quinta-feira, 28 de julho de 2016

A SOLIDÃO ATÉ NA MORTE

   O que experienciei há uns dias, fez-me lembrar o que vivi há uns tempos atrás e que passo a transcrever:

"Pediram-me para ir visitar o Ti João; estava muito mal. De idade avançada; solteiro; sempre tinha vivido sozinho; sem ninguém de família por perto.
É verdade que a sua maneira de ser era bastante especial; por isso, não era muito bem-quisto pelas pessoas. Também não era lá muito abastado de riquezas.
Fui visitá-lo. Conversámos durante algum tempo. Estava mesmo muito mal.
Quando saí de junto dele, notei alguma preocupação por parte das pessoas que estavam ali, junto à casa.
"Como vai ser se ele morrer? Como vamos fazer? Ele não tem ninguém!..."
Havia dúvidas a mais nas pessoas.
Passados dois ou três dias, o Ti João morreu.
Durante a Celebração, na Capela, não notei nada de especial. E até estava muita gente!
Terminada a Celebração era necessário pegar na urna para iniciarmos o cortejo para o cemitério. Ninguém se mexe. Ninguém mesmo; nem os membros da Irmandade, que, normalmente, exerciam essa tarefa. Olho para toda a gente; ninguém está interessado em olhar para mim. Era suposto (?!) que, se os irmãos da Irmandade não pegassem na urna, ao menos se apresentassem homens para isso. Ninguém se mexe.
"Se houver aí três senhoras que se disponibilizem, ajudem-me a pegar na urna". Vieram três senhoras ajudar-me.
Quando chegamos à rua, ouço uma voz a proclamar bem alto:
"Se ninguém o quiser levar, eu vou a minha casa buscar uma rodilha e levo-o à cabeça!"
Colocámos a urna na carrinha da Agência.
Chegados ao cemitério, a mesma cena: eu e três senhoras é que transportámos a urna."

 Então, há uns dias tive de presidir a um funeral de uma pessoa institucionalizada há mais de 30 anos. Éramos 5 pessoas: eu, duas Profissionais da casa e dois funcionários da agência funerária.

2 comentários:

  1. Fico triste, não por quem morreu mas por quem vive e no lugar do coração tem uma pedra :(
    Quero acreditar e atrevo-me a afirmar que essas almas teriam muito mais "anjos" a acompanhá-los. Deus é fiel e não falta aos seus filhos "pródigos".

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