sábado, 8 de outubro de 2016

DEIXOU-SE CAIR NOS BRAÇOS DO PAI

11 da manhã. Toca o meu telemóvel.
"O Enfº... está pior; parece-nos que está próximo do último suspiro; quando ele vê entrar uma bata branca no quarto, pergunta sempre se é o senhor; não daria para vir cá?"
Eu estava a 80 Km. Decidi pôr-me a caminho.
Cheguei ao seu quarto. A sua voz já quase não existia; no entanto, ainda que com dificuldade, conseguia perceber-se alguma coisa. Ele mesmo tira a máscara do oxigénio para se fazer ouvir melhor. Balbuceia algumas palavras, as quais tem de repetir para eu perceber. Escutei e guardei. Pergunto se quer água. "Que sim". Bebe com sofreguidão. Pergunto-lhe: "Quer, então comungar?" Faz-me sinal que sim com a cabeça. Vou buscar a Comunhão. Juntamente com a esposa, rezamos. "Senhor, queremos falar-te do ... ele está muito mal; olha para o seu estado de sofrimento..." Estávamos os três unidos em espírito, em sofrimento e também fisicamente: as nossas mãos estavam entrelaçadas. Dou-lhe um pedacinho da partícula. Ele ajuda com a sua mão. Tento dar-lhe água; já não tem forças para a sorver.
Depois de ter recebido a Comunhão sob a forma de Viático (como que o "Farnel" para a última viagem), só sou capaz de lhe dizer: "ao partir, vamos ser acolhidos nos braços do Pai, onde seremos felizes para sempre!"

Às 21 horas, cansado, deixou-se cair nos braços do Pai. 
Neles, descansará para sempre.

1 comentário:

  1. Que enternecedor final de vida!
    Que bom ter anjos que ajudam a desligar e a suavizar o momento....
    O Sr é um privilegiado, sei que traz sofrimento mas também momentos de graça como este.
    Força e coragem para continuar a ajudar.

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