoa.

"Há uns dias, estando a jantar com a minha mãe, ela perguntou-me:
- Lembras-te daquela noite de Natal em que, na consoada, comemos sardinha assada?'
- Sim, lembro!
- E sabes porquê?
- Não, não sei.
- É que o teu pai tinha pago o salário aos empregados e ficámos sem dinheiro. Nem dinheiro tínhamos para comprar um bacalhau. Só tínhamos sardinha, que, na altura, era a comida habitual dos pobres. Quando estávamos a cear, chegaram a tua tia Ernestina e o teu tio Acácio; ficaram admirados por estarmos a comer sardinha e disseram: 'Credo! Comer sardinha numa noite de Natal?' Mas foi uma ceia tão feliz que, no fim, a tua tia disse: 'Nunca passei uma noite de Natal tão feliz como esta!'

E é verdade: foi a melhor noite de Natal que tive em muitos anos. Foram as melhores sardinhas que comi até hoje! O afecto que existiu foi o melhor prato com o melhor tempero que pôde haver. Esse afecto foi o melhor e único presente de Natal."

sábado, 9 de dezembro de 2017

UMA FIDELIDADE E AMIZADE SEM MEDIDA

Há pessoas que marcam a nossa vida. E eu tenho sido um privilegiado a esse respeito.
Na minha passagem pela Beira Alta, fui agraciado por muitas pessoas de um coração do tamanho do Universo. 
Eu vivia sozinho na casa paroquial; uma casa que foi construída pelo povo da freguesia; onde havia também um passal onde se cultivava o necessário da agricultura para o sustento da casa.
Esse passal era cultivado por um casal: o Ti Fernando e a Ti Prazeres; ele era reformado das fábricas de Canas de Senhorim, com a doença terrível que atingiu (e ainda atinge) muita  gente. Este casal foram como que os meus pais durante quase os 9 anos que passei no Seixo da Beira e Ervedal da Beira. Estavam sempre presentes fosse para o que fosse.
De inverno, com as noites geladas pelo frio que vinha da Serra da Estrela, era agradável chegar a casa e encontrar a lareira acesa para aquecer um pouco antes de ir para a cama. Pois, chegasse eu a que horas da noite chegasse, o Ti Fernando lá estava à minha espera, com a lareira acesa. Eu entrava em casa e ele sentado à lareira. Colocava o boné na cabeça e dizia: "Boa noite, sr. Padre. Descanse bem. Até amanhã, se Deus quiser!". Duma fidelidade e entrega... que ainda hoje me emociono ao recordar. Sem esperar nada em troca.
A Ti Prazeres, logo pela manhã, entrava em casa, mesmo comigo ainda a descansar, e via se estava tudo pronto para o dia. Não saía sem eu dar sinais de vida, com medo que me tivesse acontecido alguma coisa.
Não consigo esquecê-los do tanto bem que me fizeram! E sei que Deus já os recompensou pelo muito cuidado que tiveram para comigo.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

"NÃO VALHO NADA"

Vê-se que é uma pessoa simples, no verdadeiro sentido da palavra. Que sabe pensar, sabe estar e com bastante discernimento. No entanto, e apesar disso tudo, está um pouco doente do cérebro.
Falava eu de que todos temos valor e todos temos algumas qualidades; temos é de as pôr a render!
Com toda a educação, pediu licença para falar. Claro que deixei.
"O que o senhor está a dizer é verdade. Mas olhe que, ainda há uns dias, alguém me disse que eu não valho nada, que não tenho ponta por onde se pegue, que só estou a gastar os vossos impostos." E todos os outros que estavam presentes confirmaram que isto se tinha passado.
Fiquei estupefacto.
Como é possível que isto se diga a uma pessoa que está em processo de cura? Porque é que não se trabalha para se irem descobrindo as pequenas qualidades que cada um tem, a fim de que, a pouco e pouco, elas se vão potenciando? A cura não está no castigo dos crimes, mas em valorizar as poucas ou pequenas qualidades que cada um tem.

sábado, 18 de novembro de 2017

CORAÇÃO SOFRE

Há momentos na vida em que não sei que dizer nem que fazer, de tal modo as situações com que sou confrontado me deixam perplexo. E a sofrer.
Recordo-me como se fosse hoje: uma jovem em estado terminal. Passava pouco dos vinte cinco anos. Um cancro invadia-lhe todo o corpo. Medicamente já não havia nada a fazer.
Os pais estavam aflitos e em grande sofrimento. Faziam muitas perguntas. É que tinham tido um filho, fruto do seu amor. Mas este filho, sem se saber porquê, pôs termo à vida.
Um dia, souberam duma menina, ainda criança, abandonada. Resolveram adoptá-la. E assim fizeram.
Mas é esta a menina que, agora, também está a morrer.
Porquê? Porquê todo este sofrimento? Ao menos sentem a felicidade de terem tratado dela até agora.
Mas o sofrimento é muito.
Não encontrei palavras para lhes dirigir.
O silêncio e o olhar foram as minhas únicas palavras que encontrei para lhes dizer.
Coração sofre!

