sexta-feira, 9 de setembro de 2016

TER MÃE

Hospital de Dia. 
Porque é 6ª feira, a sala está ocupada só a 50%. 
Pessoas de todas as idades e sexos. 
Uns acompanhados por um familiar. Outros (muito poucos) sozinhos. 
Uns mais tristes, outros nem tanto. Uns com vómitos, outros já 'experimentados' nestas lides. 
Alguém que vem fazer tratamento pela primeira vez: olhar e rosto interrogativos; e estava sozinho; sentia-se desamparado; 55 anos, mas com ar de quem aparenta uns 70.
Um jovem de 20 anos com linfoma. A mãe acompanha-o. Ele dorme. Não o quis acordar e conversei com a mãe. As mães são sempre um poço de afecto, de preocupação pelos filhos. Preferiam sofrer elas e não ver sofrer os filhos. "É ele que me vai dando força. Para não me ver a sofrer diz-me para não estar triste porque, senão, as minhas rugas vão ficar mais acentuadas. Procuro não lhe mostrar o meu sofrimento; mas, às vezes, tudo é superior a mim. Vou ver se não perco a esperança!"
Deixo-a. Passados uns minutos, olho para trás e vejo a mãe a olhar fixamente para o filho. Parecia que estava a conversar com ele. Mas ele continuava a dormir.

E olho novamente para o homem de 55 anos. Doeu-me o semblante deste homem. De quem não compreendia o que se estava a passar. E continuava sozinho. Já não tinha mãe para falar com ele, mesmo no silêncio.

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