Vinha
banhada em lágrimas.
Pediu licença para entrar, apesar da porta estar aberta.
Saudei-a com dois beijos e convidei-a a sentar-se.
Não conseguia falar:
soluçava. Eu já conheço a sua situação. Esperei até ela ser capaz de falar. O
silêncio permitiu que ela acalmasse.
Foi capaz de começar a dizer tudo o que se
tinha passado.
"Estou
aqui sem dormir. O meu marido, esta noite, chegou a casa cheio de vinho. É
sempre assim: sempre que bebe demais, eu é que pago. Maltratou-me. Tive de
fugir. Chamei uma ambulância, porque estava bastante machucada. Mas desisti
porque eu não queria apresentar queixa. E não quero. Se o acuso, não terei mais
algum apoio. Estou grávida de 24 semanas. O dinheiro que ganho é muito pouco.
Ainda temos o subsídio de desemprego dele. Mas não sou senhora de dinheiro
algum. E sempre que quero alguns euros para comprar seja o que for, tenho de
pagar com o meu corpo. É nessa altura que ele me compra para ter relações
sexuais. Como é que vou aguentar esta vida? Dentro de pouco nasce o meu filho e
eu não tenho roupa nenhuma para lhe vestir. Quem me ajudará?"
E as lágrimas
continuavam a banhar-lhe todo o rosto. À porta tinha mais gente à espera que eu
as atendesse. Mas o mais importante, naquele momento, era atender esta mulher
dorida e aflita.
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