segunda-feira, 17 de outubro de 2016

GOLIAS E DAVID (COM O LUÍS PELO MEIO)

Uma daquelas noites que passava "na rua".
Mas nesta noite resolvi ir sozinho. Aventurei-me.
Eu que não sou nada "forte"!
Fazia alguma ideia dos vários perigos que poderia correr; mas...Coração ao largo e lá me pus a caminho.
Já conhecia muitas das moças que estavam na rua. Elas já tinham à vontade para conversar comigo. Falávamos de muita coisa. Sobretudo das suas solidões, da violência física e psicológica a que eram sujeitas, da sua falta de recursos económicos...
Passei pela Gracinda; perguntei como estavam os miúdos e o companheiro.
"Estão todos no café ali ao lado".

Já eram umas 2 horas da manhã.
O café estava cheio de gente da noite. Sobretudo homens (chulos), porque as mulheres estavam na rua a "trabalhar".
Dirigi-me à Lídia. Era a primeira vez que a via por ali. As perguntas do costume, mas sem querer saber muito acerca da sua identidade; é bom manter um certo resguardo para que as pessoas não se sintam "expostas".
Disse-lhe quem era e ao que andava. Respondeu-me que as colegas já lhe tinham falado de mim. Sobretudo a Gracinda que estava ali ao pé já lhe tinha contado algumas coisas.
Passados uns 15 minutos de conversa, vejo que sai do café um autêntico "Golias": era o chulo da Lídia. Vinha com ar ameaçador.
"O que é que está aqui a fazer? Ela é minha!"
Coitado de mim, pequenito "David"! Tentei explicar o que estava a fazer.
"Não quero saber nada disso! Faço-o já em bocados!"
Eis senão quando vem de dentro do café o Luís (chulo da Gracinda); já nos conhecíamos há muito.
"Eh pá, não lhe faças mal nenhum que ele é nosso amigo. Por favor, deixa-o. Ele só quer o nosso bem. Não anda aqui para as roubar à gente. Deixa-o."
O Luís foi a minha salvação naquela noite.
Levaram-me para o café e juntei-me à malta que lá estava. Os três conversámos bastante.
Será que alguma coisa lá ficou naqueles corações?
Espero que sim. 

3 comentários:

  1. Que maravilha ler os seus testemunhos. O Senhor ser´~a sempre o seu protector

    ResponderEliminar
  2. Coitadas porque são vitimas de quem as devia proteger; os seus companheiros, que em vez disso são seus chulos, vivendo do dinheiro que elas ganham nessa vida, tão perigosa a todos os níveis. Que bom terem ao seu lado alguém como o Padre Zé António, para lhes dar algum apoio.

    ResponderEliminar
  3. Lembro-me muito bem desse tempo, desse trabalho amoroso mas muito árduo. Ainda trouxe aqui à Lousã algumas dessas "vítimas" maravilhosas e ainda hoje conheço algumas que conseguiram refazer as suas vidas.
    "Fica sempre um pouco de perfume nas mãos de quem oferece rosas"
    Ficou certamente muito perfume por lá...
    Obrigada pelas maravilhas que partilha connosco.

    ResponderEliminar