quarta-feira, 7 de setembro de 2016

24 SEMANAS DE GRAVIDEZ

Vinha banhada em lágrimas. 
Pediu licença para entrar, apesar da porta estar aberta. Saudei-a com dois beijos e convidei-a a sentar-se. 
Não conseguia falar: soluçava. Eu já conheço a sua situação. Esperei até ela ser capaz de falar. O silêncio permitiu que ela acalmasse. 
Foi capaz de começar a dizer tudo o que se tinha passado.
"Estou aqui sem dormir. O meu marido, esta noite, chegou a casa cheio de vinho. É sempre assim: sempre que bebe demais, eu é que pago. Maltratou-me. Tive de fugir. Chamei uma ambulância, porque estava bastante machucada. Mas desisti porque eu não queria apresentar queixa. E não quero. Se o acuso, não terei mais algum apoio. Estou grávida de 24 semanas. O dinheiro que ganho é muito pouco. Ainda temos o subsídio de desemprego dele. Mas não sou senhora de dinheiro algum. E sempre que quero alguns euros para comprar seja o que for, tenho de pagar com o meu corpo. É nessa altura que ele me compra para ter relações sexuais. Como é que vou aguentar esta vida? Dentro de pouco nasce o meu filho e eu não tenho roupa nenhuma para lhe vestir. Quem me ajudará?"
E as lágrimas continuavam a banhar-lhe todo o rosto. À porta tinha mais gente à espera que eu as atendesse. Mas o mais importante, naquele momento, era atender esta mulher dorida e aflita. 

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