Quando
se é internado um Hospital, tudo muda. Tem de se cortar com tudo. A nossa
roupa; a família; o ambiente; a privacidade; até muitas vezes o nosso nome
("o doente da cama 5"); a nossa posição social (um engenheiro passou
a ser o "sr. António'); os nossos hábitos alimentares; a nossa
independência dá lugar à dependência; outros 'decidem' por nós (mesmo com o
'consentimento informado', a informação não é por aí além e ficamos sem saber
de que somos informados); o nosso vocabulário não consegue atingir a enormidade
de vocábulos esquisitos e 'eruditos' com que nos falam; ficam a conhecer-nos por
fora e por dentro (todas as nossas vísceras são analisadas ao pormenor por
exames e mais exames; câmeras que nos filmam; o que até aí fazia parte do meu
íntimo, passa a ser do domínio de mais uns quantos); o nosso sono passa a ser
partilhado por mais alguns; deixa de haver lugar para uma conversa a sós com o
nosso médico, o psicólogo ou o capelão... Tudo muda. Algumas destas situações
não terão a ver com desumanização?
Há
dias, um senhor aí duns 80 e tal anos queixava-se: "Não há direito. Estou
aqui há quinze dias e ainda não me deram um copito de vinho. Não há direito.
Mas eu já os fintei: já bebi 2 copos de tinto. Um amigo encheu-se de pena de
mim e trouxe-me um vinhito. Eles não sabem. Mas os dois copos souberam-me muito
bem".
Pois.
Ainda há quem seja capaz de furar os esquemas! Este caso pode dar para rir. Mas
também pode dar para pensar.
Um dia, um colega meu, noutro Hospital, ia a passar no corredor e ouviu uma voz vinda dum quarto: "Sr. Padre... sr. Padre...". Ele ouviu e viu que conhecia aquela voz. Entrou e confirmou quem era a pessoa: uma senhora com 102 anos (!). Começaram a falar e o meu colega perguntou: "Então o que é que está aqui a fazer?" A senhora respondeu: "Viram que eu tinha uma 'promenia' e tive de vir parar ao Hospital". Nisto, ela abre a gaveta da mesa de cabeceira e tira de lá uma garrafita. Põe à boca e bebe. O meu colega diz: "O que é que está a fazer?" Resposta: "Estou a matar o bicho. Desde que me lembro que faço isto todos os dias. Esta cachacita é que me tem mantido viva!". Palavras para quê?
Com estes dois casos, não estou a querer dizer que eles foram fruto da desumanização. Contei-os simplesmente para aliviar um pouco os pensamentos dos meus queridos leitores(as).
Pois é verdade sim, tudo muda e até o nº pode mudar se mudar de cama ou quarto.
ResponderEliminarDesumanização? Não sei porque entre os profissionais de saúde vi e ouvi muitas vezes isso... o doente da cama nº, mas quando chegam junto do paciente também ouvia chamar pelo próprio nome e muitas vezes cansados ainda havia uma abertura para uma brincadeira.
Quanto à senhora de 102 anos ela fez o que muitos fazem.... "furar os esquemas" e diga-se que se fazem , sabe-lhes muito bem :)