domingo, 31 de julho de 2016

IRÃO À VOSSA FRENTE

Os meus amigos sabiam que eu, com alguma frequência, ia passar alguns momentos do meu dia (ou noite) a locais onde havia prostituição feminina.
Tentava "estar com", ouvir os lamentos, as histórias de vida com muito para contar.
Pois esses meus amigos começaram a pedir-me para eu levar os seus filhos e filhas.
Tive alguma relutância.
Não por medo dos jovens, mas por pudor e respeito para com as prostitutas. É que custa expôr a vida a pessoas que não "estão" dentro da vida.
Mas acedi.
Um dia, fui com um pequeno grupo de jovens.
Dirigimo-nos ao local onde se encontravam as prostitutas.
Uma delas chamou-me; já nos conhecíamos.
Tinha 65 anos. Vivia numa casa com duas divisões: sala-cozinha e quarto.
Eram quatro pessoas que lá habitavam: ela, um filho com cancro, a filha e o genro (estes dois desempregados).
A Deolinda era, naquela casa, a única que podia ganhar alguma coisa para o sustento de todos. Com a idade que tinha, não conseguia arranjar emprego. Só lhe restava uma coisa: a prostituição.
Conversamos.
A malta nova entra na conversa. Mesmo muito interessados. Por tudo: pelo ambiente, pela história de vida; fazem perguntas... eu "assisto".
A certa altura, a Deolinda vira-se para mim e diz: "Sabe? Esta minha vida é uma merda! Mas não tenho outra maneira de ganhar pão para casa e para a família. Os que me procuram (e não são muitos, porque a minha idade já é muita) vêem em mim menos que um objecto. Muitas vezes sinto-me um farrapo. Mas... Sabe uma coisa? No meio disto tudo, só tenho uma certeza: Sei que Deus gosta de mim! Assim como sou!"
Ouvimos. Calámo-nos. Engolimos em seco.
O carinho manifestado pelos jovens passou a ser mais intenso. A conversa tornou-se mais viva.
Na viagem de regresso a casa, eles vinham em silêncio.
O encontro com a Deolinda tinha sido de tal maneira marcante, que não lhes apetecia falar.

Ainda hoje eles (já adultos) me falam dessa experiência que tiveram. 

1 comentário:

  1. " O encontro com a Deolinda tinha sido de tal maneira marcante, que não lhes apetecia falar.

    Ainda hoje eles (já adultos) me falam dessa experiência que tiveram. "
    E como marcaram...
    Grata por tudo o que viveu e ensinou da vida a esses jovens. Fez-lhes bem ver esse lado da vida, ah se fez!!!
    Não é Vida como a Deolinda dizia, mas era a vida possível. Não podia baixar os braços, a família precisava...
    Aprenderam muito e essa aprendizagem, camaradagem e respeito perpetua-se.
    OBRIGADA pela lições de vida que expôe aqui e pelo muiiiiiito que dá e se dá.

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