sábado, 7 de maio de 2016

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Fui chamado muito à pressa e com muita urgência:
"Venha cá acima. A senhora Alda está muito mal; tem a vida presa por minutos. Com ela estão o marido e duas amigas."
À pressa, dirigi-me para o quarto da senhora Alda. Encontrei o marido muito choroso e as duas amigas. Assim que ele me viu, saiu do quarto. Deixou-me a sós com a esposa. Mas vi que ela, afinal, já tinha falecido. Rezei um pouco. Quando saí do quarto, notei que o marido já lá não estava: tinham-no conduzido para a sala de estar. Procurei-o. Entretanto, passei pela sala de enfermagem e notifiquei os enfermeiros do que se estava a passar. E que mandassem chamar um médico, porque o senhor António iria precisar dele.
Na sala de estar, tentei conversar com o senhor António.
"Padre, estou a sofrer muito. Que será de mim sem a minha mulher?! É a minha única companhia. Mas eu ainda espero que ela consiga ultrapassar este momento. Temos programado um passeio para daqui a oito dias. E tenho a certeza que vamos fazer esse passeio."
Ajoelhei-me em frente do senhor António. Eu não era capaz de fazer outra coisa senão de o olhar, olhos nos olhos. Creio que o meu olhar era interrogativo. Mas muito mais interrogativo era o olhar do senhor António.
"Padre, o que é que acha? Ela vai conseguir melhorar?"
Eu continuava a olhá-lo.
"Sabe, padre, amamo-nos muito um ao outro! Eu não a quero perder."
E eu continuava a olhá-lo.
"Diga-me a verdade, padre. Diga-me sim ou não"
"Senhor António, que verdade é que quer saber?"
"Toda. Toda a verdade!"
"Mas quer saber mesmo toda verdade?"
(o que é que seria melhor? dizer-lhe toda a verdade, já ali naquele momento, ou esperar que ele fosse para casa, e os amigos transmitirem-lhe a verdade de que a senhora Alda tinha morrido? O senhor António era um doente deste Hospital; tem uma história clínica um pouco complicada: havia que ter cautela; por isso, eu tinha pedido que fosse chamado um médico)
"Diga-me, senhor António: quer saber mesmo toda a verdade?"
"Sim, padre, quero saber toda a verdade!"
Uns momentos de silêncio. O senhor António olha de novo para mim. Encontrou nos meus olhos um desejo enorme de lhe dizer mesmo toda a verdade.
"Ela morreu?!"
"Quer saber mesmo toda a verdade, senhor António? (o seu olhar dizia-me que sim) Sim, senhor António. A sua Alda já faleceu! E faleceu quando o senhor estava junto a ela.
Silêncio aterrador! Ele agarrou nas minhas mãos. Chorou copiosamente.
"Ao menos, eu estava ao pé dela quando ela morreu. Agradeço-lhe ter-me dito a verdade. Rezou por ela?"
"Sim, senhor António. E também rezei por si"

Imediatamente chegou o médico para tratar do senhor António.

3 comentários:

  1. Que dizer?
    Chorei, pelo Sr António e por si.
    Meu Deus, quanta angustia de parte a parte, quanta dor e inquietação, mas todos nós precisamos de mensageiros, mesmo que sejam de "más" notícias. A verdade por vezes é cruel mas é fiel. Deus coloca nos lugares certos as pessoas certas e Sr é um privilegiado nesse belo trabalho que realiza.
    A D. Alda deve ter partido tão em paz com a companhia do marido que ele nem notou...
    Muito bom para ele, também esteve até ao último respirar da sua mulher!

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  2. Ainda bem que, ainda, é possível existirem pessoas que se dedicam desta forma A PESSOAS em momentos cruciais da nossa existência...!

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  3. Fico feliz por saber que ainda existem pessoas assim, voluntárias do serviço ao outro. Este testemunho, enche-me de esperança e de crédito. Tanta gente que vê o seu semelhante sofrer, até mesmo seus familiares e apenas ollam para os seus umbigos ou alegam falta de tempo e mesmo até inimizades...
    Esses seres MARAVILHOSOS, fizeram "um cordão" de amizade pura e desinteressada e com ou sem conhecimento das obras de misericórdia, eles cumpriram.
    É nestas alturas que se conhecem os verdadeiros amigos, ou mesmo família.
    Um ato de louvor a agradecer por seres assim... amorosos e luminosos.
    Obrigada Pde. Zé António.
    Isaura

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