Então, nas aldeias afastadas da sede de freguesia, tudo isto redobra de valor. Até se aproveita para ir colocar umas flores do próprio jardim nas campas dos seus entes queridos.
Tudo isto feito com muito amor.
Aproveita-se também para levar para casa aquilo que não se encontra à venda na pequena loja da terra... um peixe, um bife pequeno...
A Ti Maria e a Ti Aida.
Todas as semanas vinham ao médico; sempre as duas; vinham fazer o ponto da situação, conversar, falar das dores nas costas, da falta de apetite, das dificuldades em dormir...
O dia de virem ao médico era também dia de irem ao cemitério.
Ambas eram viúvas. Vinham dizer "Presente" ao amor que as tinha mantido felizes durante muitos anos. Conversavam, como se os maridos ali estivessem a ouvi-las (e não estariam?), deixavam uma flor em cima da campa.
Era Dezembro. Fazia frio. Tinha sido uma noite daquelas de "caramelo". A água estava gelada. Eu tinha roupa para lavar. Aqueci um pouco de água para "temperar" a que já estava no tanque da roupa.
Comecei a lavar; debaixo dum alpendre, bem escondido.
Eis senão quando aparecem junto a mim a Ti Maria e a Ti Aida. Vinham do cemitério (a minha casa ficava a uns
"Bom dia!"
"Bom dia minhas meninas. Como têm passado?"
"Bem. Cá com as nossas doenças... Viemos ao médico e aproveitámos para vir também ao cemitério"
"E vão já para casa? Querem tomar alguma coisa? Está tanto frio!..."
"Não, muito obrigadas. Fica para outra vez. E não será assim tão longe quanto isso!"
Despediram-se.
Continuei a lavar a minha roupa no tanque.
Passado algum tempo depois. Dia do meu aniversário.
A meio da tarde ouço bater à minha porta. Vou ver quem era.
"É aqui que mora o sr. José?"
"Sim, sou eu"
"Trago-lhe uma encomenda"
Abre a porta da carrinha e tira de lá uma caixa grande.
Pede-me ajuda para a descarregar. Vou ajudar, sem saber o que se passava.
Nisto saem da carrinha duas senhoras que vinham escondidas: eram a ti Maria e a ti Aida. Começam a cantar os "parabéns a você".
Eu também canto, porque a ti Maria também fazia anos nesse dia.
Descarregamos a caixa; levamo-la para dentro de casa.
Abrimos. Era uma máquina de lavar roupa!
"Gostámos de o ver a lavar a roupa no tanque, naquele dia. Mas... com uma máquina ficará mais livre para outras coisas".
Comemos e bebemos do que havia. E havia bastante, porque elas trouxeram um leitão assado!
Não sei porquê, mas estas duas mulheres ficaram sempre com um cantinho no meu coração!!! Eu sei que também estava no delas!
Um gesto de ternura e afecto !... Podia ser apenas uma flor ou uma caixinha de bombons, que faria o mesmo efeito num coração atento a quem lhe quer bem!... " Bem haja por ser essa pessoa de coração sensível, atento e agradecido a quem lhe quer bem! Abraço
ResponderEliminarDá gosto ter Amigos assim, não é Ti Maria e Ti Aida? Somos mais felizes. Não sou religioso, somente um Homem de Fé em Deus, no "meu" Deus, muito próximo do Deus de Friedrich Nietzsche, mas tem falado mais alto nesta amizade, o coração, e aí, José, também estás num cantinho do meu coração. Bonito texto sobre a importância dos Afetos.
ResponderEliminarMedelim, 24/10/2016 -Gostei do que li, não só pelo gesto simpático, pleno de oportunidade, mas principalmente pleno de amor e de entrega ao próximo, destas duas senhoras. Não se sabe se houve ou não, sacrifício monetário por parte destas doadoras da máquina de lavar, mas o que na verdade é um facto é a sua entrega à causa que não foi nem mais nem menos que ajudar o próximo. Fico feliz,por constatar mais um gesto de entreajuda entre pessoas. Obrigado à tia Aida e à tia Maria, pela sua sensibilidade e pelo amor ao próximo.Fica um beijinho meu.
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