Uma ambulância. Dois técnicos. Doze horas de serviço.
A correr, que é
preciso acudir com urgência, porque os casos também são urgentes. São seres
humanos que estão em causa. É a vida que está em causa.
O pulsar duma cidade onde tanta gente passa despercebida. Onde tantos vivem sem
ser notados. A solidão, o desespero, a fome, a droga, a prostituição...
Uma ressaca duma quase over-dose, um fim de semana sem comer seja o que for e a
viver na rua há já muitos meses. O marido que, ao acabar a semana, diz que se vai separar; os comprimidos, a
desilusão, o mundo que desaba duma só vez sobre os ombros, a falta de apetite
que leva a estar três dias sem comer...
Um acidente de viação de alguém que está a iniciar a vida, e a esperança dum
futuro melhor...
A solidão que se faz dor, dentro do carro num parque...
Os sorrisos de quem se sente agradecido, de quem teve alguém que cuidou.
Os segredos que se dizem no meio de tanta dor.
A alegria do dever cumprido. A felicidade transbordante de ter servido.
A entrega e a amizade dos técnicos.
Uma cidade onde choviam gotas de dor misturadas com alguns raios de sol.
A minha cidade. Que hoje, apesar de tudo, me (a)pareceu mais bonita.
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