Estava
a escrever algo no meu gabinete.
Ouço
bater à porta.
"Posso
entrar, padre?" Era uma senhora dos seus 40 e tal anos.
Levanto-me
para receber. Mas vejo que vem assustada, num sofrimento bastante grande.
Convido
a sentar-se. Nem foi preciso fazer fosse que pergunta fosse.
"Estou
revoltada, padre. Já fui à capela. Disse tudo a Deus. Revoltada. Porquê isto,
agora? A minha filha, de 20 anos, tem leucemia. Ela sempre sofreu toda a pouca
vida que tem. É epiléptica. Sempre tivemos de ter muitos cuidados com ela; o
seu desenvolvimento nunca foi igual a outra criança 'normal'. Já não bastava o
que ela tem sofrido!?... Agora aparece-lhe uma leucemia. Porquê? Estou revoltada
com Deus. Já Lhe disse tudo. Sei que, por Lhe ter dito o que disse, estou com a
minha consciência pesada. Mas é o meu amor de mãe que me leva a isto..."
Fiz
silêncio. Pela minha parte, estava calmo; procurava ouvir. Mas continuou o
silêncio.
Então,
lancei uma pergunta: "Já disse mesmo tudo o que tinha a dizer a Deus, ou
ainda aí ficou alguma coisa?"
"Para
lhe ser franca, por pudor, ainda ficou aqui alguma coisita".
"Pois
olhe, vá lá novamente à capela e diga-Lhe tudo o que faltou dizer-Lhe."
"Acha
que eu devo ou posso fazer isso?"
"Claro
que pode. A Deus podemos dizer-Lhe tudo. Ele não se zanga connosco. Ele ouve
tudo por amor. Era também assim que os salmistas faziam: diziam-Lhe tudo. E,
quando somos capazes de Lhe dizer tudo, mesmo muito revoltados, estamos a
iniciar o nosso processo de cura."
"Obrigada,
padre. Tirou-me um peso enorme da minha consciência".
E
quanta força esta mãe vai necessitar de ter!...
Ela lavou a alma com este desabafo. É que Deus só escuta mesmo, não há o diálogo audível das duas partes, assim, descarregando as emoções e sentimentos, penso que alma dela ficou leve, lavada.
ResponderEliminarAtrevo.me a dizer isto: Deus/Jesus, quis ficar ali.... no sacrário para isso mesmo, para nos ouvir. Podemos falar em casa ou mesmo desabafar com pessoas mas não é a mesma coisa.
ELE está lá para ouvir essa e muitas mães, pais, todos.
Que Deus a conforte, pois a "cruz", adivinha-se pesada.
Obrigada Pde. Zé António, pela encorajadora força que deu e que nós muitas vezes tememos de falar...
Bjo