Tem 27 anos. Futuro promissor. Trabalha para uma Multinacional. Dá aulas. Conferências. Tem projectos. Desenvolve descobertas e parcerias.
Namora. Além do trabalho, anseia constituir família. Como quase toda a gente. Desconfia que tem um linfoma. Ainda não tem a certeza.
Voz calma, apesar de dizer que ela está muito diferente do que era ("Aprendi a colocar a voz!"). Temos conversado um pouco: o possível. Até porque se cansa a falar: tosse com alguma frequência. Há alguns dias dei com ele a dizer-me: "Estou a descobrir que sou ateu". "Porquê?", perguntei eu. "Ouço os meus colegas doentes a lamentar-se e a dizer 'porquê a mim?' 'que mal fiz eu a Deus?' 'Deus está a castigar-me'... Eu não sou capaz de dizer isso. Na minha mentalidade científica, tudo isto faz parte da natureza humana."
Lembrei-me de alguém que já há uns tempos me dizia que "o Hospital é um cemitério de Deus". As imagens de Deus que vamos construindo na vida, é no Hospital que as enterramos. O deus tapa-buracos, o deus milagreiro, o deus justiceiro, o deus que está fora e que chamamos para actuar em cada situação tornando-nos infantis religiosamente... estes deuses morrem no Hospital. Temos de os enterrar. Porque eles não são o Deus de Jesus Cristo. Como diz alguém: "Deus está connosco, mas guarda silêncio"
O António não é capaz de 'atacar' Deus na sua doença. Pela minha parte, não sei se ele está a ser tão ateu quanto isso! Mas quero respeitá-lo na sua não-crença.
Dá gosto falar com este rapaz. Só espero que ele consiga realizar o que pensa para daqui a 5 ou 6 anos (já que não conseguiu realizá-lo por enquanto): vir a ter filhos.
Um abraço, António. Continuaremos a falar. Sempre que quiseres e possas.
Não sei se ele é tão ateu quanto se julga...
ResponderEliminarSei que ele tem razão quanto à nossa natureza humana que é passível de muitas "mazelas" como outro ser vivo qualquer.
Quanto a interpelar Deus sobre isso ou aquilo, há na verdade muitos. Todos, ou quase, querem um deus bombeiro...
No fundo, no fundo, eu penso que ninguém é ateu, muitos se confessam assim, mas...
Vamos esperar que ele resolva com a força que lhe é possível superar essa doença e que realize os seus projectos de vida.
Ateu ou não, ele é filho de Deus e Ele como Pai não esquece nenhum filho, ainda que o filho nada lhe peça....
Gostei da comparação: hospital=cemitério de Deus, dá para pensar...
isaura
Hospital cemitério de Deus... essa noção já apareceu mas sem essas mesmas palavras.
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