segunda-feira, 20 de junho de 2016

A MÃO DO ANSELMO

Tem 30 anos. A esposa pediu para o visitar. Mas avisou-me que a ele lhe era muito difícil falar: o estado da doença já é muito avançado.
Entretanto, foi-me contando a história destes 3 últimos anos da vida do marido.
Há 3 anos, à primeira esposa dele foi-lhe detectado um melanoma. A doença avançou de tal maneira que, passado um ano, faleceu.
Aliviado o choque, ele tentou refazer a sua vida.
"Começámos a namorar. Tinha a esposa falecido há pouco mais de um ano. De um momento para o outro, também nele foi declarado um melanoma. Casámos há 15 dias. Quisemos que o nosso amor fosse selado pelo casamento. Está agora, aqui, internado e em fase terminal. Já quase não percebemos o que ele diz. Passe por lá. Eu já lhe disse que lhe vinha pedir que o visitasse. Hoje de manhã, muito a custo, ele perguntou-me: 'o padre não vem cá?'. Por favor, passe junto a ele quanto mais não seja para ele o ver"
Preparei-me; interior e exteriormente.
Conversei um pouco com a família que estava reunida no quarto.
Passado algum tempo, pedi para todos saírem e me deixarem sozinho com o Anselmo.
Tentei conversar. Mas que palavras podia eu ter? Há momentos em que as palavras estão a mais. Aquele momento era um deles. O Anselmo tinha muita dificuldade em respirar. Cansado e cheio de dores. Tentou dizer-me algumas palavras (poucas), mas isso ainda o cansava muito mais. Olhava para mim como que a dizer 'não sou capaz!'. Com a mão direita dele pede-me a minha mão. As nossas mãos conversaram muito uma com a outra; quase se ouvia o que elas diziam com todo o silêncio que estava no quarto.
Passados alguns minutos, o Anselmo adormeceu com a mão dele bem agarrada à minha.
Aproveitei o seu sono para rezar um pouco. A mão dele dava-me mais força para rezar. Como que a minha oração foi uma "canção de embalar".

Quanta força tinha a mão do Anselmo! E quanto eu aprendi dele!

1 comentário:

  1. Sem palavras!
    Que posso eu dizer desse silêncio sofrido desse gesto apaziguador?
    Só isto: Deus seja louvado por tanto amor derramado no meio de tanta dor...

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