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

A NOSSA MÃE NÃO VAI MORRER NUMA CAMA DO HOSPITAL

Já lá vão uns meses, mas não consigo esquecer o que se passou.
Uma mãe internada há uns dois dias e que, dum momento para o outro, viu o seu estado de saúde agravar-se, até que ficou inconsciente. A idade já era um pouco avançada.Neste momento difícil, os filhos estavam à sua volta.
Chamam-me e, com toda a convicção e ternura, dizem-me:
"A nossa mãe não vai morrer aqui numa cama do Hospital. Não é este o ambiente próprio para ela morrer. Vamos levá-la para casa dela. Para o seu quarto e a sua cama. Será lá, no seu próprio ambiente, que ela partirá. Nenhum de nós a irá abandonar. Todos lá estaremos até ao fim. Nesse local onde ela nos criou, onde ela sofreu e foi feliz. Medicamente já não há nada a fazer. Mas, nós, temos ainda tudo a fazer: dar-lhe todo o nosso afecto, mesmo que ela não o sinta."
E lá partiram.
E eu fiquei comovido com tanto amor.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

UMA VIDA DEDICADA AOS FILHOS... E AGORA?

Saía eu do Hospital, afim de almoçar qualquer coisa.
Um homem, sentado num banco exterior, a olhar para o chão, mãos entre os joelhos.
Disse-lhe "bom dia!". Ele respondeu na mesma moeda.
Semblante pesado e triste. Não me atrevi a perguntar o que se passava. Mas não foi preciso perguntar. De um momento para o outro, começa a dizer:
"Estou mesmo triste. Tenho aqui internada a minha mulher. Não se encontra nada bem. Estou triste por ela. Mas não só. Tenho duas filhas. Eu e a minha mulher lutámos muito para lhes dar um curso superior. Eu andava toda a semana fora; muitas vezes, só passado um mês é que eu voltava a casa; a minha mulher trabalhava no campo. Aos fins de semana, quando eu vinha a casa, também ajudava no campo. Elas tiraram o seu curso, casaram, tiveram filhos. Fomos nós que as ajudámos a criar os filhos; ficávamos com eles para elas irem trabalhar... Agora, que precisamos delas, elas não aparecem. Ainda não vieram ver a mãe. Têm medo que, tendo ela alta, eu a leve para casa delas. Mas não! Sou eu que irei tratar dela. Mas é triste,. muito triste que elas não a venham visitar."
O que é que eu havia de dizer? Nada. Só escutei.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

UMA VIDA PRESA POR UM FIO

Não sabia bem ao que vinha. Só sentia que necessitava de ajuda.
"O meu pai está ali no átrio, aflito. Ele não queria vir ao médico, mas eu trouxe-o 'à força'. Queixa-se com dores. Julga que tem algo ruim. Não quer falar com ninguém..."
Tentei acalmá-la. Pedi licença para fazer perguntas.
Depois de longo diálogo, resolvemos ir ter com o pai.
A custo conseguimos trazê-lo até ao gabinete.
Metia dó a sua aflição. Tinha feito exames há pouco tempo. Nem queria ir ao médico porque desconfiava duma má notícia.
Pedi-lhe licença para ir ver se encontrava o médico. Disse que sim.
O médico pediu-me para o trazer até ao consultório.
Consegui que ele viesse. E deixei-os em boa companhia, a do médico.
Passados uns bons minutos, aparecem-me, pai e filha, a agradecer a ajuda. Já ficaram com consulta marcada.
Nunca mais soube deste senhor.
No entanto, há uns dias, aparece-me no gabinete este senhor.
Vinha agradecer. Agora sente-se outro. Afinal não tem nada de muito mau, apesar de ter de ter cautela com a doença.
"Obrigado, padre. Se eu não tivesse vindo aqui, eu já me tinha matado. Era essa a minha intenção quando andava aflito. A minha filha e o senhor ajudaram-me a que eu estivesse hoje aqui a conversar consigo. Obrigado"

quinta-feira, 11 de maio de 2017

PADRE, PODE DAR-ME UM ABRAÇO?

Entrou no meu gabinete a chorar. Um senhora ainda jovem.
Vinha de duas consultas.
"Não dou direito com a minha vida. Tudo me corre mal. Estou doente; muito doente. Não me consigo curar; os médicos também se vêem aflitos comigo: bem tentam ajudar-me, mas não conseguem dar com o medicamento adequado."
As lágrimas continuavam a correr-lhe pelo rosto.
Apesar da sua razoável aparência, notava-se um sofrimento atroz nas linhas do seu rosto.
Tento fazer-lhe perguntas que lhe permitissem desabafar o que lhe ia no íntimo. Sem violentar a sua privacidade.
De repente, sai-lhe lá do fundo de si mesma:
"Padre, quase há 20 anos que não sei o que é receber um carinho, um gesto de ternura!"
Não me custou depreender que estava aqui a razão de tanto sofrer.
Como é possível alguém viver 20 anos sem um gesto de ternura?
Depois de uma longa conversa, e em momento de despedida, sai-lhe um pedido do seu coração:
"Padre, pode dar-me um abraço?
Foi esta a nossa despedida.